domingo, 18 de junho de 2017

Participação em Festival




Agradecer a todos aqueles que nos últimos dias têm sido incansáveis nas preocupações de saúde que tenho sofrido.

Infelizmente fui desaconselhada a voar para Paris para assistir à exibição do documentário do "Padre das Prisões" no Festival Europeu televisivo de programas religiosos, que ocorreu no passado dia 16, e pôs a marca dos documentários portugueses na edição de um festival televisivo tão significativo.
Em 35 anos, nunca tinha sentido o peso de abdicar de uma realização tão especial nem de me faltarem as forças para concluir um sonho.


Mas dizem que sobreviver a uma desilusão sempre nos torna mais fortes.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quase Paris






É que se eu me sentasse eu não tinha pernas,
se eu me deitasse não havia corpo que se deitasse comigo
(comigo lá dentro porque aquele era o meu corpo e um corpo tem de nos ter lá dentro para sempre até morrermos; e não nos pode deixar sair nunca, ainda que sejamos nós a pedir-lhe)

- nós nunca podemos sair.

E.   
É que tu eras tudo, sabes? Como na Bíblia: ”O Princípio, o meio e o fim”.
Tu eras esse princípio, esse meio e esse fim, e eu não sabia que sem ti eu podia andar, que sem ti eu podia
  comer, que sem ti eu me podia vestir; como na Bíblia, os lírios do campo não têm que se preocupar com a roupa porque já estão vestidos, e bonitos, e brancos.
(eu podia recitar-te a Bíblia toda se soubesse que ficavas, daríamos passeios tolos de mãos dadas em Belém e tu cantavas para mim: não, nós não andaríamos de mãos dadas em Belém, andaríamos de pés dados porque connosco é diferente; e tu não cantarias para mim, só me enfiavas num quarto para que eu escrevesse, para que eu escrevesse sempre)


E.
E eu gostava do teu quarto.
E o que eu gostava de ti.


domingo, 4 de junho de 2017

Formação "Falar em público"


Foi o fim da formação "Falar em público" com mulheres guineenses da Asso Filhos Amig Farim.
Espero sempre que as/os minhas/meus formandas/formandos aprendam tanto como eu no decorrer de cada sessão. Hoje foi o nosso último dia juntas....e as #Capazes deram uma ajuda extra à felicidade com as suas t-shirts.
Obrigada Capazes, you all rock! #juntas

Formadora: Inês Leitão










sexta-feira, 2 de junho de 2017

Para o meu querido Tiago




(Para o Tiago, com todo meu coração)



Sabes T., queria ter-te dito o que vem a seguir, depois do choque de perdermos alguém.

 É um vazio absoluto. Ainda dou por mim no trabalho a emocionar-me do nada; ou antes, a emocionar-me deste vazio todo porque ainda não sei bem o que fazer com ele, nem este vazio todo sabe bem o que fazer comigo.

Ainda que não visse o M. todos os dias, ainda que não olhasse para ele todas as semanas, ele existia. E só por existir, o meu querido M. fazia o mundo ser melhor, mais respirável, mais puro.
Porque ele era genuinamente bom e genuinamente verdadeiro: há poucas pessoas assim hoje em dia.

E com aquela gargalhada boa que parte qualquer um de nós.

Continuo a falar no presente do indicativo, viste? Tu também vais fazer isso durante algum tempo até à altura em que te agarras à tua espiritualidade e à maravilhosa metáfora do Céu.

Eu acredito no Céu.


Um Céu mesmo, sabes? Tipo azul, com casas que são nuvens, anjos que se passeiam pelas ruas do Céu e te cumprimentam amorosamente - e anjas também - e se calhar as anjas apaixonam-se pelos anjos, enfim, essas coisas também devem acontecer lá pelo Céu.

 Acredito mesmo nisso. Que lá em cima deve ser mesmo bom e deve haver chocolate que não engorda a toda a hora …e lá há muita paz, sabes? Mas também há cafés e bares, certamente. E eles espreitam cá para baixo. Acho  mesmo que eles olham por nós e evitam-nos alhadas.

De qualquer forma, hoje deixo-te chorar e vestir preto.
Hoje podes chorar tudo o que tens direito, e depois amanhã também podes.
Depois podes bater com a cabecinha nas paredes a questionar tudo até ao momento em que sais do trabalho e vais ter com os teus amigos para celebrar: a vida, T, celebrá-la a Ela e a ele, e ao enorme privilégio de termos tido estas pessoas connosco um dia (somos uns sortudos do caraças, já pensaste bem???!!).

