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A mostrar mensagens de 2013

Da casa e do corpo

Devia ter a coragem para contar-te que hoje sou eu. Não és tu, nem o teu corpo numa Lisboa feita de Inverno como nós naqueles dias: hoje é o meu corpo e o que eu tenho cá dentro
(passou um ano)
Tento ter a força de levar o que é meu, para um caminho novo que surgirá quando abrir os olhos
- sim, os meus olhos vão abrir e nunca mais me vou lembrar
os olhos a abrir dentro de água, o líquido e o que ele protege

O corpo a mudar,
 a mexer-se,
 a crescer por dentro até ao dia da aniquilação; e um sinal da cruz que sai pela indicação do polegar,
a nascer da testa ao queixo,
a cruzar a cara quente em sinal de perdão.

E se debaixo desta dor não houver grito?

Naquele dia nasceram-lhe ramos na cara,
ramos pelas mãos,
de dentro dos braços onde não há força nem norte: do lado esquerdo da cabeça.
Tu não vieste.


O lanugo que nascia da pele. após a primeira ausência, lembrava-me que o desenho da angustia
que se escrevia do avesso, no meu corpo, ainda mal começara.



Ateliers de Escrita Criativa

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"Se o meu corpo fosse um homem"

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Catavento, irmão do vento

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Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não haveria dia depois do outro,
não haveria sol,
 nem chuva
nem nuvens a passar puxadas a vento
porque deixaria de haver céu e olhos que o vissem
[olhos arrancados pelos dedos doentes]


e deixaria de haver dia
horas,
noite,
tempo,
segundos,
para sobrar uma existência inteira de pregos pregados aos ossos das costas
e lábios colados um ao outro pela secura da pele,
pela ausência de palavra
[deixaria de haver motivo para falar]

Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
os meus pés negar-se-iam ao movimento
[um não seguiria o outro]

e eu arrastar-me-ia pela rua a dizer adeus aos vivos: aos restantes.
(por que é que sempre ficam os que sobram?)



Se me tivesses morrido tu a mim há pouco tempo
(ou depois do tempo muito)
não sobraria membro ou recorte:
 apenas cinza, dor e morte.

(Eric Lacombe)

Indulgência (I)

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Eu era um corpo numa cama.


Eu era um corpo numa cama
e debaixo dos cobertores sentia o peso das mãos
e dos pés e o barulho do cabelo a nascer.


Tinha olhos e pestanas
- ou não tinha nem olhos nem pestanas
mas os lábios tocavam um no outro
escondiam as gengivas e às vezes
ficavam escondidos os dentes de cima e os de baixo.

[eu nunca soube do que é que eles se escondiam:nunca perguntei]

Debaixo dos cobertores
descobri que o mundo não era para mim
 e eu sabia
e fechava os olhos a saber.
Também sabia do peso das mãos e dos pés
e do cabelo a nascer.


Debaixo dos cobertores
 logo depois em surdina
vinha a morte. E a morte não comia
nem bebia
nem dormia
nem gostava de cobertores com gente debaixo.
A morte sem gengivas,
e sem lábios
nunca tem medo: sempre traz no seu corpo um cheiro amargo
a caminho e a destruição.



O meu amor vem dos ossos

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(Eric Lacombe)

O meu amor vem dos ossos;
não tem fidalguia
nem respira o cheiro da prata
 porque o meu amor é impuro.

O meu amor não é dia
porque é tempo; e nele não existem horas,
 nem minutos, nem segundos:
o meu amor é um tempo no mundo que rejeita a música dos ponteiros.




O meu amor cresce para dentro
e a única coisa que  deseja profundamente é o teu corpo
e tudo o que existe depois dele.

O meu amor é um sentido
(como o cheiro ou o tacto)
e nunca será um erro:
ele constitui-se como propriedade privada
sem direito de herança.


O meu amor vem dos ossos
e é tempo
e medo
e flores a crescer dentro da cara:
mas às vezes o meu amor também é noite escura.
E aí, só aí,
sabe fazer ranger todas as pedras do mundo.

Dia 15 de Junho - 21h30 - Braga (GNRation)

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Boca bilingue

a minha solidão come-me.

a minha solidão come-me e mastiga-me e
vira-me ao contrário com a língua
para me ter melhor.

a minha solidão gosta de me ter bem
( não é apenas ter-me, é ter-me bem)
e gosta de dizer-me sua por laços de afinidade patológica.

a minha solidão não me abandona porque a minha solidão é corpo,
é mãos,
é dedos dos pés: a minha solidão é braços e pernas atados
ou sou eu sozinha
dentro do meu corpo,
a olhar para mim de olhos vermelhos
como quem  sabe o que sente.





