Moçambique, 24 de março de 1906
Habituei-me a escrever-te apesar do nosso fim trágico. Não sei como não te disse adeus de uma forma mais digna, mais doce, mas sai zangada. Mais comigo do que contigo. Mais a saber menos do amor, do que a saber mais.
Abri as portadas, as janelas e agora estamos todos na sombra que o amor deixa quando vai embora e não sei bem o que fazer comigo nem com a lembrança que tenho de ti.
Fui sempre péssima nas despedidas, péssima a apanhar cristal do chão - não o devemos apanhar nunca com as mãos, bem sei, não devemos apanhar com as mãos. Ajuda-me a esquecer. Ajuda-me, por favor.
Tenho saudades do entendimento, da conversa de horas, da mestria das linhas retas onde não cabem curvas e contracurvas de emoções do avesso. Tenho saudades de dormir a pensar em ti e no amor que te sinto. E depois disto? O que sobrará de mim?
Vou afogá-los - o amor e a saudade, leia-se - num balde de água quente para não ter de os voltar a ver nunca mais. Nunca mais não será demais.
Gostava de te ter dito adeus e obrigada e não me deixes ir. Mas não disse nada e fui.
E o que faço comigo depois de ti?