domingo, 4 de outubro de 2015
Jornadas de arquitectura - Lisboa - 17 outubro
Vou estar com a minha irmã, Daniela Leitão, na primeira mesa redonda das Jornadas de Arquitectura e Liturgia, já no próximo dia 17 de outubro em Lisboa.
Irei falar sobre a experiência do documentário "O meu Bairro",
Contamos com todos!
O documentário será exibido e a entrada é livre.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Epilepsy dance
A dança é uma forma de expressão que liberta o corpo e o faz
fluir no espaço enquanto parte, circunstância e contexto.
Os corpos deixam de ter membros superiores ou inferiores e passam a ser uma massa que se difunde e trespassa o tempo em cima de um palco que agracie
(toda a dança pede palco e olhos que a vejam)
- foi depois daquele dia que nunca mais te vi; tu a ires connosco dentro da tua mala para sempre
Os corpos deixam de ter membros superiores ou inferiores e passam a ser uma massa que se difunde e trespassa o tempo em cima de um palco que agracie
(toda a dança pede palco e olhos que a vejam)
- foi depois daquele dia que nunca mais te vi; tu a ires connosco dentro da tua mala para sempre
A música, transformadora entra pelos ouvidos até ao sangue
- sempre pensei que cristalizássemos como as frutas de Natal
- sempre pensei que cristalizássemos como as frutas de Natal
E torna-se o motor do corpo: dá-lhe a melodia da força que
alimenta os músculos,
os pés hirtos de fortaleza,
os tendões como vigas de homem
- hoje tive saudades e lembrei-me que prefiro o Ian Curtis a dançar do que o Mick Jagger
os pés hirtos de fortaleza,
os tendões como vigas de homem
- hoje tive saudades e lembrei-me que prefiro o Ian Curtis a dançar do que o Mick Jagger
Os músculos das pernas como pedras,
os braços como rochas e as mãos como estradas de ferro que se abrem no ar
sem sabermos onde terminam
- que deixámos de ser nós, deixámos de
os braços como rochas e as mãos como estradas de ferro que se abrem no ar
sem sabermos onde terminam
- que deixámos de ser nós, deixámos de
A música que se injeta no corpo do bailarino à laia de
droga apocalíptica, o tempo a desfazer-se dele e ele a ser chama e eternidade
- um dia houve em que também fomos chama, um dia houve em que fomos eternidade.
- um dia houve em que também fomos chama, um dia houve em que fomos eternidade.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Para a minha avó
Querida Avó,
Hoje sonhei contigo. Não foi um sonho, foi uma presença.
Estavas na casa onde vivo – não naquela onde pacificamente morreste no dia de Natal – sentada ao meu lado. Tinhas um lenço preto na cabeça como antes. Mas não falámos durante o meu sonho. Olhavas para mim com amor (não me recordo quanto tempo ficámos assim porque os sonhos são ausentes de tempo).
Lembro-me do dia em que morreste como se fosse hoje. A memória é nítida.
Os bombeiros a chegarem sem som: lembro-me do meu cobertor amarelo por cima de ti e de te levarem nele, lembro de ficar a saltar à corda na casa dos padrinhos quando a ambulância ia contigo sem tocar a sirene: eu a ver-te ir da varanda na ambulância que não apitava, sem barulho, sem luz azul
Estavas na casa onde vivo – não naquela onde pacificamente morreste no dia de Natal – sentada ao meu lado. Tinhas um lenço preto na cabeça como antes. Mas não falámos durante o meu sonho. Olhavas para mim com amor (não me recordo quanto tempo ficámos assim porque os sonhos são ausentes de tempo).
Lembro-me do dia em que morreste como se fosse hoje. A memória é nítida.
Os bombeiros a chegarem sem som: lembro-me do meu cobertor amarelo por cima de ti e de te levarem nele, lembro de ficar a saltar à corda na casa dos padrinhos quando a ambulância ia contigo sem tocar a sirene: eu a ver-te ir da varanda na ambulância que não apitava, sem barulho, sem luz azul
- eu nunca tinha visto
uma ambulância sem luz azul e sem som
Ias tu e a mãe lá
dentro
- eu a saltar à corda
com a A. na varanda a ver-te ir, a saber que ias a dormir sem abrir os olhos
mais
Depois disso a mãe levava-me ao cemitério de Benfica para
te ver. Arranjávamos o teu lugar porque os mortos passam a ser um lugar.
