quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Catavento, irmão do vento




Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não haveria dia depois do outro,
não haveria sol,
 nem chuva
nem nuvens a passar puxadas a vento
porque deixaria de haver céu e olhos que o vissem
[olhos arrancados pelos dedos doentes]


e deixaria de haver dia
horas,
noite,
tempo,
segundos,
para sobrar uma existência inteira de pregos pregados aos ossos das costas
e lábios colados um ao outro pela secura da pele,
pela ausência de palavra
[deixaria de haver motivo para falar]

Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
os meus pés negar-se-iam ao movimento
[um não seguiria o outro]

e eu arrastar-me-ia pela rua a dizer adeus aos vivos: aos restantes.
(por que é que sempre ficam os que sobram?)



Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não sobraria membro ou recorte:
 apenas cinza, dor e morte.

(Eric Lacombe)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Indulgência (I)





Eu era um corpo numa cama.


Eu era um corpo numa cama
e debaixo dos cobertores sentia o peso das mãos
e dos pés e o barulho do cabelo a nascer.


Tinha olhos e pestanas
- ou não tinha nem olhos nem pestanas
mas os lábios tocavam um no outro
escondiam as gengivas e às vezes
ficavam escondidos os dentes de cima e os de baixo.

[eu nunca soube do que é que eles se escondiam:nunca perguntei]

Debaixo dos cobertores
descobri que o mundo não era para mim
 e eu sabia
e fechava os olhos a saber.
Também sabia do peso das mãos e dos pés
e do cabelo a nascer.


Debaixo dos cobertores
 logo depois em surdina
vinha a morte. E a morte não comia
nem bebia
nem dormia
nem gostava de cobertores com gente debaixo.
A morte sem gengivas,
e sem lábios
nunca tem medo: sempre traz no seu corpo um cheiro amargo
a caminho e a destruição.



domingo, 21 de julho de 2013

O meu amor vem dos ossos








                                                                  (Eric Lacombe)

O meu amor vem dos ossos;
não tem fidalguia
nem respira o cheiro da prata
 porque o meu amor é impuro.

O meu amor não é dia
porque é tempo; e nele não existem horas,
 nem minutos, nem segundos:
o meu amor é um tempo no mundo que rejeita a música dos ponteiros.




O meu amor cresce para dentro
e a única coisa que  deseja profundamente é o teu corpo
e tudo o que existe depois dele.

O meu amor é um sentido
(como o cheiro ou o tacto)
e nunca será um erro:
ele constitui-se como propriedade privada
sem direito de herança.


O meu amor vem dos ossos
e é tempo
e medo
e flores a crescer dentro da cara:
mas às vezes o meu amor também é noite escura.
E aí, só aí,
sabe fazer ranger todas as pedras do mundo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Boca bilingue








a minha solidão come-me.

a minha solidão come-me e mastiga-me e
vira-me ao contrário com a língua
para me ter melhor.

a minha solidão gosta de me ter bem
( não é apenas ter-me, é ter-me bem)
e gosta de dizer-me sua por laços de afinidade patológica.

a minha solidão não me abandona porque a minha solidão é corpo,
é mãos,
é dedos dos pés: a minha solidão é braços e pernas atados
ou sou eu sozinha
dentro do meu corpo,
a olhar para mim de olhos vermelhos
como quem  sabe o que sente.





(*Para Pedro, que se tornou o meu grande amor.)

21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"