segunda-feira, 13 de junho de 2016
domingo, 5 de junho de 2016
Das paredes do quarto
Isto é como um buraco de parede que se escavou a si próprio: e aqui já não mora ninguém.
As paredes ganharam bolor e as madeiras das janelas ganharam bicho, esverdearam pelo peso líquido da humidade.
As velhas cortinas do quarto dizem vento de vidros partidos
- repara, dizem vento de vidros partidos porque deixaram de dizer Amor.
As camas,
a cama do quarto dorme o sono eterno até que lhe ateiem fogo e a sua madeira de pinho antigo se converta no calor que sacia: no calor que todos os corpos que se juntam, um dia, deveriam ter sabido conhecer.
Os candeeiros de pé de veludo envelheceram: a perfeição do veludo morreu vermelha de rota.
O pó abafou a vida dos móveis que um dia foram admiráveis; os cristais da casa foram silenciados.
A casa não tinha livros e por isso não havia nem páginas, nem capas mortas pelo chão.
Por nada mais restar, por não haver mais vida lá dentro, a Morte cobriu-se, calçou-se e veio.
Selou a casa batendo a porta com toda a sua força e cuspiu no tapete de entrada antes de descer
- a saliva cuja acidez extermina.
E então, aqui, não haverá mais vida.
Então, aqui, não haverá mais chão.
Image: Eric Lacombe
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Livro - "O Padre das Prisões"
«A autora, Inês Leitão, sem perder o fio de homenagem e reconhecimento que por todos nós é devido ao Padre das prisões, leva-nos bem mais longe, trazendo-nos suporte teórico, cultural, religioso, enfim, humano, para podermos acompanhar uma leitura sempre cativante e chegarmos ao conhecimento fundamental para exercermos responsavelmente o direito democrático de opinião sobre um tema acerca do qual, em geral, afirmamos tanto e sabemos tão pouco», assinala o antigo Ministro da Justiça, prof. Laborinho Lúcio.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Da vida de depois
Talvez os teus dedos novos
Talvez a boca
Talvez o mundo e as pedras e os troncos;
talvez o sangue, o cabelo loiro e a estrada.
Talvez a boca
Talvez o mundo e as pedras e os troncos;
talvez o sangue, o cabelo loiro e a estrada.
Talvez o meu corpo magro
talvez o espelho,
talvez tu a saberes quem eu sou quando as palavras não se dizem
(às vezes as palavras não se dizem porque não há lugar para elas fora da boca)
talvez o espelho,
talvez tu a saberes quem eu sou quando as palavras não se dizem
(às vezes as palavras não se dizem porque não há lugar para elas fora da boca)
Talvez um agora e para sempre.
Talvez a janela, o alpendre, a varanda ou a casa toda
(tu a seres a casa toda)
Talvez a janela, o alpendre, a varanda ou a casa toda
(tu a seres a casa toda)
Talvez nunca mais andar na corda em altura
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Do que sempre fomos
Ainda temos os mesmos pés no fundo da cama quando nos vimos da cabeceira,
ainda temos os mesmo dedos. Ainda temos alma e divindade
e ainda temos os mesmo dentes da boca que dizem
amor.
Ainda temos a mesma gargalhada
os mesmos dedos das mãos imperfeitas:
ainda sabemos viver a achar que somos eternos na nossa caverna.
Ainda temos luz
e verbo
e felicidade debaixo da cama.
Ainda somos os mesmos.
quinta-feira, 26 de maio de 2016
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