Quando pedires um gin ou uma cerveja – nesse dia depois do trabalho - faz um brinde com os teus amigos e olha para o céu erguendo o teu copo.

Tenho a certeza que o teu amigo anda por lá. Quem sabe já se esbarrou com o meu.
Promessa de Gretl!







domingo, 28 de maio de 2017

Módulo de Formação Teórico - "Falar em Público"


local: Associação Irmãos e Amigos de Farim
Formadora: Inês Leitão
Monte Abrãao
28 Maio 2017


Mulheres guineenses que um dia destes se tornam as maiores ativistas do Mundo e arredores.

#PROUD #WOMENPOWER #falarépoder



Dinâmica do Olhar

                                                   Dinâmica "Eu nos sapatos do Outr@"



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Nunca te vou esquecer, Miúdo! - CAPAZES



Escrevi este texto quando o Maurício entrou em morte cerebral  e eu esperava um milagre, como o golo do Kelvin. Hoje ao reler, percebi que não alteraria uma linha.

Morreu um homem de exceção que faz uma falta do caraças.

Texto Capazes ler aqui





segunda-feira, 22 de maio de 2017

Pequeno-almoço






Um dia explicas-me. Um dia explicas-me porque é que te foste embora. Por que é que deixaste de existir ou por que é que nunca exististe a sério e te deixaste criar pela minha imaginação
(podias ter-me impedido de ter sido tão ridícula)

Um dia dizes-me por que raio eu.
Um dia explica-me.

Explica-me como é que te foste embora assim sem me levares agarrada a ti, como é que tiveste coragem de ir com a tua pele sem mim;  a deixares-me para trás, sentada na sala, quieta e perdida, a começar a morrer com saudades.

Daquelas saudades, sabes? Das que parece que abrem um buraco no peito para onde podes gritar como um poço: um poço preto e fundo, que de tão real podes andar a mostrá-lo ao médico e ao mundo. Que por existir, dá pena a quem o mostras, porque também eles já tiveram um poço igual a esse no meio do seu peito, no lugar onde costumava ficar o seu coração.

 Mas um dia o coração voltou a crescer-lhes e tapou o poço.
Dizem que é isso que acontece aos poços do peito. Não há cimento que os vença: só coração.



Por que é que me fizeste isto se não era para ser?
Se tu não nasceste e não era para ser.
Se tu nunca exististe e não era para ser.



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Artigo - "Portugal Católico - A Beleza da diversidade"


A obra "Portugal Católico - A Beleza da diversidade" conta com um artigo de Inês Leitão sobre a Pastoral Penitenciária de Portugal.

Uma replica muito especial será entregue ao Santo Padre na sua vinda a Fátima a 13 de maio. #portugalcatolico #pastoralpenitenciariadeportugal







quarta-feira, 10 de maio de 2017

Dos dias Grandes




Dos dias grandes. Dos dias grandes em que acontecem coisas boas. Dos livros novos, daquilo que um livro novo pode trazer.
Dos dias grandes, do teu corpo e de mim. Das saudades que tenho tuas e minhas e das coisas que fazemos juntos quando o teu olhar fala comigo e me diz coisas bonitas
(o teu olhar diz coisas tão bonitas).

 Dos dias grandes em que citas poetas, dos dias grandes em que te vejo brilhar. Dos dias grandes em que alguém morre e tu és colchão da cama, o colchão que empurramos, agarramos e apertamos num desespero indizível.

Dos dias grandes, dos dias em que escrevemos textos só para sabermos que os dedos estão vivos e que o amor a sério é para pessoas grandes.

Dos dias grandes em que planeamos a vida e a vida sai ao contrário porque ela não gosta de ser planeada.

Dos dias grandes em que olho para ti e me vejo, dos dias grandes de uma casa e uma cadela.
Dos dias grandes que não trazem nem morte nem frio, dos dias grandes onde dançamos juntos com os teus pés.

Dos dias grandes que não têm fim e que são semente para outros dias grandes.

Dos dias grandes em que te tenho para mim, sem saber se mereço tanto.

E é isto.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Espero por ti logo para o almoço





Não há dia sem dor depois de ti,
porque a natureza do mundo mudou
e o mundo já não ri o teu riso.



O peixe foge do prato do almoço
(o garfo não o apanha),
a criança dorme aninhada no ninho da ratazana preta
e todos os bebés do mundo nasceram mudos.


