sexta-feira, 27 de março de 2026

Querido V.

 

Moçambique, 27 de Março de 1906



Deixo-te ir depois de me despedir de ti. 

Despedi-me de olhos fechados com um beijo tranquilo na tua face. Agradeço tudo e não lamento nada. Acredito que me deste o que devias ter dado para que aprendesse e seguisse depois de ti: depois de ter aprendido sobre o amor e, de alguma forma,  sobre mim também. Tantas vezes preciso dos outros para me descobrir cá dentro.

Mas e nós.  Acho sempre que há alguma coisa de muito especial em abrir a mão e deixar ir. Fiz o esforço de chegar até esta praia mas agora é com o vento: o vento sempre traz e sempre leva. 

Como naquele dia na praia.

quarta-feira, 25 de março de 2026

segunda-feira, 23 de março de 2026

Querido V.

 


Moçambique, 24 de março de 1906


Habituei-me a escrever-te apesar do nosso fim trágico. Não sei como não te disse adeus de uma forma mais digna, mais doce, mas sai zangada. Mais comigo do que contigo. Mais a saber menos do amor, do que a saber mais.
Abri as portadas, as janelas e agora estamos todos na sombra que o amor deixa quando vai embora e não sei bem o que fazer comigo nem com a lembrança que tenho de ti.

 
Fui sempre péssima nas despedidas, péssima a apanhar cristal do chão - não o devemos apanhar nunca com as mãos, bem sei, não devemos apanhar com as mãos. Ajuda-me a esquecer. Ajuda-me, por favor.

 Tenho saudades do entendimento, da conversa de horas, da mestria das linhas retas onde não cabem curvas e contracurvas de emoções do avesso. Tenho saudades de dormir a pensar em ti e no amor que te sinto. E depois disto? O que sobrará de mim?
Vou afogá-los - o amor e a saudade, leia-se - num balde de água quente para não ter de os voltar a ver nunca mais. Nunca mais não será demais.

Gostava de te ter dito adeus e obrigada e não me deixes ir. Mas não disse nada e fui. 

E o que faço comigo depois de ti?


Querido V.

  Cidade da Beira, 07 de abril de 1906 O nosso amor morreu e não tem mal. Há qualquer coisa na morte que sempre me atraiu, como na linha dos...