Tinha 5 , 6 anos, e aos domingos ela ia . Desconfio que precisava de ti como eu preciso dela agora.
Ela falava contigo enquanto limpava o mármore, comprávamos cameleiras bonitas e a tua campa era a mais bem cuidada e a mais amada de todas as outras. Os outros usavam flores de plástico e nós não.
Lembro-me de estar especialmente bonita aos domingos: a missa, o cabelo penteado pela mãe, o vestido e os sapatos de verniz com meias brancas. Almoçavamos e apanhavamos o comboio para te ir ver a Benfica.
Lembro-me de uma trança no cabelo com um laço, às vezes.
Lembro-me de jogar às pedras entre as campas e de não ter medo do facto de estarem pessoas deitadas debaixo da terra a dormir: ali ninguém nos faz mal e podemos falar com eles à vontade.
A mãe tinha um galho numa árvore preferido: punha a mala ali assim que chegava, eu começava a ver a cara das pessoas nas fotografias, a tentar ler as pedras que diziam coisas em cima delas: a mãe ia buscar um balde de água para esfregar o mármore até ficar imaculado.
Às vezes não tinha a certeza se a mãe estava a rezar, a falar contigo, mas lembro-me de por vezes achar que chorava. Devia ter saudades tuas.
Mas hoje sonhei contigo, avó.
Talvez porque eu tenha sido a única de nós que não é tão forte. A bisa que um dia foi esfaqueada pelo teu pai e foi, ela própria pelo seu pé, à procura de socorro na noite escura da quinta onde vivias; tu que te fizeste sozinha, a mãe que nos criou com todo o seu trabalho e com todo o seu amor.
Tinha 5 , 6 anos, e aos domingos ela ia . Desconfio que precisava de ti como eu preciso dela agora.
Ela falava contigo enquanto limpava o mármore, comprávamos cameleiras bonitas e a tua campa era a mais bem cuidada e a mais amada de todas as outras. Os outros usavam flores de plástico e nós não.
Lembro-me de estar especialmente bonita aos domingos: a missa, o cabelo penteado pela mãe, o vestido e os sapatos de verniz com meias brancas. Almoçavamos e apanhavamos o comboio para te ir ver a Benfica.
Lembro-me de uma trança no cabelo com um laço, às vezes.
Lembro-me de jogar às pedras entre as campas e de não ter medo do facto de estarem pessoas deitadas debaixo da terra a dormir: ali ninguém nos faz mal e podemos falar com eles à vontade.
A mãe tinha um galho numa árvore preferido: punha a mala ali assim que chegava, eu começava a ver a cara das pessoas nas fotografias, a tentar ler as pedras que diziam coisas em cima delas: a mãe ia buscar um balde de água para esfregar o mármore até ficar imaculado.
Às vezes não tinha a certeza se a mãe estava a rezar, a falar contigo, mas lembro-me de por vezes achar que chorava. Devia ter saudades tuas.
Mas hoje sonhei contigo, avó.
Talvez porque eu tenha sido a única de nós que não é tão forte. A bisa que um dia foi esfaqueada pelo teu pai e foi, ela própria pelo seu pé, à procura de socorro na noite escura da quinta onde vivias; tu que te fizeste sozinha, a mãe que nos criou com todo o seu trabalho e com todo o seu amor.
Somos um clã de mulheres mais fortes do que as outras. Sempre
fomos. Com pouca sorte em relação aos homens que amamos.
Tu que eras uma das mulheres mais bonitas da tua aldeia, eras surda de nascença. Mas dizem que os teus olhos, o teu rosto, a tua altura e a tua elegância te elevavam a uma condição de mulher única. A mãe deslumbrava nos seus casacos de peles nos anos 60, o seu cabelo, as suas ancas que herdei, as suas viagens.
Eu, a mais jovem do nosso clã, mereci a tua visita ontem. Acredito que os sonhos nos aproximam do céu.
Obrigada, avó, por teres vindo ver-me.
Tu que eras uma das mulheres mais bonitas da tua aldeia, eras surda de nascença. Mas dizem que os teus olhos, o teu rosto, a tua altura e a tua elegância te elevavam a uma condição de mulher única. A mãe deslumbrava nos seus casacos de peles nos anos 60, o seu cabelo, as suas ancas que herdei, as suas viagens.
Eu, a mais jovem do nosso clã, mereci a tua visita ontem. Acredito que os sonhos nos aproximam do céu.
Obrigada, avó, por teres vindo ver-me.
