domingo, 29 de dezembro de 2013

Da casa e do corpo





Devia ter a coragem para contar-te que hoje sou eu. Não és tu, nem o teu corpo numa Lisboa feita de Inverno como nós naqueles dias: hoje é o meu corpo e o que eu tenho cá dentro
(passou um ano)

Tento ter a força de levar o que é meu, para um caminho novo que surgirá quando abrir os olhos
- sim, os meus olhos vão abrir e nunca mais me vou lembrar
os olhos a abrir dentro de água, o líquido e o que ele protege


O corpo a mudar,
 a mexer-se,
 a crescer por dentro até ao dia da aniquilação; e um sinal da cruz que sai pela indicação do polegar,
a nascer da testa ao queixo,
a cruzar a cara quente em sinal de perdão.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

E se debaixo desta dor não houver grito?




Naquele dia nasceram-lhe ramos na cara,
ramos pelas mãos,
de dentro dos braços onde não há força nem norte: do lado esquerdo da cabeça.
Tu não vieste.


O lanugo que nascia da pele. após a primeira ausência, lembrava-me que o desenho da angustia
que se escrevia do avesso, no meu corpo, ainda mal começara.



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Catavento, irmão do vento




Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não haveria dia depois do outro,
não haveria sol,
 nem chuva
nem nuvens a passar puxadas a vento
porque deixaria de haver céu e olhos que o vissem
[olhos arrancados pelos dedos doentes]


e deixaria de haver dia
horas,
noite,
tempo,
segundos,
para sobrar uma existência inteira de pregos pregados aos ossos das costas
e lábios colados um ao outro pela secura da pele,
pela ausência de palavra
[deixaria de haver motivo para falar]

Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
os meus pés negar-se-iam ao movimento
[um não seguiria o outro]

e eu arrastar-me-ia pela rua a dizer adeus aos vivos: aos restantes.
(por que é que sempre ficam os que sobram?)



Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não sobraria membro ou recorte:
 apenas cinza, dor e morte.

(Eric Lacombe)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Indulgência (I)





Eu era um corpo numa cama.


Eu era um corpo numa cama
e debaixo dos cobertores sentia o peso das mãos
e dos pés e o barulho do cabelo a nascer.


Tinha olhos e pestanas
- ou não tinha nem olhos nem pestanas
mas os lábios tocavam um no outro
escondiam as gengivas e às vezes
ficavam escondidos os dentes de cima e os de baixo.

[eu nunca soube do que é que eles se escondiam:nunca perguntei]

Debaixo dos cobertores
descobri que o mundo não era para mim
 e eu sabia
e fechava os olhos a saber.
Também sabia do peso das mãos e dos pés
e do cabelo a nascer.


Debaixo dos cobertores
 logo depois em surdina
vinha a morte. E a morte não comia
nem bebia
nem dormia
nem gostava de cobertores com gente debaixo.
A morte sem gengivas,
e sem lábios
nunca tem medo: sempre traz no seu corpo um cheiro amargo
a caminho e a destruição.



domingo, 21 de julho de 2013

O meu amor vem dos ossos








                                                                  (Eric Lacombe)

O meu amor vem dos ossos;
não tem fidalguia
nem respira o cheiro da prata
 porque o meu amor é impuro.

O meu amor não é dia
porque é tempo; e nele não existem horas,
 nem minutos, nem segundos:
o meu amor é um tempo no mundo que rejeita a música dos ponteiros.




O meu amor cresce para dentro
e a única coisa que  deseja profundamente é o teu corpo
e tudo o que existe depois dele.

O meu amor é um sentido
(como o cheiro ou o tacto)
e nunca será um erro:
ele constitui-se como propriedade privada
sem direito de herança.


O meu amor vem dos ossos
e é tempo
e medo
e flores a crescer dentro da cara:
mas às vezes o meu amor também é noite escura.
E aí, só aí,
sabe fazer ranger todas as pedras do mundo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Boca bilingue








a minha solidão come-me.

a minha solidão come-me e mastiga-me e
vira-me ao contrário com a língua
para me ter melhor.

a minha solidão gosta de me ter bem
( não é apenas ter-me, é ter-me bem)
e gosta de dizer-me sua por laços de afinidade patológica.

a minha solidão não me abandona porque a minha solidão é corpo,
é mãos,
é dedos dos pés: a minha solidão é braços e pernas atados
ou sou eu sozinha
dentro do meu corpo,
a olhar para mim de olhos vermelhos
como quem  sabe o que sente.





(*Para Pedro, que se tornou o meu grande amor.)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

"A vida de Rafi" - Documentário

Mais um projecto....checked!!!!!!!!!!!!!!!!!!!





Documentário disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=9KxF4jZiETw


Duas irmãs (Daniela Leitão e Inês Leitão) e um amigo (Valter Leite) assinam a realização, ideia original, guião e câmara do primeiro documentário gravado em Portugal com utilização de smartphone sem recurso a tratamento de imagem.

O lançamento do documentário terá lugar dia 03 de Maio nas redes sociais.

