sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Do Tempo

 

17 de julho de 1897




A V. escreveu-me a dizer que passou o mesmo que eu. Que percebe.

Não sei se ela se sentou como eu, na cama, com um vazio imenso dentro dela. 

Eu nunca quis que chamassem ninguém mas precisei de ouvir a voz da minha irmã para que, de alguma forma, pudesse perceber que eu própria tinha de saber-me viva. De alguma forma, curiosamente, é sempre ela.

Isto não era bem só um vazio, era uma espécie de vazio gelado de um inverno rigoroso que queima tudo à sua volta. 


Também não sei se os médicos dela foram tão generosos como aqueles que eu encontrei a olhar por cima de mim, enquanto eu chorava sem saber como não parecer tão vulnerável - tão frágil como nunca quis ser. 

Afogo-me em trabalho porque o trabalho redime e salva e, de alguma forma, apesar de tanto amor que recebo, sei que preciso de ser salva, e esse trabalho de casa também é meu.



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Do eterno



Querida S.,


Não andei agarrada a fotos tuas depois da tua morte. Enterramos-te. 

Vieste a falecer um dia depois de eu celebrar um mês de casamento, um dia antes de eu te ter tentado visitar-te.
Fiquei parada na tua entrada, como se o cimento fosse a eterna continuação das minhas pernas e dos meus pés quando o teu irmão me disse que estavas a ter um dia mau.
De facto, ele não disse um dia mau, disse um dia muito muito mau.

Eu não ouvi nem vi o que ele já me dizia com a boca e com o olhar.

Recordo a tua voz e o nosso passado de teenagers nos escuteiros e isso basta-me. Ouvir-te cantar.
É àquela Sónia que eu vou quando quero recordar. 


Vi os teus filhos nesse dia, não faço ideia como sobreviverão sem ti.

Acredito, ainda assim, que terão na memória uma mãe que aguentou o impossível por eles, e com a sabedoria que a vida nos traz, aprendi que é sempre o melhor que fica quando o pior nunca foi terror.

Eu desembaracei a minha dor e estou bem.

(eric lacombe)

domingo, 26 de julho de 2020

Qual é a minha terra?


Madrepérola



15 de julho de 1887



meu querido filho,

a tua morte ainda na minha barriga foi o maior desespero que senti até hoje, e de alguma forma, amar-te, a minha maior alegria.

Acredito que uma mãe nasce quando nasce o seu bebé, mas no nosso caso, pelo amor que já te tinha, tudo foi diferente.

Desejei-te incansavelmente.

Escolhi para ti o pai perfeito que acredito ter-te amado de igual forma. O seu coração padeceu tanto como o meu, mas o nosso agradecimento por nos teres escolhido a nós, tornou-se a nossa madrepérola.

Queria que soubesses isso pela escrita.

Porque ela, como tu, é eterna.






quarta-feira, 24 de junho de 2020

"O menino que não via o sol" - livro infantil



"O menino que não via o sol" é um livro infantil que aborda temas tão sensíveis como a Diferença, a infância, o respeito pelo outro, a mutilação genital, casamentos precoces e a vacinação.
A história de Mussa é inspirada na tradição guineense e acho que não podia estar mais feliz com o meu 6º filho.

Deixo-vos um cheirinho deste livro que vai invadir escolas, colégios e bibliotecas.

A apresentação decorrerá em Lisboa, em breve, com todas as medidas de segurança necessárias.



segunda-feira, 8 de junho de 2020

21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"