quarta-feira, 13 de julho de 2016
Des-terra
A descer as escadas voava em lances de quatro até ao fim do
patamar sem medo.
A casa da mãe de onde víamos o castelo dos Mouros.
A casa da mãe de onde víamos o castelo dos Mouros.
Hoje está lá em baixo
a ambulância sem luzes com gente dentro outra vez, gente pequena a mexer-se com a ginástica
das larvas para um espaço tão
- sabes, é que eu nunca
- sabes, é que eu nunca
Mas desta vez não és tu na marquesa.
Eu a descer os lances aos quatro porque é a mãe que vai lá dentro:
e não tu. É a mãe.
O meu corpo a querer voar e a gravidade a permitir a queda, eu a contornar a queda com os ossos dentro do corpo e com a minha pele toda em cima de mim
- a voar aos quatro e a contar
O meu corpo a querer voar e a gravidade a permitir a queda, eu a contornar a queda com os ossos dentro do corpo e com a minha pele toda em cima de mim
- a voar aos quatro e a contar
1
2
3
4
como quando vinha com os cães à rua com o barulho à nossa volta
2
3
4
como quando vinha com os cães à rua com o barulho à nossa volta
E tu a vê-la como eu
a estou a ver, agora que cheguei cá abaixo.
A mãe. A mãe deitada na marquesa da ambulância enquanto a reanimavam
à minha frente e tu. A mãe.
A mãe deitada e eles com as máquinas a mexerem-lhe no peito. A mãe sempre disse
que não queria que lhe tocassem se algum dia isto acontecesse.
A porta de casa aberta e o meu corpo a voar sobre os degraus de pedra do prédio quente: as pedras a ferverem debaixo dos pés como se a terra tivesse aquecido comida para comer.
A mãe. A mãe tão deitada.
Eles em cima dela: eles com fios e instrumentos para a trazer à vida e tu ao
meu lado começas a rezar
- Salvé Rainha, Mãe de Misericórdia, Vida, doçura e esperança nossa, Salvé.
- Salvé Rainha, Mãe de Misericórdia,
Tu só rezas.
Tu a começares com um terço na mão e um lenço preto na cabeça sem olhares para mim porque nas tuas mãos
- Salvé Rainha, Mãe de Misericórdia , Vida, doçura e esperança nossa, Salvé.
A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a Vós suspiramos, gemendo e chorando neste Vale de Lágrimas
Tu a começares com um terço na mão e um lenço preto na cabeça sem olhares para mim porque nas tuas mãos
- Salvé Rainha, Mãe de Misericórdia , Vida, doçura e esperança nossa, Salvé.
A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a Vós suspiramos, gemendo e chorando neste Vale de Lágrimas
Tu, avó, a veres o mesmo que eu:
o médico, o assistente, mais alguém a quem não consigo ver a cara a mexerem na mãe para lhe darem vida: como tu na tua barriga, um dia
- Eia, pois, advogada nossa, esses Vossos olhos misericordiosos a nós volvei: e depois do desterro, depois do desterro
o médico, o assistente, mais alguém a quem não consigo ver a cara a mexerem na mãe para lhe darem vida: como tu na tua barriga, um dia
- Eia, pois, advogada nossa, esses Vossos olhos misericordiosos a nós volvei: e depois do desterro, depois do desterro
Tu sem falares comigo à porta da ambulância - lado a lado - e eu a sentir
uma boca minha a gritar: porque eu tinha mais bocas ao mesmo tempo na
cara, não era só esta
-depois do desterro
-depois do desterro
Tu a repetires o desterro.
Depois do
D
E
S
T
E
R
R
O
R
O
Talvez só fizesses isso porque te vias a vê-la ir como eu: mas os nossos desesperos são diferentes
- depois do desterro mostrai-nos Jesus
Tu e eu a vermos a mesma coisa:
ou tu não, tu só a virares os olhos para as contas do teu terço, enquanto eu
- Mostrai-nos Jesus,
Bendito fruto do Vosso Ventre :Ó Clemente, Ó Piedosa, Ó Doce Sempre Virgem Maria.
ou tu não, tu só a virares os olhos para as contas do teu terço, enquanto eu
- Mostrai-nos Jesus,
Bendito fruto do Vosso Ventre :Ó Clemente, Ó Piedosa, Ó Doce Sempre Virgem Maria.
E eu também a querer dizer como tu
- Ó Clemente, Ó Piedosa, Ó Doce Sempre Virgem Maria.
