Participação no programa "A nossa tarde" RTP - 08 AGOSTO
Participação no programa "A nossa tarde" RTP - 08 AGOSTO
porque eu já não sei escrever.
-as minhas unhas, os meus dedos, a minha boca já não sabem escrever.
já não sei escrever.
-os meus olhos, as minhas pupilas, o meu nariz já não sabem escrever, nem sabem dizer.
Já não sei mais, para ser sincera as palavras morreram no sofá da sala sem se explicarem, sem se despedirem da minha cabeça
as minhas unhas
os meus dedos
a minha boca
os meus olhos
um nariz desenhado no espelho
(precisávamos todos tanto delas)
Já não sei mais, não sei mesmo, como se algo tivesse secado cá dentro,
talvez um poço.
Talvez eu fosse ou tivesse esse poço.
Já não, já não.
- falta falar do som teclado quando os dedos me batem desesperados como se quisessem viver ali
Já não.
Já não sei mesmo, voltar a escrever.
Querida Ophelia,
a tua morte foi a coisa mais difícil que vivi até hoje. Ter ficado contigo até ao último minuto dá-me um certo alento estúpido de que acompanhei aquela que foi a minha melhor amiga até ao fim:passaram-se quase dez anos. Dez.
"Cães não são gente", dizem. Eu não consigo deixar de te agradecer por tudo, por tanto. Por tanta presença em momentos tão gigantes que quase me engoliram, em tantas noites boas e más, mudanças de casa, mudanças de amores, nascimentos e mortes. E tu lá, sempre.
Um dia agradeço ao P. por teres sido o melhor presente, ainda que amigos não se comercializem. Quando ele te comprou não pode saber a imensidão que me deu.
Cães são gente também, sim. E têm alma, com toda a certeza.
Um dia escrevo por ti ou não, não escrevo nada porque às vezes não há mais nada para dizer.
Obrigada. Obrigada. Obrigada.
Querido bebé J.D.,
Ao contrário do que aconteceu com a tua irmã, escrevo-te depois de te ter tido.
O nosso corpo muda, a nossa cabeça muda, mas tu, como segundo filho, amplias e acrescentas.
Se de alguma forma a V. veio ensinar-me a ser mãe, a ideia que tenho muito clara de ti na minha cabeça é que tu vieste para viver a tua vida entusiasticamente, e pelo meio, dar-me a enorme oportunidade de amar melhor, uma espécie de amor pacificado, bom e longuíssimo: os filhos trazem-nos uma eternidade de pés descalços que andam em frente.
Nasceste no dia em que o Papa aterrou em Portugal para um mega evento chamado Jornadas Mundiais da Juventude; as "navegadoras" perderam contra os EUA mas quase lhes deram um baile.
E tu vieste.
O teu parto foi hilariante, para não dizer extraordinário.
Ali estávamos com uma playlist de musicas a tocar que eu queria ouvir enquanto te paria e tu vieste no meio de uma música inusitada que sempre me faz sorrir quando oiço. Chama-se "Eu sou do Roque" e é de um músico muito peculiar chamado Marco Rodrigues . Tu decidiste nascer na parte que diz:
"Eu sou do roque
Não te deixes enganar pelo meu fato de gala
A vida na terra não tem garantias e tem pressa.
Le coeur de maman c´est toi toujours.
Quando descobri que ia ser mãe outra vez fiquei com medo de não estar sempre lá para ti como tenho estado, querida V.
As mães passam a vida a sentir medo e culpa, mesmo que estejam a dar tudo de si- vinte e quatro horas por dia. Nisso, como em tantas outra coisas, eu sou só mais uma mãe a sentir o mesmo que as outras mulheres.
A ideia de ter outro filho conforta-me no sentido de que não te deixarei sozinha, não serás sozinha. Nem este teu irmão/ou tua irmã será.
Se vocês conseguirem o equilíbrio perfeito da irmandade, de decidirem amarem-se sempre mais do que qualquer outra coisa que possam sentir um pelo outro, vão ter sempre uma perna extra, ou um braço extra, ou um coração extra que vos conforte na caminhada e isso é a matemática perfeita da vida.
Entende isto como uma dica da tua mãe que te ama mais todos os dias.
A tua mãe vai ser um melão gigante, outra vez.