quarta-feira, 13 de abril de 2022

Nasceste

 

Querida V.,


Tive o parto que sempre pretendi e nasceste de uma forma tranquila e bonita.

 Não eras um bebé enrugado e feio como todos os recém-nascidos normalmente são mas eras uma bebé de olhos gigantes e rechonchuda.
Tive sorte por me escolheres como mãe. Penso nisso todos os dias mesmo que chegue o dia em que te tornes uma adolescente insuportável e eu berre contigo: vou gostar de ti mesmo que batas com as portas malcriadamente e eu tenha de te castigar. Fará parte.
Como agora faz parte conhecer-te, amar-te e cantar para ti.
O teu pai canta-te as músicas dos mamonas Assassinas para dormires e eu não sei bem o resultado que isto terá na tua personalidade, mas enfim. Também te ponho a ouvir Pixies desde a barriga, por isso vamos ver.


Tive um pós-parto difícil mas tu tornas-me uma pessoa melhor.
O teu pai adora-te um bocadinho mais todos os dias e contigo aprendemos a ser uma família, de alguma forma vieste ensinar-nos também isso.


Em breve volto ao trabalho e não sei como viver todo o dia sem ti. Tornaste-te um apêndice , uma terceira perna minha, um terceiro braço.
Ou como diz o Sérgio Godinho, és "em baixo outra asa".


Que viagem, querida bebé.
Que saibas sempre que és amada todos os dias mais.






Querido V.

  Moçambique, 27 de março de 1906 Preciso deixar-te ir.  Por onde começar?