quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Às vezes só a minha cara é que é triste







Às vezes só a minha cara  é triste,
porque o meu nariz e a minha boca não são.


Às vezes só a minha cara é que é triste,
porque as unhas,
o pescoço quase flácido de tempo
e as minhas mãos: nenhum deles se deixa entristecer.


Às vezes só os meus pés: tristes,
porque a pele e as pernas que vão dar aos pés não aceitam a tristeza que lhes querem dar.


Às vezes só a minha orelha esquerda é triste,
pelo que ouve na rua
e o que ouve torna-se um problema para a boca na minha cara que deixa de querer falar,
porque deixa de querer ser a minha boca.


E assim a boca da cara diz-me que só se abrirá por mais um dia,
(não sabe se para falar ou só para abrir os lábios já colados pelo tempo doce da amargura)

- só mais um dia, nessa tentativa de pronúncia 

um dia, longe

para entrarem os bichos debaixo da terra
e ela se deixar ir com eles.




2 comentários:

Querido V.

  Moçambique, 27 de Março de 1906 Deixo-te ir depois de me despedir de ti.  Despedi-me de olhos fechados com um beijo tranquilo na tua face....