- Ó Clemente, Ó Piedosa, Ó Doce Sempre Virgem Maria.
Mas as
minhas bocas não me deixavam falar
- Rogai por nós Santa Mãe de Deus,
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
- Rogai por nós Santa Mãe de Deus,
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
terça-feira, 12 de julho de 2016
segunda-feira, 4 de julho de 2016
domingo, 26 de junho de 2016
Obrigada - "A Mãe"
Um muito obrigada a todos os que foram ver "A Mãe". A todos os que foram ver a peça, aos que quiseram e não puderam, mas sobretudo à equipa extraordinária que deu vida à Clara e que a propôs ao espectador. À equipa extraordinária - repito -, que chorou durante os ensaios pela violência do enredo, que desesperou, que transpirou e que construiu tudo aquilo.
Eu cá só escrevi um texto.
Ontem chegámos ao fim de um caminho de longos meses.
Obrigada. Obrigada. Obrigada.
sexta-feira, 24 de junho de 2016
quinta-feira, 23 de junho de 2016
No dia em que tu morreste
No dia em que tu morreste
o chão abriu-se
e todos os mortos sairam do caixão para procurarem os seus vivos.
o chão abriu-se
e todos os mortos sairam do caixão para procurarem os seus vivos.
No dia em que tu
morreste
não houve sol
nem chuva,
nem vento porque a terra ficou muda na sua dor.
não houve sol
nem chuva,
nem vento porque a terra ficou muda na sua dor.
No dia em que tu morreste,
nenhum peixe sobreviveu à agua que se tornou veneno nas guelras,
nenhum pássaro sobreviveu à queda da carne das suas asas
cujas penugens com sangue caiam do céu.
nenhum peixe sobreviveu à agua que se tornou veneno nas guelras,
nenhum pássaro sobreviveu à queda da carne das suas asas
cujas penugens com sangue caiam do céu.
No dia em que tu morreste
ninguém cantou, ninguém riu.
ninguém cantou, ninguém riu.
No dia em que tu morreste
nenhuma mulher foi tocada por nenhum homem na cama,
nenhuma criança foi concebida.
nenhuma mulher foi tocada por nenhum homem na cama,
nenhuma criança foi concebida.
No dia em que tu morreste
era quarta-feira em Lisboa
e o tempo ficou quente no corpo dos homens.
era quarta-feira em Lisboa
e o tempo ficou quente no corpo dos homens.
No dia em que tu morreste
caíram os dedos de todas as crianças
caíram os dedos de todas as crianças
que brincavam no escorrega no parque
e todas elas choraram os seus dedos no chão .
e todas elas choraram os seus dedos no chão .
No dia em que tu
morreste
ninguém voltou para casa porque ninguém sabia aonde ficava a sua casa
(antes de morreres também eras a minha casa e eu costumava saber onde ficavas)
ninguém voltou para casa porque ninguém sabia aonde ficava a sua casa
(antes de morreres também eras a minha casa e eu costumava saber onde ficavas)
No dia em
que tu morreste
o chão abriu-se de verdade:
uma fenda rasgou o norte e o sul
e eu sentei-me para não cair.
o chão abriu-se de verdade:
uma fenda rasgou o norte e o sul
e eu sentei-me para não cair.
No dia em que tu morreste era Agosto
mas tudo sabia a inverno e a frio.
mas tudo sabia a inverno e a frio.
No dia em que tu morreste
caíram-me os olhos da cara,
e depois caíram-me as mãos,
depois os pés.
caíram-me os olhos da cara,
e depois caíram-me as mãos,
depois os pés.
No dia em
que tu morreste
os lábios dos homens colaram-se
e nunca mais o mundo teve som.
os lábios dos homens colaram-se
e nunca mais o mundo teve som.
No dia em que tu morreste
ninguém fez anos.
No dia em que tu morreste
era quarta-feira em Lisboa e
todos os prédios da cidade ruíram juntos.
era quarta-feira em Lisboa e
todos os prédios da cidade ruíram juntos.
No dia em
que tu morreste, o mundo mudou para sempre.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
-
Querida Avó, Hoje sonhei contigo. Não foi um sonho, foi uma presença. Estavas na casa onde vivo – não naquela onde pacifica...
-
Não sobrou nada aqui, avó. Não há sequer a madeira encarquilhada da tua casa, a oliveira dentro da sala, o meu baloiço-pneu que m...
-
ler aqui: https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2024/09/24/migrantes-ajudam-a-construir-um-alentejo-absolutamente-novo-e-povoado/394895/





