domingo, 5 de junho de 2016

Das paredes do quarto



Isto é como um buraco de parede que se escavou a si próprio: e aqui já não mora ninguém.

As paredes ganharam bolor e as madeiras das janelas ganharam bicho, esverdearam pelo peso líquido da humidade.
As velhas cortinas do quarto dizem vento de vidros partidos
- repara,  dizem vento de vidros partidos porque deixaram de dizer Amor.

As camas,
a cama do quarto dorme o sono eterno até que lhe ateiem fogo e a sua madeira de pinho antigo se converta no calor que sacia: no calor que todos os corpos que se juntam, um dia, deveriam ter sabido conhecer.

Os candeeiros de pé de veludo envelheceram: a perfeição do veludo morreu vermelha  de rota.

O pó abafou a vida dos móveis que um dia foram admiráveis; os cristais da casa foram silenciados.

A casa não tinha livros e por isso não havia nem páginas, nem capas mortas pelo chão.

Por nada mais restar, por não haver mais vida lá dentro, a Morte cobriu-se, calçou-se e veio.
Selou a casa batendo a porta com toda a sua força e cuspiu no tapete de entrada antes de descer
- a saliva cuja acidez extermina.

E então, aqui, não haverá mais vida.
Então, aqui, não haverá mais chão.





Image: Eric Lacombe

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Livro - "O Padre das Prisões"





«A autora, Inês Leitão, sem perder o fio de homenagem e reconhecimento que por todos nós é devido ao Padre das prisões, leva-nos bem mais longe, trazendo-nos suporte teórico, cultural, religioso, enfim, humano, para podermos acompanhar uma leitura sempre cativante e chegarmos ao conhecimento fundamental para exercermos responsavelmente o direito democrático de opinião sobre um tema acerca do qual, em geral, afirmamos tanto e sabemos tão pouco», assinala o antigo Ministro da Justiça, prof. Laborinho Lúcio.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Da vida de depois








Talvez os teus dedos novos
Talvez a boca
Talvez o mundo e as pedras e os troncos;
talvez o sangue, o cabelo loiro e a estrada.



Talvez o meu corpo magro
talvez o espelho,
talvez tu a saberes quem eu sou quando as palavras não se dizem
(às vezes as palavras não se dizem porque não há lugar para elas fora da boca)



Talvez um agora e para sempre.
Talvez a janela, o alpendre, a varanda ou a casa toda
(tu a seres a casa toda)

Talvez nunca mais andar na corda em altura 
talvez nunca mais sentir medo de cair.
Talvez um conto. Talvez um enorme ponto.




image: Eric Lacombe

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Do que sempre fomos




Ainda temos os mesmos pés no fundo da cama quando nos vimos da cabeceira,
ainda temos os mesmo dedos. Ainda temos alma e divindade
e ainda temos os mesmo dentes da boca que dizem
amor.

Ainda temos a mesma gargalhada
os mesmos dedos das mãos imperfeitas:
ainda sabemos viver a achar que somos eternos na nossa caverna.

Ainda temos  luz
e  verbo
e felicidade debaixo da cama.

Ainda somos os mesmos.

21 de Maio 2026 - "Mulheres do Idai"