sexta-feira, 15 de julho de 2011

Do sorriso

"(...) a forma como colávamos o corpo
 um ao outro
nas ruas de Lisboa.


E a cidade,
 minúscula,
 à vista dos nossos passos (..)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Dedicado a Lídia Jorge (e ontem finalmente entregue pessoalmente à escritora)

(*texto também publicado em www.bocadosdecarne.blogspot.com/www.prazeresminusculos.blogspot.com)


Foi no Marquês que Lídia passou por mim: a sua pele hidratada, os seus cabelos cor de trigo espetados no pescoço à laia de espadachins de ferro; o seu casaco, o seu corpo de costas.
Lídia trazia o DN na mão direita.

Lídia Jorge não me disse adeus e seguia tranquila como se a avenida da Liberdade fosse sua, como se o passeio fosse a imensa continuação das suas magras pernas brancas.
Lídia trazia um casaco branco e os meus dedos quiseram tocar-lhe as pontas dos espadachins da cara. No momento em que me viu, Lídia Jorge disse:
- conheço-a?

E uma mulher pequena deixou cair a carteira.


Eu queria tanto tocá-la, Lídia. A sua pele branca a cheirar a jasmim, o seu casaco branco até aos joelhos à laia de dama vicentina que se protege dos outros, o rigor das suas calças pretas, os seus olhos pequenos escondidos atrás dos óculos escuros
(os seus olhos do outro lado da pele)
as minhas mãos a quererem tocar a ponta dos seus olhos cor de lama, Lídia
-eu?


Eu a querer convidá-la para um chá: falaríamos de nós, dos nossos livros, daquilo que pensamos à noite quando nenhum homem entra Lídia, quando nenhum homem nos toca na nossa cama e ficamos só nós: nós como só nós sabemos ser
- Helena de Tróia, Lídia, eu conheço Helena de Tróia


Eu vi-a, eu disse-lhe olá e a Lídia não me reconheceu
- O Forza Leal, Lídia, Moçambique nos anos 60 não pode ser diferente de Moçambique em 2005
(a mesma Avenida Lenine no filme da Margarida)

a Margarida Cardoso a tocar-lhe os ombros na televisão com um casaco que pediu emprestado para a conhecer: eu sozinha no sofá com um vestido preto de seda à espera que a Lídia saísse do ecrã e me abraçasse. A Lídia a dizer
- sim?


E eu a vê-la ir, Lídia, a vê-la ir sem que a Lídia me colocasse a mão na testa, eu sem sentir o seu abraço que cheira a jasmim
(a Lídia não precisa de se aproximar para eu saber àquilo que cheira)
- a senhora não me conhece, desculpe


Eu a pedir desculpa pelo encontrão, Lídia,
a Lídia a abraçar-me, a insistir para pagar o chá, as torradas, os brioches. Nós íntimas, Lídia, a Lídia a falar-me das personagens do seu novo livro, a Lídia a dizer-me que gosta de Redfish e eu a jurar-lhe que tem de vir cá a casa conhecer a minha mãe e o peixe que coze no nosso forno aos sábados
( o tomate a descansar em cima do redfish com as cebolas e os pimentos, como se todos eles naquele forno fossem uma grande família Vitoriana que se reencontra aos sábados)



a Lídia a jurar-me que a minha imaginação é desleal com a realidade, e nós sentadas num afamado hotel da capital a beber chá de maçã vermelha, com toda a gente a ver.


Lídia Jorge atravessou Lisboa a pé, de óculos escuros, como quem sabe para onde vai.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Bom Amor

Abordar-te não era fácil
fazer-te gostar de mim não era fácil
ter-te levado ao meu restaurante favorito não foi fácil
mas eu gostava de ti.


ver a chuva cair sem te beijar não foi fácil
arranjar desculpas para passarmos por tua casa não foi fácil
esperar que me quisesses não era fácil
porque eu gostava de ti.

criar intimidade contigo não foi fácil
ouvir o teu corpo responder-me
ou esperar por ti no meu nunca foi fácil
mas eu gostava de ti.


dormir contigo ao telefone e tocar-me não era fácil
criar iglos imaginários em cobertores envelhecidos deixou de ser fácil
aceitar bons Invernos e vivê-los foi um caminho novo
(como o caminho a pé do Marquês a Sete Rios)
mas eu gostava de ti.

acalmar-me naqueles dias não foi fácil
adormecer
continuar
querer
por o meu corpo em privação por ti não foi fácil
porque gostar de ti não foi fácil
e viver sem ti não era fácil
( eu gostava de ti).

receber sms tuas não era fácil
não receber não era fácil
almoçar,
jantar,
viver naqueles dias sem saber se sim não era fácil
(mas eu gostava de ti).

o sol no jardim infantil,
o frio da relva nas costas
as tuas pálpebras na minha boca
e o espaço que ia de mim a ti a ser tão longe como um comboio com pessoas lá dentro
(mas eu gostava de ti).

e depois  a forma como bebias e eras gente
a forma como os copos chegavam até à tua boca sem tu saberes matemática
(2+2+2)
vinho até caires sem te veres cair
a falares sem te veres falar
(3+5+8)
porque tu às vezes não eras tu -e eu
(2+10+20)
gostar de ti era fácil
o telefone sem tocar
ou tocar sem seres tu não era fácil
mas eu gostava de ti.

terça-feira, 22 de março de 2011

Inocência

Devias. Devias ver a minha cara no reflexo do vidro da porta do hospital. Devias ver como as minhas mãos tremiam e como eu queria estar contigo quando os enfermeiros mexiam no teu corpo e te tiravam sangue que parecia vinho.  Devias. Devias dizer-me da tua maca que o fenómeno da escrita é uma canção morta, e eu  olhava para ti com olhos de quem devia. Devias.

A morte do vizinho do 3º b foi o meu único acontecimento emocional em 5 anos. Ponto. Eu a descer as escadas de pantufas para pagar o condomínio e ele. Ele estrangulado na sala. Ponto. O dinheiro na mão. Ponto. Eu, ele, o dinheiro e a minha mão. Ponto. Nenhum de nós a saber o que dizer. Ponto. Ele. Eu. Ponto. Os meus olhos. Os dele. Ponto. Eu a guardar o dinheiro do condominio no bolso. A ir comprar uns sapatos novos. Ponto

Devias. Tu estavas viva e eras bonita a pedir ajuda com os olhos fora da maca que te caminhava. Era a maca que te caminhava: não eras tu a ir nela.
E é que talvez calando, as vozes voltem. E ai, na minha mansidão, saberei escrever sobre o futuro do mundo.
Devias. Devias.

21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"