domingo, 7 de março de 2021

The man in the arena



“It is not the critic who counts; not the man who points out how the strong man stumbles, or where the doer of deeds could have done them better.

The credit belongs to the man who is actually in the arena, whose face is marred by dust and sweat and blood; who strives valiantly; who errs, who comes short again and again, because there is no effort without error and shortcoming; but who does actually strive to do the deeds; who knows great enthusiasms, the great devotions; who spends himself in a worthy cause; who at the best knows in the end the triumph of high achievement, and who at the worst, if he fails, at least fails while daring greatly, so that his place shall never be with those cold and timid souls who neither know victory nor defeat."
Theodore roosevelt, 1910



sábado, 20 de fevereiro de 2021

I walk, I cry, but i won´t complain

 


20 de janeiro de 1893


Querida avó, 


a minha terapia és tu. Quando tudo é vazio, profundo e buraco negro. Quando tudo é medo. 
Há tanto tempo que não te escrevia mas tenho o coração logo depois da pele e consigo senti-lo como se ele estivesse a preparar-se para me rasgar e sair.

 Sabes avó, a última vez que olhei para mim não tinha nem mãos, nem pernas nem ombros.
Avó, eu tocava-me e eu não era eu porque eu não tinha nada, avó, não tinha corpo refletido.

A última vez que me vi ao espelho apalpava a minha cara e não tinha curva do rosto, sabes avó, não tinha bochechas, lábios: não tinha nem nariz nem olhos nem boca, apalpava-me desesperada na cara e não havia sobrancelhas, nariz. Eu tocava-me e nada, nada, avó.

Avó, a maturidade e a sabedoria do tempo afinal ainda não são suficientes para me ter feito como tu, ou como a bisa, que um dia procurou um médico pelo seu próprio pé quase a morrer.

Como é que se faz, avó, para deixar de ser isto por dentro quando tudo é fragilidade? Não sei.
Pensei que o poder de saber exatamente quem sou e  para onde vou me dessem esse lugar no mundo, mas não.
E pensei que o amor me salvasse mas ele parece não conseguir fazer isso por mim. 
Talvez não lhe caiba esse inside job. Talvez eu sempre tentasse que alguém em salvasse e me desse o que eu parecia não conseguir chegar aqui de dentro.
Aqui de dentro.

Não sei, avó.
Pensava que sabia mais disto do que sei.


Voltei a escrever.
Reparei agora.







segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Quase um mês

 


Querido padre João, 


Bem sei que ai no Céu não há tempo, mas aqui passou quase um mês.

De facto, nem tive tempo para chorar convenientemente a sua partida, se lhe dissesse que trabalhei quase dois meses ininterruptamente não sei se acreditaria... mas ai no Céu é possível ver para trás, e eu sei que sempre soube que eu era uma máquina de trabalho.

Evito que falem de si perto de mim - digo claramente que não quero falar e imponho-me. Aguento-me até onde é humanamente possível.

 Não liguei cobardemente à sua irmã este Natal, não estou preparada. O nosso reencontro no seu velório não foi aquilo que treinei: desmanchei-me a chorar no colo dela e devia ser o contrário, não era? eu aguentar para ela chorar no meu. Não fiquei para o beija-mão do seu funeral porque nunca fui disso e eu só tinha ido a Aveiro para me despedir de si e termos uma conversa séria: ainda não percebo porquê, não podia ter esperado por mim só um bocadinho mais, sabe? eu ia vê-lo quando estivesse tudo gravado e tudo pronto.

Mandei-lhe flores e sei que não fez ideia que eram minhas, mas não faz mal. Faria tudo de novo para tentar que se lembrasse de mim. Ou não, porque eu lembrava-me do início da nossa amizade e para mim, fosse o seu corpo aquilo que fosse, ia ser sempre um dos meus melhores amigos e o resto é a nossa história.
Pensei que haveria tempo para ir vê-lo, sabe? Acho sempre que há tempo e às vezes não há. Eram só mais duas semanas para eu me plantar à porta do lar até que me deixassem entrar, mesmo que não soubesse quem eu era, eu sabia quem o Pe. João era e estava pronta para fazê-lo recordar-se por que razão me tinha escolhido para receber a sua enorme amizade, tão provada em tantos momentos.


O caixão estava fechado por isso só tive oportunidade de me despedir de si com um beijo numa madeira fria e distante, longe dos nossos cumprimentos felizes e das nossas risadas.


Reconheci em si e reconhecerei sempre, um super-herói. Daqueles que põem a capa na cadeira da mesa da cozinha para jantar e depois voltam a colocá-la para sair. 


Eu fiquei vazia, mas o mundo ficou indefinidamente mais pobre e pequeno e triste.

p.s: guardei as suas sms e os seus e-mails. Para puder tê-lo mais perto nos dias em que tiver mais saudades. A Porto Editora nomeou hoje a palavra "Saudade" como a palavra do ano. 


p.s2- soubesse eu que o último encontro da Pastoral seria a última vez que estaríamos juntos.