terça-feira, 24 de abril de 2012

Amor-te (II)






Amo-te três vezes a vida toda
três vezes a bruma,
o rio
e a estrada
três vezes o mundo todo
três vezes o corpo depois do exorcismo




Amo-te três vezes a vida toda
três vezes o teu tempo
três vezes o meu
três vezes o hábito dos mortos




Amo-te três vezes a vida toda
três vezes os teus braços
três vezes o teu peito
três vezes o meu medo debaixo das unhas a gritar por nós
presos
pelo
 corpo.







sábado, 17 de março de 2012

Sem título 1

Já há tanto tempo que não mordia as minhas mãos para expiar a minha culpa. Morder a mão até a marca dos dedos poder ser moldada a gesso ou testada por nova colocação da mandíbula
- de forma doce e terna
e ali confirmar tamanho e forma sem a pressão da força bruta.

Já há tanto tempo que não mordia as minhas mãos, a carne gorda da curva do polegar ou o seu osso,
para aquele que é o momento da libertação da minha angústia e do meu medo: as minhas marcas.

Já há tanto tempo que não sentia o alívio que nasce dos meus dentes, a liberdade depois da aflição,
a cura do erro e da culpa.
Já há tanto tempo que não mordia as minhas mãos para expiar a minha culpa.



quarta-feira, 14 de março de 2012

Do corpo e de outros mundos

O que é que vais dizer ao meu corpo
quando o vires aberto diante de ti
no silêncio do desejo?



Que palavras vais dirigir ao meu corpo
quando o analisares desprotegido e sem roupa?


Que sons sairão da tua boca
e que parte do teu corpo servirá o meu?




Que palavras vais dirigir ao meu corpo
quando o vires quieto e lânguido no teu quarto,
deitado na tua cama, por desossar?





O que é que vais dizer
amanhã
ao meu corpo
em carácter de emergência,
por te teres a ti para salvar.


sexta-feira, 9 de março de 2012

A boca a arder

As minhas mãos ficaram em cima da mesa da pastelaria,
apertando-se,
enroscando-se,
suando o que nos disseste quando saiste
- é o diabo: o diabo a tentar-me o corpo, a vir atrás de mim vestido de pés e mãos e pele de homem

as minhas mãos esquecidas na mesa, as migalhas do bolo,
o chá e os meus olhos a pingarem da cara sem eu querer

- as mãos e os pés do diabo a fazerem-no passar -se por um homem de bem, de gravata, erecto: os olhos do diabo a saberem onde eu estou, o lugar do meu corpo longe da mesa da pastelaria

As minhas mãos esquecidas na mesa imobilizadas pela dor, agarradas uma à outra a tentarem salvar-se, amparadas, como irmãs.
As minhas mãos a acalmarem-se, a pagarem a conta e nós a irmo-nos dali.


Dali.
Para sempre.



domingo, 26 de fevereiro de 2012

A nossa poesia

A nossa poesia não tem espinhas no peixe nem cabelos na boca: a nossa poesia é a poesia da verdade.
A nossa poesia não se compadece com a dor nem com o acrilíco, porque a nossa poesia é feita do luto desenvergonhado e do amor que faz os dentes ranger.
A nossa poesia não desaba com obstáculos, a nossa poesia é visionária e sabe o que o futuro diz de nós quando se esconde debaixo da nossa cama para nos ver melhor
(a nossa poesia sabe que nos observam numa base diária)

A nossa poesia é a poesia do nariz colado e a dos olhos fechados: a nossa poesia molha o pão com manteiga no galão quente de manhã ao pequeno-almoço.

A nossa poesia é desavergonhada, anda nua pela casa e tem medo; e diz a toda a gente para sair da frente quando passamos: a nossa poesia é tirana, tem seios perfeitos e às vezes toma comprimidos para dormir quando os nossos olhos observam um tecto demasiado escuro para ser tudo de verdade.

