sábado, 13 de fevereiro de 2016

Dos dedos da mão e da cabeça presa ao corpo




Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti. Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti. Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti. A escrever sobre ti.Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti.
Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti.Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti. Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti.Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti.Que os dedos me caiam da mão se eu algum dia voltar a escrever sobre ti.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Do mundo e das coisas




Não cabemos na ausência, não sabemos da dor debaixo da cama.
Não sabemos da desordem porque não sabemos das feridas nos pés, nem do cheiro que o medo tem quando o abafamos debaixo da almofada depois de dias e dias a ouvi-lo gemer ao ouvido
- só queríamos que morresse, que parasse

só sabemos errar porque conhecemos mal as nossas mãos.

Não sabemos do corpo porque o escondemos dos olhos, não sabemos do céu porque o renegámos com a boca toda. Não sabemos do mar porque foi levado pelos homens
 mas também não sabemos de nós
- o que é que tu sabes de mim, afinal?



Não sabemos das flores que nascem dos olhos; não sabemos da gramagem do peso da roupa que trazemos quando, nus, nos apresentamos no centro da Terra para a recolha do mundo
- olha aqui, os ossos


Não sabemos das paredes e do tijolo porque conhecemos pelo nome as pestanas dos teus olhos; não sabemos da confusão porque começámos a respirar pelo mesmo corpo; o silêncio.
- o silêncio a crescer-nos nos braços e tu a ires por teres de ir


Não sabemos que os últimos são os primeiros, não sabemos contar sem ajuda dos fios do cabelo, nem com os dedos das mãos coladas
- há um fim para todas as coisas com nome mas nós não temos nome



Não sabemos se bordamos a boca a linha branca ou preta; não sabemos se depois da morte os corpos não deveriam manter os olhos abertos,  para nos verem, abertos, para sempre.










domingo, 7 de fevereiro de 2016

A terra vazia





Somos nós aqui de novo na minha cabeça. Tu e eu sentados na mesa e tu,
- queres ver os meus ossos?

Não sei onde tinha deixado os olhos antes da tua pergunta e tu,
-olha aqui

Tu, como se de um juramento se tratasse, pousaste a tua mão na mesa. E deixaste de ter rosto e corpo e eras apenas a tua mão a olhar para mim.
Tinhas dedos deformados como ramos de árvore
- queria dizer-te que os teus dedos eram árvores bonitas de tortas mas
( eu perdida  porque contigo parecia haver chão ou seria só eu e a minha cabeça cá dentro)


O tempo a durar pouco no relógio, todos à nossa volta congelados com comida na boca até tu ires para o sol e eu entrar no vento
(eu entrei no vento)

Eu. Eu a achar que se a algum de nós faltasse parte, era eu quem seguia desossada.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Carta 33





Já chega de escrever na boca.
Já chega de geografias e de medo.
Já chega de tempo e de mortos na estrada com corpos por apanhar.
Já chega de ti.

Já chega do norte e do sul na cabeça,
já chega do este e do oeste e do poente,
ou de ter-te engasgado debaixo da pele.
(já chega de não saber tirar-te daqui).

Já chega de saber que vives.



Já chega de rir ou de contar-te as cicatrizes,
já chega do soslaio, de barba e de ar por respirar
(já chega de sentir que não entra, que não sai)
Já chega da mão, do braço e do joelho,
 já chega de partes por tocar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

41





Os olhos, o corpo a tombar pelo impacto,
e a tua vida toda.
O nariz, a boca na terra depois da queda, a sombra do queixo no peito,
e a tua vida toda.

As cicatrizes na testa, o desenho do cabelo, a barba que cresce pela medida o tempo,
e a tua vida toda.

Os dedos tortos, os ossos das costas desfeitos pelo golpe.
A pele em desgraça,o músculo, os joelhos a viverem debaixo das calças,
e a tua vida toda.

O corpo, a força que vem dos braços e do tronco, e da raiz que são as pernas,
e a tua vida toda.

A contagem do tempo que levas para pensar - uma noite
ausente de sono - e a tua vida toda.
Os outros dois olhos pequenos a quem deste vida,
e a mesma vida toda.

O doce, o pó e os mortos que ainda agora acordam do sono,
e a tua vida toda.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Lábios de vidro






Não sabemos o que será de nós depois disto.
Não sabemos se nos sentaremos na pedra ou no chão,
não sabemos se nos vão cair as pernas quando em pé,
for tempo de andar.

Não sabemos se teremos lábios de carne ou de vidro,
 se a boca continuará a ter cantos no desenho do seu fim,
ou dentes que falem línguas .

Não sabemos se nos vamos manter vestidos ou despidos
(queria dizer corpo, queria dizer canto)

Não sabemos se sobreviveremos ao toque,
nem o que fará o nosso corpo um ao outro.

Também não saberemos o que seremos depois disso:
 se resto  haverá que sobreviva ao holocausto.
Não sabemos se alguém chegará para nos salvar
ou se pela dor, dos nossos olhos, em vez de água caiam ramos.

Não sabemos.
Não fazemos ideia.
Não sabemos qual dos nossos coração bate hoje no peito de um morto.

Mas sabemos da morte; sabemos do seu cheiro.
Também sabemos da putrefacção e temê-mo-la até ao fim da montanha.








quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"