quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Não há mais nada no meu corpo
Não há mais nada no meu corpo:
nem dor nos olhos
nem o vazio da chávena de leite que engulo sozinha como pedaço de carne inteira por deglutir,
por matar com os dentes quentes, hirtos, em pé, ao fundo da minha boca.
Não há mais nada no meu corpo:
apenas talvez o peixe que comi ao jantar entalado na garganta,
e que mexe de vivo,
- porque vivo engolido
e a mexer-se corta-me a garganta com a luz das escamas:
na verdade, as suas escamas são o mar.
Não há mais nada no meu corpo:
porque o meu corpo morreu esquecido do tempo da janela,
de como tudo era tão bonito lá fora,
quando lá fora era o lugar de onde as pessoas saiam vestidas.
Não há mais nada no meu corpo:
porque a vida chegou antes.
Só por isso, não há mais nada no meu corpo.
Já não há mais nada aqui.
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