terça-feira, 7 de abril de 2026

Querido V.

 


Cidade da Beira, 07 de abril de 1906


O nosso amor morreu e não tem mal. Há qualquer coisa na morte que sempre me atraiu, como na linha dos abismos: o desejo de conhecer, a ausência de medo, a vontade de saltar.

As pequenas atrações.

Já não dói nada. Como o médico disse ao meu pai preocupado, os órgãos ocuparam o seu lugar de sempre, o coração voltou à cavidade cardíaca. Sim, o coração olhou-a, sentou-se nela, descansou as suas veias ajustando-as à parede da minha carne, arregaçou-as aos seus lugares e decidiu voltar a bater depois de termos desistido todos.
E a bater sem que me doesse a cada pancada, sem que cada batida fizesse uma nódoa negra: sem doer como era suposto.


A escrita é sempre lugar de salvação para mim. Um corda pendurada no meu poço, que sempre posso puxar se decidir começar a escalar.
Tantas vezes cá em baixo no escuro a observo, a ela, à escrita, olho para ela e sei que ali está. Em boa verdade, são tantas e tão terríveis as vezes em que sou eu que não a quero agarrar.

Até sempre, V. Até sempre.


Querido V.

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