segunda-feira, 20 de maio de 2013

Boca bilingue








a minha solidão come-me.

a minha solidão come-me e mastiga-me e
vira-me ao contrário com a língua
para me ter melhor.

a minha solidão gosta de me ter bem
( não é apenas ter-me, é ter-me bem)
e gosta de dizer-me sua por laços de afinidade patológica.

a minha solidão não me abandona porque a minha solidão é corpo,
é mãos,
é dedos dos pés: a minha solidão é braços e pernas atados
ou sou eu sozinha
dentro do meu corpo,
a olhar para mim de olhos vermelhos
como quem  sabe o que sente.





(*Para Pedro, que se tornou o meu grande amor.)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

"A vida de Rafi" - Documentário

Mais um projecto....checked!!!!!!!!!!!!!!!!!!!





Documentário disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=9KxF4jZiETw


Duas irmãs (Daniela Leitão e Inês Leitão) e um amigo (Valter Leite) assinam a realização, ideia original, guião e câmara do primeiro documentário gravado em Portugal com utilização de smartphone sem recurso a tratamento de imagem.

O lançamento do documentário terá lugar dia 03 de Maio nas redes sociais.

O documentário aborda a vida de Rafi, uma writer portuguesa, proprietária da loja de graffitis "Dedicated "na cidade do Porto. É arquiteta, ativista pelos direitos dos animais, pensadora, rapper e uma crítica do mundo.
(participação de Sam the Kid)


Realização:
 Daniela Leitão

Ideia original: Inês Leitão/Valter Leite

Captação de imagem: Valter Leite

Guião:Inês Leitão




Sinopse:

Rafi tem uma casa com 47 gatos na Maia. É uma writer portuguesa, proprietária da loja de graffitis "Dedicated "na cidade do Porto. É arquiteta, bailarina, ativista pelos direitos dos animais, pensadora, rapper e uma crítica do mundo.
Não deixa que os seus tags nasçam das paredes sem se vestir como uma diva -terá aprendido isso com a mãe. Não abdica de um look feminino por nada deste mundo: saltos altos, vestidos, maquilhagem e casacos de pele e é assim que sai à rua para desenhar.
O que é que a move? O amor à arte e aquilo que as paredes lhe peçam que faça nascer nelas.
Rafi não tem medo de nada. Nem da morte. Cuidou da mãe até ao fim e deixa essa memória perpetuada nas paredes que pinta -- através do seu desenho de marca - e agora através de um livro de BD que vai publicar ("Uma morte muito doce").
Vamos deixar que Rafi nos faça um tag da sua história.





domingo, 28 de abril de 2013

6 de Maio de 1893



6 de Maio de 1893


Querido P.,

O amor é uma súbita dor no corpo, um incómodo no peito: tantas e tantas vezes o amor é um acrescento.
Crescem-nos mais rins,
mais fígados,
mais pulmões
mais braços e mais pernas; o coração ganha novos vasos sanguíneos e as artérias latejam para além da compreensão da ciência. A ciência acompanha o entendimento do amor até ao seu limite; mas apenas até aí.

E foi amor que eu vim buscar.





Ao contrário de mim, tu treinas o teu coração para bater lentamente, regrides para tua própria proteção e entras em ti até ao lugar onde ninguém te apanha. Lá permaneces: e és sempre bem sucedido.
Talvez nunca te deixes apanhar nesse sítio onde ficas sozinho com um coração que abraça uma batida lenta, quase morta, ou talvez chegue o dia em que aprendes a ouvi-lo bater, aprendendo a gostar do eco do seu som dentro do teu corpo.

Talvez um dia saibas como fazer para desabotoar a camisa e abrir o peito para eu ver; talvez um dia também possas  dar-me linha e agulha para eu coser com carinho
coser com carinho e medo e tempo
-precisamos tanto de tempo para alinhavar, medir e costurar o ponto certo
e com linha e agulha talvez o teu coração deixe de ser uma dor.


Se eu cosesse não ficaria igual ao coração que tinhas antes de mim; talvez não ficasse perfeito mas seria novo: menos destruído, inteiro de pele onde não deve haver sangue.

Mas o teu coração vai baixando o ritmo cardíaco lentamente até a tua vida se tornar vã e pacifica
(tu controlas a tua vida vã e pacifica),
enquanto fechas os olhos e me ensinas o método certo, como fazes até ao ritmo ser sustentavelmente fraco.
Eu oiço. Oiço-te. A minha orelha cola ao teu peito porque é novo e eu não sei chegar aí.



Dentro de mim a vida nunca será pacifica.
E o meu coração nunca será vão.


21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"