O documentário aborda a vida de Rafi, uma writer portuguesa, proprietária da loja de graffitis "Dedicated "na cidade do Porto. É arquiteta, ativista pelos direitos dos animais, pensadora, rapper e uma crítica do mundo.
(participação de Sam the Kid)


Realização:
 Daniela Leitão

Ideia original: Inês Leitão/Valter Leite

Captação de imagem: Valter Leite

Guião:Inês Leitão




Sinopse:

Rafi tem uma casa com 47 gatos na Maia. É uma writer portuguesa, proprietária da loja de graffitis "Dedicated "na cidade do Porto. É arquiteta, bailarina, ativista pelos direitos dos animais, pensadora, rapper e uma crítica do mundo.
Não deixa que os seus tags nasçam das paredes sem se vestir como uma diva -terá aprendido isso com a mãe. Não abdica de um look feminino por nada deste mundo: saltos altos, vestidos, maquilhagem e casacos de pele e é assim que sai à rua para desenhar.
O que é que a move? O amor à arte e aquilo que as paredes lhe peçam que faça nascer nelas.
Rafi não tem medo de nada. Nem da morte. Cuidou da mãe até ao fim e deixa essa memória perpetuada nas paredes que pinta -- através do seu desenho de marca - e agora através de um livro de BD que vai publicar ("Uma morte muito doce").
Vamos deixar que Rafi nos faça um tag da sua história.





domingo, 28 de abril de 2013

6 de Maio de 1893



6 de Maio de 1893


Querido P.,

O amor é uma súbita dor no corpo, um incómodo no peito: tantas e tantas vezes o amor é um acrescento.
Crescem-nos mais rins,
mais fígados,
mais pulmões
mais braços e mais pernas; o coração ganha novos vasos sanguíneos e as artérias latejam para além da compreensão da ciência. A ciência acompanha o entendimento do amor até ao seu limite; mas apenas até aí.

E foi amor que eu vim buscar.





Ao contrário de mim, tu treinas o teu coração para bater lentamente, regrides para tua própria proteção e entras em ti até ao lugar onde ninguém te apanha. Lá permaneces: e és sempre bem sucedido.
Talvez nunca te deixes apanhar nesse sítio onde ficas sozinho com um coração que abraça uma batida lenta, quase morta, ou talvez chegue o dia em que aprendes a ouvi-lo bater, aprendendo a gostar do eco do seu som dentro do teu corpo.

Talvez um dia saibas como fazer para desabotoar a camisa e abrir o peito para eu ver; talvez um dia também possas  dar-me linha e agulha para eu coser com carinho
coser com carinho e medo e tempo
-precisamos tanto de tempo para alinhavar, medir e costurar o ponto certo
e com linha e agulha talvez o teu coração deixe de ser uma dor.


Se eu cosesse não ficaria igual ao coração que tinhas antes de mim; talvez não ficasse perfeito mas seria novo: menos destruído, inteiro de pele onde não deve haver sangue.

Mas o teu coração vai baixando o ritmo cardíaco lentamente até a tua vida se tornar vã e pacifica
(tu controlas a tua vida vã e pacifica),
enquanto fechas os olhos e me ensinas o método certo, como fazes até ao ritmo ser sustentavelmente fraco.
Eu oiço. Oiço-te. A minha orelha cola ao teu peito porque é novo e eu não sei chegar aí.



Dentro de mim a vida nunca será pacifica.
E o meu coração nunca será vão.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Cortar os dedos






Não tenho medo suficiente de ti porque tenho medo de mim: e o meu medo é adequado às minhas necessidades .
Tenho medo de mim. Tenho medo de escovar o meu cabelo até à morte, depois do desembaraço, depois da perfeição da textura, depois da lisura e depois de depois do brilho.



Eu aqui sentada em contagem regressiva escovei o cabelo frente ao espelho até à exaustão do corpo
(dos braços)
( da mão)
( dos dedos)
( das unhas)
e dos fios últimos que pendem da cabeça.



 Eu a fechar os olhos, eu já sem cabelo porque o escovei até ao silêncio. Agora, fios e fios de cabelo a penderem como linhas magras de costura vindos da pele branca e limpa da cabeça.


Cortei o cabelo.

A aflição termina mas o resto do corpo sente falta do que ficou no chão, do cabelo morto que já não é parte nem da cabeça, nem do corpo, nem do chão.


E toda a cabeça chora, chora sem cessar.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ficaste comigo no meu corpo



*Para P. com todo o meu amor



Ficaste comigo no meu corpo,
debaixo dos meus olhos
na curva do ouvido a nascer para um rosto
 entre a pele do queixo que leva ao colo e ao peito.

Ficaste comigo no meu corpo,
na linha plácida da virilha
entre os dedos da mão e os dedos dos pés,
no desdobramento de um cotovelo perdido que se amarra ao braço.