(*Para Pedro, que se tornou o meu grande amor.)

Inês Leitão no programa "É a vida, Alvim"

Dia 16 de Maio estamos nas Caldas da Rainha

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Entrevista de à Antena 3 (minuto 03´05)

"A vida de Rafi" - Documentário

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Mais um projecto....checked!!!!!!!!!!!!!!!!!!!





Documentário disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=9KxF4jZiETw


Duas irmãs (Daniela Leitão e Inês Leitão) e um amigo (Valter Leite) assinam a realização, ideia original, guião e câmara do primeiro documentário gravado em Portugal com utilização de smartphone sem recurso a tratamento de imagem.

O lançamento do documentário terá lugar dia 03 de Maio nas redes sociais.
O documentário aborda a vida de Rafi, uma writer portuguesa, proprietária da loja de graffitis "Dedicated "na cidade do Porto. É arquiteta, ativista pelos direitos dos animais, pensadora, rapper e uma crítica do mundo.
(participação de Sam the Kid)

Realização:
 Daniela Leitão
Ideia original: Inês Leitão/Valter Leite
Captação de imagem: Valter Leite
Guião:Inês Leitão https://twitter.com/AVIDADERAFI http://avidaderafi.wordpress.com/
Making of: http://www.youtube.com/watch?v=kENlMdxOcZY&feature=share

facebook:
https://www.facebook.com/ines.leitao.18?ref=tn_tnmn#!/Documenta…

6 de Maio de 1893

6 de Maio de 1893


Querido P.,

O amor é uma súbita dor no corpo, um incómodo no peito: tantas e tantas vezes o amor é um acrescento.
Crescem-nos mais rins,
mais fígados,
mais pulmões
mais braços e mais pernas; o coração ganha novos vasos sanguíneos e as artérias latejam para além da compreensão da ciência. A ciência acompanha o entendimento do amor até ao seu limite; mas apenas até aí.

E foi amor que eu vim buscar.





Ao contrário de mim, tu treinas o teu coração para bater lentamente, regrides para tua própria proteção e entras em ti até ao lugar onde ninguém te apanha. Lá permaneces: e és sempre bem sucedido.
Talvez nunca te deixes apanhar nesse sítio onde ficas sozinho com um coração que abraça uma batida lenta, quase morta, ou talvez chegue o dia em que aprendes a ouvi-lo bater, aprendendo a gostar do eco do seu som dentro do teu corpo.

Talvez um dia saibas como fazer para desabotoar a camisa e abrir o peito para eu ver; talvez um dia também possas  dar-me linha e agulha para eu c…

Cortar os dedos

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Não tenho medo suficiente de ti porque tenho medo de mim: e o meu medo é adequado às minhas necessidades .
Tenho medo de mim. Tenho medo de escovar o meu cabelo até à morte, depois do desembaraço, depois da perfeição da textura, depois da lisura e depois de depois do brilho.



Eu aqui sentada em contagem regressiva escovei o cabelo frente ao espelho até à exaustão do corpo
(dos braços)
( da mão)
( dos dedos)
( das unhas)
e dos fios últimos que pendem da cabeça.



 Eu a fechar os olhos, eu já sem cabelo porque o escovei até ao silêncio. Agora, fios e fios de cabelo a penderem como linhas magras de costura vindos da pele branca e limpa da cabeça.


Cortei o cabelo.

A aflição termina mas o resto do corpo sente falta do que ficou no chão, do cabelo morto que já não é parte nem da cabeça, nem do corpo, nem do chão.


E toda a cabeça chora, chora sem cessar.

Ficaste comigo no meu corpo

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*Para P. com todo o meu amor



Ficaste comigo no meu corpo,
debaixo dos meus olhos
na curva do ouvido a nascer para um rosto
 entre a pele do queixo que leva ao colo e ao peito.

Ficaste comigo no meu corpo,
na linha plácida da virilha
entre os dedos da mão e os dedos dos pés,
no desdobramento de um cotovelo perdido que seamarra ao braço.

Ficaste comigo no meu corpo,
entre o Norte e o Sul
na linha do comboio,
- de Este a Oeste -
no lugar onde o pôr do sol acorda a noite
 para o dia em que o mundo pára por um encontro.



Gosto de ti até ao ponto onde as coisas secam e morrem

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Gosto de ti até ao ponto onde as coisas secam e morrem. Eu sou uma mulher pequena sem ouvidos. Os ouvidos não nasceram no dia em que eu nasci, fiquei à espera que surgissem como cogumelos, de um lado e de outro, entre a bochecha e o crânio
 e todos os dias me chego ao espelho para assistir ao seu nascimento: dia após dia,
dia após dia.