A nossa poesia gosta de nos afogar na banheira até nos privar de respiração, e suporta o nosso corpo imediatamente até à superficie só para nos lembrar que estamos vivos.

A nossa poesia põe-nos a mesa de manhã e compra bolas de berlim mal cozidas
(nossa poesia é uma bola de berlim da praia das Maçãs quando tínhamos 5 anos)

A nossa poesia aconchega-nos à noite porque a nossa poesia não é a poesia da academia, nem dos sonetos, nem das elégias:
a nossa poesia é a poesia da nudez, é a poesia do amor ardente,
que nos desfaz os dentes e nos deixa doentes.










terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ouvidos em flor

Eu não queria que ninguém se aproximasse de mim no comboio, que ninguém me tocasse, que ninguém me mexesse na saia. Não, certificar-me que não há ninguém em pé atrás de mim, ninguém em pé à minha frente. O comboio é um sítio pequeno e apertado onde as pessoas dançam agarradas ao tecto
- não, eu não queria estar agarrada a ninguém, só ao tecto

 sempre admirei a firmeza calma dos tectos brancos em cima de mim
- só o tecto, sem tocar nada

enquanto o comboio nos faz dançar
-só ele


Quando tenho medo o meu nariz sangra. Eu não gosto de sangue. Eu não danço agarrada aos outros enquanto o comboio anda para o meu nariz não sangrar mais.
Só o tecto. Eu e ele.O nariz a pingar pequenas gotas quentes: o sangue a surgir em motivos de flor na minha saia nova. Curtos desenhos a pintarem a minha saia, perto da pele.
Eu nunca tinha visto tanto sangue junto na mesma saia.
Eu nunca tinha visto o mar.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As pernas afastadas para ninguém entrar









O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. O rato nunca roeu a parede.
(ou Carta de um homem mal amado)















Sou um homem, parede. Sou um homem nu, deitado sozinho numa cama, a encostar-te o meu pénis frio, acordado de uma noite que acontece todos os dias dentro do meu corpo. O meu pénis erecto sou eu a querer toque, parede limpa e branca, um simples toque que me faça armar o desejo e conseguir prazer. Quero desmaiar contigo aqui nu, porque o amor tudo pode e eu quero ser teu esta noite, como seria de uma mulher de carne e osso
(as mulheres de carne e osso não existem como tu, parede branca, por escrever)

queria entrar em ti e ser-te, enquanto pela casa milhares de páginas soltas e textos roubados se deitam pelo  chão: milhares e milhares de folhas fotocopiadas pelo chão a dizerem silêncio e medo, como se o vidro das janelas fosse demasiado espesso para haver vida para além do meu pénis erecto, para lá dos papéis no chão.

Ao nosso lado, milhares e milhares de papéis mortos, feridos e amputados pela casa, pelo quarto,
  na pequena despensa à direita da cozinha
(houve uma Grande Guerra no meu sexo que fez milhares de desaparecidos)

milhares de papéis: papéis rasgados e violados pela leitura dos olhos atentos e ferozes que me cresceram na cara, que sobreviveram ao tactear de unhas grossas imperturbáveis
(eu sou os meus olhos, o meu nariz, a minha boca e as minhas orelhas: o meu pénis erecto cheio de vontade de te ter, parede por abrir)

todos os papéis do chão a falar ao mesmo tempo;
 vozes baixas, masculinas e femininas a mostrarem-se nuas como eu aqui deitado frente a ti, parede calada, parede azul 
São 01:47 e eu ainda não 

(o meu pénis e a minha mão)

milhares e milhares de papéis a cheirar a árvores mortas e a arranjos de impressora: papéis a chorarem por mostrarem os seios e o sexo branco enquanto as palavras vão sendo ditas

- o corpo surge nu na folha enquanto 

o meu corpo solitário e desfeito ao teu lado, parede, depois de me limpar. Às vezes olho-te nos olhos à espera de ver tudo, de sentir todas as coisas do mundo, mas nada surge para além da minha nudez de vício, numa parede branca e cega.


21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"