Ficaste comigo no meu corpo,
entre o Norte e o Sul
na linha do comboio,
- de Este a Oeste -
no lugar onde o pôr do sol acorda a noite
 para o dia em que o mundo pára por um encontro.



terça-feira, 9 de abril de 2013

Gosto de ti até ao ponto onde as coisas secam e morrem







Gosto de ti até ao ponto onde as coisas secam e morrem.
Eu sou uma mulher pequena sem ouvidos. Os ouvidos não nasceram no dia em que eu nasci, fiquei à espera que surgissem como cogumelos, de um lado e de outro, entre a bochecha e o crânio
 e todos os dias me chego ao espelho para assistir ao seu nascimento: dia após dia,
dia após dia.

Todos os dias e nada na pele, nada
nenhum contorno de carne, nenhum relevo: tudo é pele e transtorno.

Dias e dias a olhar-me ao espelho com a esperança que um ouvido nascesse onde pertence, seguindo-se-lhe o outro de forma a que as bocas das pessoas que falam a olhar para mim comecem a fazer sentido na minha cabeça, deixando de ser apenas lábios com vida própria
(a abrir e a fechar)
- para cima e para baixo, para um lado e para o outro, na confusão da língua

O cabelo tapa a minha falta com a mesma legitimidade dos pêlos debaixo da roupa.

Não tendo ouvidos,
 toco a boca,
o nariz
e os olhos
todos os dias com as mãos, com medo que eles se enterrem dentro da cara e eu os perca para sempre.

Gosto de ti até ao ponto onde as coisas secam e morrem.

(pic: Eric Lacombe)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Do medo do corpo (I)





Não sei como te contar que as minhas mãos tremem. A direita mais do que a esquerda.  A mão direita a abanar como se estivesse a tremer o mundo, como se quisesse existir sem a coordenação de um pulso que a liga a um braço,
a um cotovelo,
a um ombro:
a mim que moro na cabeça do meu corpo.

As minhas mãos a tremer e eu na minha cabeça sem conseguir agarrar um copo de água:  consequência directa  de pequenos terramotos que  se executam dentro do corpo, todos eles com o epicentro num coração que pulsa sem abrigo e sem embargo.

Porque ontem nada me doía e tudo era abalo.

(Pic: Eric Lacombe)

domingo, 31 de março de 2013

terça-feira, 12 de março de 2013

Documentário -"A vida de Rafi"

O documentário mais pequeno que escrevi tornou-se o meu pequeno amor ---"A vida de Rafi" está em countdown oficial :) 



quinta-feira, 7 de março de 2013

Do mundo cá dentro





A tua boca era um jardim,
não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos: era um jardim pequeno onde os dentes eram flores e o sumo da boca relva rente à curva dos dentes. 



Nesse jardim viviam peixes,
porque esse jardim não era um jardim a sério; não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos, era apenas um pequeno jardim onde os dentes eram flores dentro da boca.



E nesse jardim havia um céu onde se achavam conchas e búzios,
e o céu era areia
- o céu não era nuvem, nem vento, nem chuva, nem pássaros molhados
porque este jardim não era um jardim a sério: não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos, era  um pequeno jardim.


E nesse jardim as gengivas eram cercas de madeira que guardavam as flores e a relva e os ramos que nasciam de dentro da boca.
Porque esse jardim não era um jardim a sério: não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos, era um pequeno jardim onde vivia o mar.


(picture: Eric Lacombe)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

" Cabaret Literário" textos de Inês Leitão



19 Jan - sábado - Rua do Regueirão dos Anjos nr 69, Lisboa



PRESS RELEASE 


Não vamos querer falar de não ter. Vamos querer falar de ter.
Vamos falar de apego, de dependência, de co-dependência e de amores fatais.
Vamos querer falar do amor letal e vamos querer ir até onde quer que ele nos queira levar (podemos escolher ir pela sua mão ou ele há-de querer levar-nos de rastos).
Mas vamos querer: vamos querer.

Vamos querer falar da vida, da possibilidade da eternidade e das coisas que nunca dizemos ao outro quando ele se vai embora sem nós (nem nunca ousaremos dizer: porque a nossa boca é racional e os nosso lábios sofrem de decoro).

E depois daquilo tudo regressaremos com os nossos pés a casa, levando connosco coisas novas dentro do nosso corpo, debaixo dos nossos olhos.
. textos Inês Leitão
. leitura Sofia Peixoto
. encenação Ana Helena Lobo

20h jantar (3€)

22h performance (40 min)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Não há alfabeto






Há muito tempo que não vinha aqui.
A tua estrada fala comigo e diz-me que cheguei. Ela conhece os passos e as mãos que tremem: eu cheguei.
A tua casa já não tem cortinas verdes: o antigo verde deu lugar ao preto e as persianas descidas fazem-me ter vontade de lhes contar os buracos, tão similar às balas que nos atingiram. Todos os dias os buracos das balas me doem. E a dor não tem idade.


 Contar os meus buracos no corpo ajuda-me a sobreviver melhor: o medo pelo esquecimento  faz-me  comer os meus próprios dedos ou ganhar desejo de rasgar a boca com as minhas duas mãos, numa única forma de força, silenciosamente, de um lado ao outro do rosto.
A paz regressa ao corpo e tudo acaba.


Da vida do corpo

Gostava de te puder contar coisas; que o sol já não se chama sol, nem a lua, lua nem os montes são mais habitados por flores nem por h...