sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Dia dos Namorados






Se eu nunca disse que os teus dentes




Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo olhos, lábios, dentes.
Reinaldo Ferreira




terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Para ela que nunca vai ler isto





Não sei quando é que nos vamos voltar a ver.
Talvez no teu funeral ou talvez no meu. Ou no de alguém que amamos.

Tens cancro. Estás nos paliativos.

Sabes, acho que, de alguma forma, todos nós estamos.

Não sei bem quem vai primeiro: se tu com essa morte anunciada, se eu a atravessar a rua distraída com o telemóvel na mão. Ninguém sabe. Não há datas marcadas para isto de nos pirarmos daqui para fora.
Obrigada por aquilo que me tens ensinado neste teu anunciado fim consciente: sem dramas, sem lágrimas.

Ontem vi fotos tuas a fazer desporto e a explicar-nos a todos o privilégio de viver.

Tens toda a razão, isto de viver, é um privilégio do caraças.

Namoramos muito, casamos a achar que temos um príncipe mas afinal não era nada disso que precisávamos: nem nós dele, nem ele de nós.

Apanhamos um amor grande e ele mata-nos o peito de desgosto: sem saber como vimos à superfície e percebemos que o nosso coração ainda bate e que respiramos.

Aprendemos que por muito que a pancada seja enorme, não morremos dela.
Se formos inteligentes afogamo-lo, fazemos-lhe um enterro digno - de margaridas nas mãos e vestidas de preto - atiramos-lhe terra para não ser ele a morrer-nos mais.

Não, népias, nunca, nunca mais sentir aquilo.

Viajamos, fazemos amigos, fazemos conhecidos, ajudamos a criar pessoas, criamos ideias, criamos empresas, viajamos mais, encontramos o amor de verdade e depois disso agarramos-lhe a t-shirt à noite como um hábito: para ter a certeza da sua presença na sombra e na luz.

Obrigada por me fazeres ver isso.

Que esta roda gigante em que vivo é um privilégio do caraças. Que é bom demais mesmo quando temos contas e impostos para pagar. Que faz sentido dar parte do que recebemos para ver meninas estudar no outro lado do mundo.

Obrigada pelos bailes de noção e de erro.
Errei tanto, S. Teria feito tudo ao contrário mas acho que cheguei cá em cima onde me esperam.

Se a minha hora vier antes da tua, por favor sabe que eu fui e sou completa e feliz.

Cheguei a esta montanha gigante onde sou feliz a saber a sorte que tenho, a saber aprender a perdoar os outros e a mim. O exercício é diário porque eu sou da ética e não da perfeição.

Não faço ideia se dará para subir um bocadinho mais alto do que isto, mas não faz mal. Que haja ou não tempo, tem sido excepcional.

Ganhei um verdadeiro braço debaixo da asa, parafraseando o Godinho.

O homem que encontrei é de verdade. É genuíno. É o coração bom, gigante e tem os olhos mais bonitos que algum dia vi. Com ele não há mentira e tudo é limpo.
É com ele que pretendo que o meu corpo se torne a casa de alguém.
E também há a Ophelia. Sempre haverá.

Sabes, para mim, mesmo que morras, nunca morreste.



p.s: estou a tentar marcar ir ver-te para dançarmos.

sempre tua,

i.




domingo, 15 de dezembro de 2019

Do tempo em que as bocas caem para sempre







Recebi hoje a mensagem de que morreu. 

Com a idade aprendemos a receber estas notícias a precisar de um sofá para nos sentarmos.
Um sofá para sentar o corpo, para ver o que vai cair à volta como se soubéssemos que esta é a hora em que tudo colapsa e não vale a pena chamar o 112 porque é cá dentro. Como se assistíssemos a tudo a desmoronar enquanto respiramos devagar e usamos o tecto para controlar os olhos. Não choramos, não choramingamos: persistimos e prevalecemos como as bactérias.

Foi uma vida toda consigo, sabe? Lembro-me de do alto dos meus 7 anos o desafiar na catequese de sábado à tarde e lhe perguntar:

-“ e se eu não souber perdoar, o que é que me acontece?”

O senhor Joaquim, do alto da sua sabedoria, a perceber que tinha ali uma case-study de 7 anos de nariz empinado que fazia das suas aulas de catequese uma mesa de ping-pong , a perceber que eu ia sofrer um bocadinho se continuasse – como os dois sabemos que continuei - empertigada e questionadora, empertigada e sem medo; o senhor do alto da sua paciência a pensar “mas o que é que uma miúda de 7 anos sabe? O que é que ela acha que sabe?” e eu a sair da sua catequese com as minhas dúvidas e as minhas crises existenciais precoces e o catecismo na mão.

Depois, no caminho da adolescência, das amizades e desamizades, dos namorados e desnamorados:
-  “oh Inês, tu és terrível”

 e dai um pulo até saber que eu me tinha posto a escrever livros:
- “se tu não existisses tinhas de ser inventada”


Quando abandonei o nosso bairro eterno, o nosso bairro que tinha a sua cara e a do Maurício, saber que perguntava por mim à minha mãe com carinho e amor nos seus olhos claros.

Quando regressei, já a fazer documentários e coisas boas, o senhor Joaquim e os seus olhos a olharem para mim e a dizerem:

- “vi-te na televisão hoje a falar”

e eu a pensar que estou tão diferente do tempo dos escuteiros em que deixava cair lamparinas acesas durante as celebrações do Mês de Maria e era perdoada.

O senhor e o seu carro a buzinarem para o meu carro ou para mim na rua, sem parar até à curva da igreja; eu a achar que tenho muita sorte por ter gente boa a gostar assim de mim.

Sabe, soube que estava doente há dois meses. Não o fui visitar porque a minha vida andava aos pinotes e fui, como sempre, deixando para depois. Podia explicar-lhe que andei afogada em trabalho e tive de albergar pessoas em minha casa e no meio disso tudo fazer coisas acontecer (falei-lhe disso na última vez que nos vimos e  tinha de se despachar para ir, despedimo-nos tão rápido).

 Mas e o resto?

Tenho pena que não houvesse tempo para lhe falar do D.
Ia gostar de o conhecer e ele certamente ia gostar muito de si.


Amanhã assino o contrato do livro novo. A bomba atómica que já lhe tinha falado, aquela que levou uns 4 anos da minha vida e de tantas viagens e questões.

Disse que o nosso bairro ficou mais pobre com a morte do Maurício.
Hoje, com a sua morte, não faço ideia como vai ser.



21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"