quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Lábios de vidro






Não sabemos o que será de nós depois disto.
Não sabemos se nos sentaremos na pedra ou no chão,
não sabemos se nos vão cair as pernas quando em pé,
for tempo de andar.

Não sabemos se teremos lábios de carne ou de vidro,
 se a boca continuará a ter cantos no desenho do seu fim,
ou dentes que falem línguas .

Não sabemos se nos vamos manter vestidos ou despidos
(queria dizer corpo, queria dizer canto)

Não sabemos se sobreviveremos ao toque,
nem o que fará o nosso corpo um ao outro.

Também não saberemos o que seremos depois disso:
 se resto  haverá que sobreviva ao holocausto.
Não sabemos se alguém chegará para nos salvar
ou se pela dor, dos nossos olhos, em vez de água caiam ramos.

Não sabemos.
Não fazemos ideia.
Não sabemos qual dos nossos coração bate hoje no peito de um morto.

Mas sabemos da morte; sabemos do seu cheiro.
Também sabemos da putrefacção e temê-mo-la até ao fim da montanha.








quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Problema 30


                                                           Mueck



Não tens vindo aos meus sonhos. Tens estado desaparecida ou ocupada. Ias mais a Campo de Ourique do que vens a Sintra, diga-se. Pensei que aparecesses hoje depois do que aconteceu: costumas vir depois do lodo.
 Imagino que aches que não preciso ver-te mais ou sentir-te por perto, que ganhei a resistência que desejavas que eu tivesse ganho e me tornei o que era expectável: mas depois de amanhã é Natal e o Natal ainda és tu. Tu e eu e o cheiro da comida da mãe. Os doces. Nós todos à mesa.
Ninguém diria que passaram 28 anos depois de tu teres. Teres.


Lembro-me da escada de casa e lembro-me de me puxares, de não me deixares descer os degraus sozinha com medo que eu caísse lá para baixo
(eu e as minhas botas ortopédicas que toda a gente achava bonitas menos eu)

- tu com medo que eu caísse: eu sem medo de me aventurar nos degraus altos, sem medo da queda




Este ano não foi fácil, avó. Saltei algumas vezes. Muitas delas de olhos fechados e todas sem medo: algumas vezes caí num chão firme e fofo sem nenhum arranhão, outras esfolei-me toda de cima a baixo
- um dia explicas-me de onde é que me vem este lado demasiado destemido



Hoje não há por aqui ninguém que me puxe o casaco como tu para eu não me atrever nos degraus mais altos: os que se tornaram os meus favoritos.
Mas não faz mal.



Não faz mal que ninguém me puxe: não faz mesmo mal.
Eu vou sempre ser das que saltam. E das que não vão a medo. 

sábado, 28 de novembro de 2015

Da Poesia na cara



Às vezes a Poesia, às vezes nós.
Às vezes o tempo do outro lado do vidro,
às vezes a pedra e a cruz e a benção,
às vezes o amor mas sempre Poesia.


Às vezes a morte a dormir ao nosso lado
às vezes a dor deitada de barriga para cima no sofá da sala
às vezes o nosso corpo sem pés e
sem mãos e sem braços:
às vezes a cave: o quarto escuro,
mas sempre a Poesia.

Às vezes o medo debaixo da mesa, escondido de nós nas escadas
no escuro,
às vezes o abraço e o beijo;
tantas vezes os ossos no corpo do desmaio
mas sempre Poesia.

Às vezes o ascético morrer de solidão
às vezes a toalha no corpo depois do banho
a limpar-nos do pecado;
às vezes os braços dos outros a segurarem-nos a cabeça em fortaleza
 para ela não cair e partir
(como quem pode segurar-nos a cabeça para ela não cair  e partir)
às vezes os dentes brancos no espelho da casa de banho
mas sempre a Poesia.

Às o que tínhamos que era infinito e
às vezes quando o infinito era medo e bosque e unhas na boca;
às vezes as pernas abertas, às vezes as pernas fechadas
às vezes o cabelo preso no encosto.
Às vezes o pau, a fera, o tronco
às vezes o tempo e às vezes nós.
Mas sempre a Poesia.

Às vezes os olhos e os pés frios numa cama longa de gente,
às vezes eu no espelho a dizer-me adeus com a mão toda
(às vezes eu não tenho a mão toda no espelho)
e às vezes o mar.

Às vezes o peito sem respirar
(às vezes o peito não respira)
às vezes o norte e o sul na cara,
às vezes o este e o oeste.

Às vezes o tamanho do corpo,
mas sempre, sempre, a Poesia.




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Da espera dos outros


Para o meu irmão L. que me ensina coisas bonitas




Um dia aprendemos a esperar. Ficamos à porta de uma casa e esperamos. Sabemos que a pessoa que queremos está lá dentro e ouviu-nos tocar.
Tocamos: ela sabe-nos ali.
Pode fingir e não querer abrir, mas sabe que estamos do outro lado da porta: com a cabeça, com os braços, com as pernas que nos sobram de um amor. Esperamos.
 
Esperamos porque o amor sempre nos deixa com o nosso corpo.
 Esperamos assim que alguém abra a porta. Que a pessoa que está do outro lado nos queira e venha; esperamos que ela  nos deixe entrar porque é só isso que queremos afinal; não pedimos mais nada, só queremos entrar.

Não voltamos a tocar porque quem espera não insiste , mas encostamos a cabeça à porta. Continuamos. Esperamos. 


Podemos até sentar-nos no chão à espera.
Esperamos fora do imediato porque aprendemos que as pessoas têm tempo dentro delas, desajustado dos nossos relógios de pulso, do nosso.
Espera-se que a porta abra, depois espera-se que ela abra o suficiente para vermos a pessoa que queremos; esperamos um pouco mais para que a sua abertura total permita a entrada do nosso corpo e nos inclua.

 Esperamos, numa última etapa, finalmente, que a porta  se feche atrás de nós:  gostamos do barulho da porta que se fecha. Por trás.

Mas esperamos.
E a espera é grandiosa.




terça-feira, 10 de novembro de 2015

Do som e da fúria



Nunca uma música falou tão alto.
Nunca uma melodia disse tanto.



Aqui.

                                                Van Gogh - "Os comedores de batatas"






21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"