Até logo
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Cartas a M.
17 janeiro de 1930
Querida M.,
“Is it really possible to tell someone else what one feels?”
Leo Tolstoy, Anna Karenina
Leo Tolstoy, Anna Karenina
Não há mais luto nem mais travo a amargura, apenas uma certeza incessante de libertação e amor.
Amor aos outros e amor às minhas mãos e à minha cabeça.
Amo-me e toco-me com a delicadeza de quem tem dedos de tempo.
Amor aos outros e amor às minhas mãos e à minha cabeça.
Amo-me e toco-me com a delicadeza de quem tem dedos de tempo.
Aparecem cada dia mais personagens aqui no quarto: deixo-as entrar, cuido delas, falamos à janela. O meu quarto é silêncio como sempre desejei que fosse - às vezes música.
Do outro lado da janela um prédio devoluto ao qual me mostro nua todas as noites, numa espécie de cumprimento ritualistico do corpo.
Assim vão os meus dias. Assim vai a dor do mundo.
Assim vão os meus dias. Assim vai a dor do mundo.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Neste mundo tudo tem a sua hora
Maputo, 2 janeiro 1965
Querida M.,
Podia arrancar os cabelos com o luto que atravesso mas em
vez disso, a escrita, ela própria, chega de noite como um bálsamo. Produzo à
velocidade da dor.
Textos e textos novos, textos para teatro finalizados, produções várias com tantas personagens pela casa nuas: a dor é um motor aditivo.
Não penso mais nele porque afinal ele nunca existiu. A morte não existe no prisma da vida. Nós, aqueles cujo coração ressoa no peito com a força de uma manada de elefantes, não conhecemos a morte, de facto.
Ressalvo o amor que foi, mas não posso amá-lo porque não se amam os mortos, os que nunca existiram ou os que um dia viveram entre nós e nos tocaram a pele entre as pernas.
Textos e textos novos, textos para teatro finalizados, produções várias com tantas personagens pela casa nuas: a dor é um motor aditivo.
Não penso mais nele porque afinal ele nunca existiu. A morte não existe no prisma da vida. Nós, aqueles cujo coração ressoa no peito com a força de uma manada de elefantes, não conhecemos a morte, de facto.
Ressalvo o amor que foi, mas não posso amá-lo porque não se amam os mortos, os que nunca existiram ou os que um dia viveram entre nós e nos tocaram a pele entre as pernas.
A escrita é salvífica.
Mal posso esperar pelo resto das minhas noites.
Mal posso esperar pelo resto das minhas noites.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Da linha que Haterly bordava
1+1= 2
No dia em que Haterly morreu não comemos cogumelos fritos no sofá, nem dormimos no meio de gatos com pele de cinza e olhos de sol aflitos em calor branco.
5-7= tempo
No dia em que Haterly morreu não fomos ao sushi.
1+3=oquemeapetecer
No dia em que Haterly morreu, Lisboa acordou quente como um vulcão sem mãe e sem pai e nós não nos beijámos mais. Nunca mais. Nunca mais ao ponto de eu não saber onde ficam os teus lábios nem tu saberes onde ficam os meus
(como no escuro).
Nunca de nunca. Nunca de tempo.
2-2= 0
No dia em que Haterly morreu eu descobri que tu morreste afogado na água quente daquele país que vem no mapa e se marca a azul.
2-2= 0??
No dia em que Haterly morreu eu vi-te afogar.
2-2=0 ????
No dia em que Haterly morreu eu vi que não bateste as pernas para te salvares, nem gritaste. No dia em que Haterly morreu eu vi que não pediste socorro enquanto te afogavas porque não querias ser salvo.
Olhavas para mim e eu olhava para ti. E era.
2-2=0 ???????????????
No dia em que Haterly morreu nenhum de nós quis ajuda para se salvar.
Queríamos saber até onde aguentávamos sem respirar.
3+3=6
No dia em que Haterly morreu eu deixei de saber beijar porque os meus lábios cairam-me ao chão como duas próteses bonitas de carne e partiram como a loiça da avó.
No dia em que Haterly morreu, os meus lábios partiram.
No dia em que Haterly morreu eu sonhei que era a avó.
image: Eric Lacombe
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Não sobrou nada aqui, avó. Não há sequer a madeira encarquilhada da tua casa, a oliveira dentro da sala, o meu baloiço-pneu que m...
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Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada. Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada. Não ...






