quinta-feira, 18 de outubro de 2018
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
Do Limbo
É aí, nesse lugar onde os homens comem os dedos
que nos fazemos gente.
Aí, onde o canto do inferno começa
onde só os gritos cantam,
choram
e dançam:
aí em baixo onde habita a dor que não tem nome nem fim.
Nesse lugar onde os homens provam as unhas das mãos com fome,
cuspindo restos para o chão,
também se estende a hóstia que salva as almas magras e débeis,
as almas daqueles cuja boca nunca se abriu para pedir salvação:
o último dos redutos.
Porque é a comer a carne que nos fazemos gente:
e não pássaros que sabem do sol.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Da boca e do medo
não sei como podemos ser todas as palavras que dizemos,
(as palavras que nos saem de entre os dentes)
mas sei que se tocar os meus lábios
elas às vezes são a minha boca: o que eu não sabia ser.
(um dia podes não vir a poder comigo - com o meu peso tão imenso,
tão grande: eu menti quando disse que era pluma)
vou contar pelos dedos as vezes em que as palavras me saíram pela boca sem que eu notasse,
(em que as palavras me fugiram vestidas de outras pessoas,
de entre os dentes, transitadas pelas gengivas, a tocar o céu da boca)
pela língua, comigo a vê-las ir,
como se pudessem ser mais do que eu.
Mas eu não tenho medo delas:
eu nunca tive medo de tocar ou de vir a ser boca,
palavra que se fez.
image: Lacombe
terça-feira, 28 de agosto de 2018
Da eternidade dos dedos
(Para M. com todo o meu amor)
devia ter-te dito que
os meus lábios conhecem a tua pele de outro Tempo
e que lhe dizem coisas enquanto a toco.
que se colar os teus dedos na minha boca
e a souber arrastar delicadamente pelo teu braço,
o meu cheiro é o teu,
o teu o meu.
que se tombar no teu colo,
sei que o teu corpo resgataria os meus ossos da morte
com a luz que iria buscar
- sem medo -
à água do deserto do corpo dos vivos.
devia ter-te dito que o formato do teu corpo,
a linha dos teus ombros tocados pelo sol,
são meus desde o momento da Criação.
(eu a saber que o meu corpo precisa tanto de ti.
eu a saber que queria tanto ter-te.)
image: Eric Lacombe
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Porque ontem foi dia 5
Vou deixar que me ponhas os ossos partidos no sítio; vou deixar que apanhes o que sobra do meu corpo do chão.
Vou deixar que cuides de mim, que me cosas as feridas, que unas a minha pele com agrafos: vou deixar que me agrafes os cortes profundos com os maiores ou me dês pontos interiores; e não vou chorar.
Vou deixar que me deites na tua cama e me limpes as marcas sem estar atenta ao perigo
( na tua casa o perigo é um homem alto que fica à porta: tu nunca deixas o perigo tocar-me)
Vou virar-me de barriga para baixo para veres o estrago nas minhas costelas enquanto sei que abanas a cabeça e lamentas a minha dor.
Vou deixar que com uma tesoura me cortes a roupa para me tratar nua, e vou ficar de olhos fechados em repouso, porque em ti eu sempre pude sossegar.
Vou deixar que me ponhas as ligaduras nos pulsos deslocados, nas costas massacradas, a pomada nas nódoas negras das pernas e nas ancas em círculos de massagem com as pontas dos teus dedos - sempre - tão amorosos e salvificos.
Vou deixar que arrumes o quarto de hóspedes da tua casa para mim, que me abras as malas e me ponhas a roupa no armário para não se amachucar.
Vou aceitar que cozinhes e me leves comida à boca.
Vou aceitar não fazer esforços até que os meus dedos escrevam
(eu sei que gostas de ouvir a velocidade dos meus dedos nas teclas e a luz do meu quarto acesa as 3 da manhã)
Sei que sorris quando eu escrevo.
Vou aceitar ficar.
Porque tu és guarda.
Porque és abrigo.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Nenhuma pedra morre
Para J. que é um salmão
A mão dele tem dois dedos mortos por quem me apaixonei.
Dois dedos sem vida
entre os outros que pulsam e ele a saber aceitá-los e a tê-los como parte de si, como
quem tem filhos diferentes sem nada para lhes dar: ele a continuar a amá-los ali.
(os dedos dele são troncos de árvores mortas mas ele não
sabe)
De facto, aquela mão, faz-me
amá-lo mais.
Ele disse-me que era um homem de dedos mortos e eu não me
importei porque a nossa guerra é outra: a do entendimento.
A pior de todas. A feroz.
Ele também é um salmão: um salmão com uma mão.
É um salmão com uma mão de dedos mortos e pés
e uma cabeça que pensa por ela própria e se movimenta por aquilo em que
acredita; eu gosto das guelras dele. Gosto de o ver respirar.
Se eu o perder de vista, vou sentar-me aqui a vê-lo ir, acreditando que nenhum pescador o apanhe e que ele continue, rio acima, de escamas brilhantes, e possa encontrar o que procura.
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