 Os homens passam uns pelos outros
com as pernas apagadas debaixo das calças
sem corpo, só com a roupa vestida, sem corpo debaixo
-
Já não há gente por aqui, sabes?



Os candeeiros saíram das ruas,
desenterraram-se e andaram pela primeira vez,
estão fugir.


E deixou de haver caminho.


Todos os homens bons morreram ,
sem que ninguém saiba ao certo
 onde foi
que se esconderam.





domingo, 7 de maio de 2017

Da dor III


Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te. Enterrar-te.

Enterrar-te.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

2ª edição do livro - "O Padre das Prisões"




O livro "O Padre das Prisões" terá a sua 2ª edição no inicio do próximo mês de Junho em Lisboa.
Contamos com todos!






sexta-feira, 21 de abril de 2017

Documentário a caminho de França




O "Padre das Prisões" está selecionado como um dos filmes em competição no festival europeu de programas religiosos. É o primeiro documentário português a concorrer.

_______________________________

Dear Inês,

First of all, in the name of the Organizing Committee of the 19th European Television Festival of Religious Programs, I would like to thank you for having entered your film, thereby participating in this event alongside 70 other productions.
As announced in the rules and regulations, an international jury gathered in Paris from April 3rd to April 7th, 2017 to screen all the programs that had been entered. Their mission was to short-list the films that will be presented during the Festival. The qualities of your program caught their attention and I am delighted to inform you that your film, O padre das Prisões, has been selected to be screened during the competition.



terça-feira, 4 de abril de 2017

Hoje falemos de ti




Hoje falemos de ti.



Hoje falemos de ti,
das mãos que te nasceram do osso do ombro que quis ser braço:
para depois ser dedo no fim das mãos.



Hoje falemos de ti porque o inferno deve ser
o lugar onde a saudade mora, e hoje,
-espero que só hoje
há um inferno que espera por mim assim que me deitar.




Hoje falemos de ti
das tuas pestanas na cara,
 do teu nariz
das pernas que te cresceram da anca e te deram um joelho de homem.




Hoje falemos de ti
do que me sobrou de ti nas gavetas,
no meio dos livros, escondido nas estantes:
há partes tuas por lá, e minhas também.




Hoje falemos de ti
porque quando lavar a cara antes de dormir,
quero ter a certeza que viverei o meu inferno
 sem ti atrás das orelhas,
sem ti debaixo do nariz,
sem ti no saco que dá água aos olhos.



Sim, hoje falemos de ti.








sábado, 25 de março de 2017

A Magra que não há em mim - Plataforma CAPAZES




A ler aqui



De quando dizemos Nome


*Para S.


O nome que damos às pedras
não é o mesmo nome que damos aos dedos
- quando dizemos

d
e
d
o


nem o nome que damos ao corpo
- quando dizemos
c
o
r
p
o

nem língua
- quando língua é dita
l
í
n
g
u
a




O nome que te dou a ti não é o mesmo que dou às pedras
aos dedos
ao corpo
ou à língua



talvez porque todos os nomes do mundo
 sejam só isso: nomes.



Há uma hora no mundo em que o nome deixa de ser nome
e passa a ser uma parte de um braço
de um corpo
ou de uma pedra no rio

e tudo ocupa o seu lugar
- como se para tudo houvesse um lugar.



O nome é um lugar e quando é parte,
só ele habita o mar.






sexta-feira, 17 de março de 2017

Festival de télévision Europeen de Programmes Religieux (crowdfunding caseiro)



Caros amigos, 

estou a tentar levar o documentário "O Padre das Prisões" a um concurso internacional. Chama-se "Festival de télévision Europeen de Programmes Religieux" e podem ler aqui.

Portugal, ao que sei, nunca participou.

Preciso por isso de 900 euros (e isto é literalmente um peditório para a legendagem, tradução, inscrição do filme, inscrições pessoais e meios). 

PEÇO A VOSSA AJUDA já que a inscrição neste festival só pode ser feita até 24 de Março!!!! 


O meu nib é: PT50 0035 0824 0069 9632 7001 3.
Se não atingirmos os 900 euros até domingo o estorno é feito por mim aos próprios.
Enviem comprovativo para eu poder controlar os recebimentos para: inesjleitao@gmail.com
OBRIGADA!!!!!!



quinta-feira, 16 de março de 2017

Moderação na 5ª sessão do Curso Pós-Graduado em Direito e Cinema | 22 março




No próximo dia 22 de março (quarta-feira), às 19h30, terá lugar a quinta sessão, na sala 12.32 da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (piso 2).



