terça-feira, 29 de março de 2016

Do resto do mundo





 Maputo, 5 de julho de 1889




Somos mais limpas, avó.
O nosso clã é mais limpo e mais polido do que tantos que vejo. Quando não tinhas dinheiro para nos deixar, deixaste-nos o maior legado de todos: berço.
Deixaste-me berço, savoir-faire, tacto e algumas matas que um dia destes havemos de por a produzir por ti.
Não sabias ler nem escrever mas a tua presença era iluminadora. 
Que um dia eu possa ser um terço do que foste, sem teres lido um único livro em toda a tua vida


Agradeço-te por tudo.
Sobretudo por não me teres feito pequena, fraca e suja.

domingo, 27 de março de 2016

Do esquecimento





Esqueci-me de te dizer que a minha cara me escorreu sem querer pelo espelho enquanto lavava os dentes de manhã
(juro que esfreguei bem: agora esfrego bem os dentes, esfrego durante muito mais tempo)



Escorreu-me pelo espelho da casa de banho e eu não fui a tempo de limpar tudo para ficar tudo limpo e  para deixar tudo como estava.

Eu queria ter deixado tudo como estava mas eu já não sei exactamente onde ficavam a minha boca no espelho, onde era o meu nariz, onde podia colar os meus olhos com as minhas pestanas lá dentro; não sabia o que fazer ao drama da testa caída da cabeça, das sobrancelhas e do queixo que tinha na mão, depois de apanhar  tudo do chão
( o meu queixo diferente de todos os outros queixos da rua -  eu a querer ter queixos como os que vejo a andar nas caras da rua)
- onde é que eu?




mas a minha cara a escorrer pelo espelho e eu a limpar rápido com as mãos; a limpar rápido com as mãos e com papel higiénico, a limpar rápido com o que tinha: eu e a minha cara a limparmos rápido tudo do chão frio para não se saber.

Eu a ter de tocar-lhe, novamente, como se estivesse viva.






sexta-feira, 25 de março de 2016

Dos ossos do corpo






Não levamos os olhos no corpo, só dor.

Não levamos as pernas que fazem o corpo andar, nem os dedos que servem para escrever. Não levamos os dentes na boca, não levamos lábios nem maçãs do rosto: não levamos a pele sequer connosco
(não, vamos deixar a pele aqui)
- quando eu era pequena a minha mãe abria a palma da mão sobre o meu rosto para o tactear. A sua mão, longa de aberta, a fazer o trabalho dos seus olhos, como se de uma mulher cega se tratasse - e cega - precisasse conhecer um filho que era seu



Como nos quadros que mentem beleza
( a mãe nunca foi cega, sempre trazia os seus olhos grandes consigo para me ver)



Como nos quadros que mentem perfeição: a estrada acaba
(os olhos da minha mãe são duas coisas no seu corpo)



E eu, eu que não sei dizer flor, não sei dizer canto: eu que nunca soube dizer adeus
- a mão da minha mãe que me tacteava a cara tinha um cheiro. A mãe, cega, parecia saber onde ficavam os meus olhos, o meu nariz e a minha boca. Parecia conhecer todo o posicionamento estratégico do meu rosto 



Um dia desistimos de caminhar, desistimos dos sapatos, desistimos dos pés e deixamos tudo à porta.
- a mãe sabia o caminho das minhas sobrancelhas até ao fim, demorava-se nas sobrancelhas para a seguir, os olhos; para  a seguir as pestanas


Um dia fechamos a porta e deixamos de ter medo de comer pó: comemo-lo como se de carne se tratasse.
 A boca ganhar-lhe-á o sabor.





domingo, 20 de março de 2016

Hoje é Inverno



Querida S.,

Vi nas noticias que a tua mãe morreu.
 A morte é torpe e cheia de astúcia. Actua do lado direito quando olhamos para o esquerdo. Abre-nos a cabeça com um martelo quando achamos que seria uma facada na perna o que nos atingiria, ou que alguém simplesmente dispararia sem remorso na direcção do nosso ouvido; a consistência do crânio despencaria pelas paredes da sala em mil pedaços.

A morte: sempre efervescente, sempre cirúrgica, sempre ardilosa  como uma mulher magra de má que passa os dias atrás da cortina  da sala de estar a ouvir conversas de família.



Não sei o que acontecerá quando um dia chegar em que a tua perda possa ser a minha.
Devíamos poder trocar com a pessoa que Ela quer para si e escolher, dizendo-lhe
- Não, em vez dela, leva-me a mim

E ela aceitaria a troca sem falar. Aceitaria sobretudo porque é só um corpo que  deseja. Não nos quer pela nossa beleza ou pela nossa fealdade: quer corpos no seu exército. Nessa altura, se alarme houver antes da sua chegada, pedirei para ir no lugar daquela que me teve, porque nunca saberei sobreviver a esse poço de inexistência e de exéquia.

Imagino-te desamparada.
O desamparo não deve ter equivalente mais doloroso. O desamparo é o  deixar-se cair sem apoio nem sustento. É a desistência, a queda, o desânimo total.
E para mim, que só aprendi pelos livros, o desamparo, é um outro nome de morte.



sábado, 12 de março de 2016

Desabitação







Quase morremos tantas vezes,
quase chocámos contra um carro na passadeira,
quase atropelados - na estrada com pessoas à volta a ver  como  ficávamos bonitos de cara no asfalto sem sentidos
(quase não resistimos aos ferimentos na cabeça, nem às sequelas)



Quase desistimos,
quase rasgámos a folha,
quase o nosso corpo sem dar à costa depois de afogado.



Quase nos encontraram na morgue para nos vestirem,
quase nos descobriram enforcados num candeeiro de rua enquanto passavam,
 quase nos foi dada a extrema-unção.

(quase o infinito e sempre a quase-morte)



Quase nos desligaram a máquina no hospital,
quase dados como mortos.

Quase fomos nós quem lhes abriu a porta para o assalto em casa, 
e quase foi nossa a mão na arma pronta a disparar sobre a cara
- não viste a nossa cara de terror com os olhos fechados e a pistola a dizer-se na testa?


E um dia houve em que quase ficámos sem corpo.

E fomos nós;
nós, nós sozinhos de olhos fechados,
que um dia desejámos ouvir o som do disparo.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Da vida do abismo





Querida Avó,





Não voltas, avó. Algo me diz que não voltas à minha cama.

Ou talvez voltes - um dia numa emergência - mas devo preparar-me para não te ter mais por perto; talvez por me  ter tornado tudo aquilo que esperavas de mim este tempo todo.Não há erros a lamentar, pois não, avó? Não existem, de facto. Erros são momentos de tragicidade que deviam ter sido os melhores de todos: só por isso trazem consigo tamanha dor, tamanho sentido de engano.

Há por isso caminho, avó, caminho.  Tenho saltos a dar e preciso viver a atracção imensa que o abismo exerce sobre mim: talvez porque eu também seja parte desse abismo, desse buraco imenso lá em baixo a ver-me.


Sei que não tenho mais casaco com capuz, nem botas ortopédicas nos pés, nem a mãe me arranjou mais o cabelo. 
O tempo soube substituir essa menina contigo na escada – sempre tão cheia de energia, sempre com tanta vontade de saltar que tu tentavas controlar - por uma mulher de saltos altos a sentir o chão como parte do seu corpo: do seu corpo.

Do meu corpo, avó, a gigantesca continuação dos meus braços, das minhas pernas, dos meus pés, ainda que feitos de terra batida, de terra seca. A terra de um imenso, negro e intenso abismo.








Carta Aberta a ti



O meu texto sobre mutilação genital feminina aqui.

21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"