segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Cartas a M.



17 janeiro de 1930


Querida M.,


“Is it really possible to tell someone else what one feels?” 
 Leo TolstoyAnna Karenina



Não há mais luto nem mais travo a amargura, apenas uma certeza incessante de libertação e amor.
Amor aos outros e amor às minhas mãos e à minha cabeça.
Amo-me e toco-me com a delicadeza de quem tem dedos de tempo.
 Aparecem cada dia mais personagens aqui no quarto: deixo-as entrar, cuido delas, falamos à janela. O meu quarto é silêncio como sempre desejei que fosse - às vezes música.
Do outro lado da janela um prédio devoluto ao qual me mostro nua todas as noites, numa espécie de cumprimento ritualistico do corpo.

Assim  vão os meus dias. Assim vai a dor do mundo.



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Neste mundo tudo tem a sua hora





Maputo, 2 janeiro 1965





Querida M.,


Podia arrancar os cabelos com o luto que atravesso mas em vez disso, a escrita, ela própria, chega de noite como um bálsamo. Produzo à velocidade da dor.
Textos e textos novos, textos para teatro finalizados, produções várias com tantas personagens pela casa nuas: a dor é um motor aditivo.
Não penso mais nele porque afinal ele nunca existiu. A morte não existe no prisma da vida. Nós, aqueles cujo coração ressoa no peito com a força de uma manada de elefantes, não conhecemos a morte, de facto.
Ressalvo o amor que foi, mas não posso amá-lo porque não se amam os mortos, os que nunca existiram ou os que um dia viveram entre nós e nos tocaram a pele entre as pernas.
A escrita é salvífica.
Mal posso esperar pelo resto das minhas noites.






segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Da linha que Haterly bordava







1+1= 2
 No dia em que Haterly morreu não comemos cogumelos fritos no sofá, nem dormimos no meio de gatos com pele de cinza e olhos de sol aflitos em calor branco.

5-7= tempo
No dia em que Haterly morreu não fomos ao sushi.

1+3=oquemeapetecer
No dia em que Haterly morreu, Lisboa acordou quente como um vulcão sem mãe e sem pai e nós não nos beijámos mais. Nunca mais. Nunca mais ao ponto de eu não saber onde ficam os teus lábios nem tu saberes onde ficam os meus
(como no escuro).



Nunca de nunca. Nunca de tempo.





2-2= 0
No dia em que Haterly morreu eu descobri que tu morreste afogado na água quente daquele país que vem no mapa e se marca a azul.

2-2= 0??
 No dia em que Haterly morreu eu vi-te afogar.

2-2=0 ????
No dia em que Haterly morreu eu vi que não bateste as pernas para te salvares, nem gritaste. No dia em que Haterly morreu eu vi que não pediste socorro enquanto te afogavas porque não querias ser salvo.
Olhavas para mim e eu olhava para ti. E era.

2-2=0 ???????????????
No dia em que Haterly morreu nenhum de nós quis ajuda para se salvar.
Queríamos saber  até onde aguentávamos sem respirar.


3+3=6
No dia em que Haterly morreu eu deixei de saber beijar porque os meus lábios cairam-me ao chão como duas próteses bonitas de carne e partiram como a loiça da avó.


No dia em que Haterly morreu, os meus lábios partiram.
No dia em que Haterly morreu eu sonhei que era a avó.


image: Eric Lacombe




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

No dia em que Haterly morreu



Deixámos de poder dizer amor com os dedos
porque tudo o que tinhamos de tacto
virou pó,
manta velha,
rol de velhas falácias ditas por bocas sujas de velho engodo,
e os dedos deixaram de saber dizer.


Deixámos de poder dizer amor com os lábios
porque decepados,
o rosto foi invadido pelo líquido vermelho
que alimenta o corpo e lhe faz as brasas.



Deixámos de poder dizer amor com os olhos
porque o único de nós que via,
deixou de ver, e
o que era antes corpo é agora quadro,
o que era antes luz é agora gelo
o que era antes cor é agora dor.

image: Lacombe


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Comer Anais Nin ao pequeno-almoço




“Love never dies a natural death. It dies because we don't know how to replenish its source. It dies of blindness and errors and betrayals. It dies of illness and wounds; it dies of weariness, of witherings, of tarnishings.”



― Anaïs Nin

sexta-feira, 20 de março de 2015

Dia de Manifesto - 08 de abril





 A música é do maravilhoso Tiago Sousa. Os textos, neste caso, são meus. 
Podem ouvir aqui gratuitamente os Manifestos que escrevi contra este mundo (Manifesto a favor da utilização dos transportes públicos / Manifesto pela saída de emergência) .
A apresentação do disco está marcada a azul na minha agenda: DIA 08 DE ABRIL smile emoticon




21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"