-        A mulher homicida na jurisprudência e no discurso mediático: contrastes (Inês Ferreira Leite)

-        A mulher como instigadora: desconstrução da “femme fatal” (Helena Morão)

-        Discursos sobre o crime e a Justiça: dos/as juízes/as às perspetivas exteriores ao sistema (Andreia Castro Rodrigues)

-        Debate

Moderação: Inês Leitão



Dia 21 de Março - CAPAZES DE CELEBRAR A POESIA



Dia 21 de março vou estar por aqui!
Entrada Livre



quinta-feira, 9 de março de 2017

A parte boa de amar alguém não é só ver-te dormir







A parte boa de amar alguém não é só ver-te dormir e imaginar quem te vai dentro da cabeça, 
no lugar onde os olhos se reviram
e o cérebro mora.


A parte boa de amar alguém não é só esperar por ti no metro com a certeza que vens neste, que é o teu corpo o primeiro a sair para me abraçar
que és tu à minha procura quando as portas se abrirem e todos se movimentarem acotovelados de cansaço
 - todos menos nós,
 por nos termos um ao outro.



A parte boa de amar alguém não é só o cheiro que a tua pele traz com ela e dorme na almofada a olhar para mim; nem é só ver-te as calças a escorregar pelo rabo quando o cinto não está na presilha certa-  e eu me rir de ti - e achar-te meio meu.


A parte boa de amar alguém é cozinhar para ti, é ter ciúmes, é viajar contigo e dizer-te que o tampo da sanita ficou levantado pela centésima vez - sabendo que não ouves.


A parte boa de amar alguém não é só saber o que tu pensas antes de o teres pensado,
nem saber que vais pedir café cheio
 com metade de um pacote de açúcar
 e um copo de água que só fará companhia à chávena triste em cima da mesa
que nos ouvirá rir o resto da tarde.

A parte boa de amar alguém não é só deixar-te adormecer no sofá porque estavas exausto e tentaste aguentar até ao final da série: a parte boa de amar alguém não é só escrever-te poesias e ler-tas como se fossem flores:
 a parte boa de amar alguém é um dia quando não me amares mais.


A parte boa de amar alguém é sobreviver à partida, é contornar o desgosto com a certeza que saberemos ser sempre assim;
que saberemos sempre tocar com eternidade na ponta dos dedos - e que saberemos sempre conduzir eternidade à pele que é tocada.


A parte boa de amar alguém é estar aqui contigo a achar que isto nunca mais vai acabar,
ainda que um dia tu te apaixones e as tuas pernas me deixem sozinha e a terra me engula.


A parte boa de amar alguém é guardar sempre as cartas com as palavras lá dentro.
A parte boa de amar alguém é guardarmos a certeza que existimos.




segunda-feira, 6 de março de 2017

Das boas cartas de Amor





Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não demais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos

separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.



Maria do Rosário Pedreira

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Cromossoma C






Há muito tempo que este medo não chegava assim: eu antes só tinha medo quando era domingo depois de sábado, e  tu sabias quando era domingo depois de um sábado.
Tu sabias. 

Tu sabias e fazias-nos deitar mais cedo para eu não me sentir assim, para eu não sentir isto e para o domingo ser pequeno e eu não o ver muito: sim, eu não o podia ver muito.

Despias-me.

Deitavas-me na cama.
Encostavas a porta do nosso quarto e fechavas a luz.


Eu deixava-me despir por ti, deixava-me deitar, deixava que encostasses a porta do nosso quarto e que fechasses a luz para não ser domingo: a verdade é que tu sempre soubeste o que fazer por mim quando eu não soube


Eu não queria sentir e tu dizias:
- fecha os olhos um bocadinho

Eu fechava os nossos olhos um bocadinho porque o lugar onde eu acabava para tu começares a existir era uma linha a giz que bastava soprar - e não fazia mal, desde que o giz não desaparecesse, que não desaparecesses.

Eu fazia binóculos a fingir com as mãos e olhava para o tecto a saber que tu virias da sala: nós tínhamos o velho hábito de ser felizes até deixarmos de ser.

As minhas mãos eram binóculos e tu fazias o dia ser noite, fazias o domingo não ser domingo. Mas morreste. E os mortos não me sabem despir, não me sabem deitar, não sabem encostar a porta do nosso quarto nem fechar a luz.

Não, os mortos não sabem nada disso.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017