domingo, 12 de janeiro de 2014

Se o meu corpo fosse um homem



O livro "Se o meu corpo fosse um homem" pode ser encomendado através do email seomeucorpofosseumhomem@gmail.com .
O envio é feito por correio e o pagamento por transferência bancária.


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domingo, 29 de dezembro de 2013

Da casa e do corpo





Devia ter a coragem para contar-te que hoje sou eu. Não és tu, nem o teu corpo numa Lisboa feita de Inverno como nós naqueles dias: hoje é o meu corpo e o que eu tenho cá dentro
(passou um ano)

Tento ter a força de levar o que é meu, para um caminho novo que surgirá quando abrir os olhos
- sim, os meus olhos vão abrir e nunca mais me vou lembrar
os olhos a abrir dentro de água, o líquido e o que ele protege


O corpo a mudar,
 a mexer-se,
 a crescer por dentro até ao dia da aniquilação; e um sinal da cruz que sai pela indicação do polegar,
a nascer da testa ao queixo,
a cruzar a cara quente em sinal de perdão.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

E se debaixo desta dor não houver grito?




Naquele dia nasceram-lhe ramos na cara,
ramos pelas mãos,
de dentro dos braços onde não há força nem norte: do lado esquerdo da cabeça.
Tu não vieste.


O lanugo que nascia da pele. após a primeira ausência, lembrava-me que o desenho da angustia
que se escrevia do avesso, no meu corpo, ainda mal começara.



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Catavento, irmão do vento




Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não haveria dia depois do outro,
não haveria sol,
 nem chuva
nem nuvens a passar puxadas a vento
porque deixaria de haver céu e olhos que o vissem
[olhos arrancados pelos dedos doentes]


e deixaria de haver dia
horas,
noite,
tempo,
segundos,
para sobrar uma existência inteira de pregos pregados aos ossos das costas
e lábios colados um ao outro pela secura da pele,
pela ausência de palavra
[deixaria de haver motivo para falar]

Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
os meus pés negar-se-iam ao movimento
[um não seguiria o outro]

e eu arrastar-me-ia pela rua a dizer adeus aos vivos: aos restantes.
(por que é que sempre ficam os que sobram?)



Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não sobraria membro ou recorte:
 apenas cinza, dor e morte.

(Eric Lacombe)

21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"