sexta-feira, 15 de novembro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Catavento, irmão do vento
Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não haveria dia depois do outro,
não haveria sol,
nem chuva
nem nuvens a passar puxadas a vento
porque deixaria de haver céu e olhos que o vissem
[olhos arrancados pelos dedos doentes]
e deixaria de haver dia
horas,
noite,
tempo,
segundos,
para sobrar uma existência inteira de pregos pregados aos ossos das costas
e lábios colados um ao outro pela secura da pele,
pela ausência de palavra
[deixaria de haver motivo para falar]
Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
os meus pés negar-se-iam ao movimento
[um não seguiria o outro]
e eu arrastar-me-ia pela rua a dizer adeus aos vivos: aos restantes.
(por que é que sempre ficam os que sobram?)
Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não sobraria membro ou recorte:
apenas cinza, dor e morte.
(Eric Lacombe)
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Indulgência (I)
Eu era um corpo numa cama.
Eu era um corpo numa cama
e debaixo dos cobertores sentia o peso das mãos
e dos pés e o barulho do cabelo a nascer.
Tinha olhos e pestanas
- ou não tinha nem olhos nem pestanas
mas os lábios tocavam um no outro
escondiam as gengivas e às vezes
ficavam escondidos os dentes de cima e os de baixo.
[eu nunca soube do que é que eles se escondiam:nunca perguntei]
Debaixo dos cobertores
descobri que o mundo não era para mim
e eu sabia
e fechava os olhos a saber.
Também sabia do peso das mãos e dos pés
e do cabelo a nascer.
Debaixo dos cobertores
logo depois em surdina
vinha a morte. E a morte não comia
nem bebia
nem dormia
nem gostava de cobertores com gente debaixo.
A morte sem gengivas,
e sem lábios
nunca tem medo: sempre traz no seu corpo um cheiro amargo
a caminho e a destruição.
domingo, 21 de julho de 2013
O meu amor vem dos ossos
(Eric Lacombe)
O meu amor vem dos ossos;
não tem fidalguia
nem respira o cheiro da prata
porque o meu amor é impuro.
O meu amor não é dia
porque é tempo; e nele não existem horas,
nem minutos, nem segundos:
o meu amor é um tempo no mundo que rejeita a música dos ponteiros.
O meu amor cresce para dentro
e a única coisa que deseja profundamente é o teu corpo
e tudo o que existe depois dele.
O meu amor é um sentido
(como o cheiro ou o tacto)
e nunca será um erro:
ele constitui-se como propriedade privada
sem direito de herança.
O meu amor vem dos ossos
e é tempo
e medo
e flores a crescer dentro da cara:
mas às vezes o meu amor também é noite escura.
E aí, só aí,
sabe fazer ranger todas as pedras do mundo.
terça-feira, 11 de junho de 2013
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Boca bilingue
a minha solidão come-me.
a minha solidão come-me e mastiga-me e
vira-me ao contrário com a língua
para me ter melhor.
a minha solidão gosta de me ter bem
( não é apenas ter-me, é ter-me bem)
e gosta de dizer-me sua por laços de afinidade patológica.
a minha solidão não me abandona porque a minha solidão é corpo,
é mãos,
é dedos dos pés: a minha solidão é braços e pernas atados
ou sou eu sozinha
dentro do meu corpo,
a olhar para mim de olhos vermelhos
como quem sabe o que sente.
(*Para Pedro, que se tornou o meu grande amor.)
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