Todos os dias e nada na pele, nada
nenhum contorno de carne, nenhum relevo: tudo é pele e transtorno.

Dias e dias a olhar-me ao espelho com a esperança que um ouvido nascesse onde pertence, seguindo-se-lhe o outro de forma a que as bocas das pessoas que falam a olhar para mim comecem a fazer sentido na minha cabeça, deixando de ser apenas lábios com vida própria (a abrir e a fechar)
- para cima e para baixo, para um lado e para o outro, na confusão da língua

O cabelo tapa a minha falta com a mesma legitimidade dos pêlos debaixo da roupa.

Não tendo ouvidos,
 toco a boca,
o nariz
e os olhos
todos os dias com as mãos, com medo que eles se enterrem den…

Do medo do corpo (I)

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Não sei como te contar que as minhas mãos tremem. A direita mais do que a esquerda.  A mão direita a abanar como se estivesse a tremer o mundo, como se quisesse existir sem a coordenação de um pulso que a liga a um braço,
a um cotovelo,
a um ombro:
a mim que moro na cabeça do meu corpo.

As minhas mãos a tremer e eu na minha cabeça sem conseguir agarrar um copo de água:  consequência directa  de pequenos terramotos que  se executam dentro do corpo, todos eles com o epicentro num coração que pulsa sem abrigo e sem embargo.

Porque ontem nada me doía e tudo era abalo.
(Pic: Eric Lacombe)

"O CORPO" instalação de Inês Leitão - Portfólio

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"O CORPO" instalação de Inês Leitão/ performer: Sofia Peixoto/ Fotografia: Silvia Rafael




"O Corpo" - instalação de Inês Leitão

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Documentário -"A vida de Rafi"

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O documentário mais pequeno que escrevi tornou-se o meu pequeno amor ---"A vida de Rafi" está em countdown oficial :) 



Do mundo cá dentro

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A tua boca era um jardim,
não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos: era um jardim pequeno onde os dentes eram flores e o sumo da boca relva rente à curva dos dentes. 



Nesse jardim viviam peixes,
porque esse jardim não era um jardim a sério; não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos, era apenas um pequeno jardim onde os dentes eram flores dentro da boca.



E nesse jardim havia um céu onde se achavam conchas e búzios,
e o céu era areia
- o céu não era nuvem, nem vento, nem chuva, nem pássaros molhados
porque este jardim não era um jardim a sério: não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos, era  um pequeno jardim.


E nesse jardim as gengivas eram cercas de madeira que guardavam as flores e a relva e os ramos que nasciam de dentro da boca.
Porque esse jardim não era um jardim a sério: não era um mundo, não era uma floresta, não era um vale com penedos, era um pequeno jardim onde vivia o mar.


(picture: Eric Lac…

" Cabaret Literário" textos de Inês Leitão

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19 Jan - sábado - Rua do Regueirão dos Anjos nr 69, Lisboa


PRESS RELEASE 

Não vamos querer falar de não ter. Vamos querer falar de ter.
Vamos falar de apego, de dependência, de co-dependência e de amores fatais.
Vamos querer falar do amor letal e vamos querer ir até onde quer que ele nos queira levar (podemos escolher ir pela sua mão ou ele há-de querer levar-nos de rastos).
Mas vamos querer: vamos querer.

Vamos querer falar da vida, da possibilidade da eternidade e das coisas que nunca dizemos ao outro quando ele se vai embora sem nós (nem nunca ousaremos dizer: porque a nossa boca é racional e os nosso lábios sofrem de decoro).

E depois daquilo tudo regressaremos com os nossos pés a casa, levando connosco coisas novas dentro do nosso corpo, debaixo dos nossos olhos. . textos Inês Leitão
. leitura Sofia Peixoto
. encenação Ana Helena Lobo

20h jantar (3€)

22h performance (40 min)

Não há alfabeto

Há muito tempo que não vinha aqui.
A tua estrada fala comigo e diz-me que cheguei. Ela conhece os passos e as mãos que tremem: eu cheguei.
A tua casa já não tem cortinas verdes: o antigo verde deu lugar ao preto e as persianas descidas fazem-me ter vontade de lhes contar os buracos, tão similar às balas que nos atingiram. Todos os dias os buracos das balas me doem. E a dor não tem idade.


Contar os meus buracos no corpo ajuda-me a sobreviver melhor: o medo pelo esquecimento faz-me  comer os meus próprios dedos ou ganhar desejo de rasgar a boca com as minhas duas mãos, numa única forma de força, silenciosamente, de um lado ao outro do rosto.
A paz regressa ao corpo e tudo acaba.