terça-feira, 11 de setembro de 2012

03:03


 
 
 
 

Há 3 noites que não durmo. Os olhos não fecham, oiço vozes na cabeça desde as 03:03. Levanto-me para depilar os ossos antes de me sentar na sanita
e fazer água usada sair do meu corpo pela vagina. Há 3 noites que não durmo. Os olhos fecham e entrelaçam as pestanas.
Vejo o meu perfil de olhos fechados como se me visse de fora: as vozes dizem que eu durmo assim e eu acredito. As vozes na cabeça fazem-me acreditar. Aqui em casa ninguém cospe para o chão antes das 09:04 porque ninguém se levanta antes das 09:04. Não há um horário certo de pequeno-almoço porque cada um de nós come apartado, agarrado ao seu prato de sopa com leite, papas e pão. Há 3 noites que não durmo. Na minha casa todas as meninas nasceram com pernas tortas à laia de troncos de árvore mirrados onde o arbusto é a nossa boca. Temos ramos a saírem-nos pela boca.
E folhas verdes entre os dentes. Há 3 noites que não durmo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Plantar palavras na boca

 





Não sobrou nada aqui, avó.
Não há sequer a madeira encarquilhada da tua casa, a oliveira dentro da sala, o meu baloiço-pneu que me erguia aos céus se esticasse bem as pernas, se esticasse com força, como os grandes, e como os grandes não te vi nas ruas de Mangualde: tu, uma mulher de lenço preto, surda e de olhos cinzentos de idade.

É que morreram todos, avó: as primas, o chapeleiro, o padeiro, a Mariazinha e sua filha e a tua rua é agora parqueada, como se tivessemos que pagar para existir dentro daquilo que é nosso, dentro daquilo que trazemos cá dentro.

É que nem sobrámos nós, avó. Não fomos as mesmas a voltar para uma Lisboa gigante que nos conforta no anonimato. Porque nós não nos achámos lá.
Eu não estava no teu quintal a ver as galinhas picarem-me as pernas sem que me desviasse, sem que soubesse que existem dores que não precisamos padecer, e que com quatro anos, ainda não temos de sofrer pela remissão dos nossos pecados. 




Eu padecia até que alguém chegasse.


A mãe está parecida contigo.
E eu não encontrei ninguém que pudesse ser eu.

domingo, 19 de agosto de 2012

Dos ossos gastos


                                                                                     Casteleiro, 18 de Agosto de 1893




Para a S. com todo o meu amor



O corpo é uma lonjura.
Podias bater-me vezes sem conta porque o meu corpo já não sente: é longe e já não dói.

A bofetada não faz mais o rosto inchar o inconveniente vermelho, nem os pontapés nas costas são mais sofrimento.

As marcas das pancadas deixaram de causar dor ou aflição. Tornaram-se apenas nódoas de luto, como se os vasos sanguíneos debaixo da parte da pele  atacada quisessem erguer um luto corpóreo,
um luto imediato que se substitui à necessidade do uso de uma peça de roupa preta
(a minha pele em luto assume uma negritude cerimonial à laia de lenço na cabeça, de saia ou de camisa de botões de punho)


e não haverá na minha cabeça tormento maior do que a ausência dessa dor fisíca que se embala, essa dor que nos ultrapassa; a majestade da dor, a sua enormidade dentro de nós já que sem ela nunca chegará o desgaste nem o fim.

E este meu amor por ti, este meu imenso amor por ti, será sempiterno.



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Do acto de contrição






Podíamos começar por aquela noite em que eu apareci à tua porta de pijama e pantufas
- eram duas da manhã e os meus olhos não conseguiam sono de tão sozinhos, apartados do resto da cara, apartados do nariz, da boca, das sobrancelhas



depois de me ver do tecto,
eu a ver-me do tecto, das paredes, eu a ver-me sozinha, sem ti e sem mim, tu a seres uma voz, tu ao telefone a seres uma voz, tu a mandares-me voltar, a dizeres-me para ir que ninguém saberia de nada: tu
tu com amor da varanda, a esperares por mim, a vir da estrada com o meu corpo, com o meu pijama e com as minhas pantufas
- o carro mal estacionado


tu a deixares-me entrar de pijama, o carro, eu, os sacos: eu, os sacos e aquilo que havia entre nós, aquilo que era inquietação e amor. Talvez fosse inquietação e amor.
Sempre foi inquietação. E talvez sempre amor.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Remissão dos pecados





O espelho.
Estamos a ver-nos ao espelho. Nele somos nus e felizes. Há qualquer coisa no nosso corpo que fala e diz coisas às nossas cabeças. Quando nos deitamos assim, aninhados, como cães da rua ou como pessoas felizes que fazem coisas com o corpo. Nós sabemos fazer coisas com o nosso corpo. E para fazermos coisas com o nosso corpo começamos por olhar-nos nos olhos. Olhamos para dentro um do outro. Nos olhos. Fixamente. Tudo começa nos teus olhos. E depois o que quer que comece nos teus olhos vem para os meus, com força. São os teus olhos. E os meus.
São eles que, como mestres, nos mandam fazer coisas com o corpo. Somos hipnotizados. Obedecemos. Continuamos a ver-nos ao espelho. Mas só depois. Continuamos a ver-nos ao espelho. Nele somos nus e felizes e eternos. No espelho. Ali.
O espelho diz-nos corpo, não nos diz cabeça nem coração -apesar deles existirem debaixo da pele - diz-nos corpo. Tão-só corpo.
O espelho. É nele. Estamos a ver-nos ao espelho.
Nele nus. Nele felizes.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Da palavra do corpo


Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada.

Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada. Não devia ter falado com o tecto do teu quarto sem tu saberes, à revelia.Os teus olhos fechados, o desenho do teu rosto na noite. Quando o nosso corpo dorme é como se fôssemos mortos com o coração a bater. O teu coração batia nos meus olhos abertos, não batia nos meus ouvidos. O teu coração vivo. O tecto do teu quarto vivo. Nós nus numa plataforma de entendimento que a magia estuda e quer compreender. Nós nus de vivos com o coração a bater. E o teu candeeiro a olhar para nós deitados. Devias saber que o teu candeeiro é invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro como o teu.

No telemóvel um relógio.
O relógio, o telemóvel, os dois programado para me dizerem 04:08. E tu. Tu a seres o desenho das tuas pestanas, das tuas sobrancelhas. Tu a seres o teu corpo e a tua nudez. E a tua pele.
A nossa cama não é uma cama. Nós nunca tivemos uma cama. Tivemos chão. E espaço. E corpo. E tempo. Tivemos corpo e tempo a todas as horas da noite. Chão. Espaço. Corpo. Tempo.  O teu corpo em cima do meu. Como se.
Como se o mundo fosse acabar amanhã.
O tecto do teu quarto tem um rosácea que não é uma rosácea. São oito jarros com ramagens. Oito. Contei-os. Contei-os várias vezes para não me enganar. Não me queria enganar. Queria saber.
O teu candeeiro é invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro como.
O teu corpo no chão é um grito de tempo nos meus ouvidos. Um grito.
Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada. Não devia ter falado.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Amor-te (II)






Amo-te três vezes a vida toda
três vezes a bruma,
o rio
e a estrada
três vezes o mundo todo
três vezes o corpo depois do exorcismo




Amo-te três vezes a vida toda
três vezes o teu tempo
três vezes o meu
três vezes o hábito dos mortos




Amo-te três vezes a vida toda
três vezes os teus braços
três vezes o teu peito
três vezes o meu medo debaixo das unhas a gritar por nós
presos
pelo
 corpo.







21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"