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A mostrar mensagens de Maio, 2016

Do que sempre fomos

Ainda temos os mesmos pés no fundo da cama quando nos vimos da cabeceira,
ainda temos os mesmo dedos. Ainda temos alma e divindade
e ainda temos os mesmo dentes da boca que dizem
amor.

Ainda temos a mesma gargalhada
os mesmos dedos das mãos imperfeitas:
ainda sabemos viver a achar que somos eternos na nossa caverna.

Ainda temos  luz
e  verbo
e felicidade debaixo da cama.

Ainda somos os mesmos.

Lançamento em Aveiro - "O padre das Prisões - Ensaio sobre a vida do Pe. João Gonçalves" - 14 de junho

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Estreia - "A Mãe" de Inês Leitão

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Do que sempre foi nosso

Tenho um corpo a mais que podes vestir.

Problema 30

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És desabitado porque onde havia vida, tu levaste o desamor.


És desabitado.
As pedras exiladas recusam-te porque recusam o vento,
o vazio e o nada,
porque tu nunca soubeste levar ninguém na boca:
nunca ninguém seguiu protegida entre os teus dentes,
nunca ninguém sentiu refúgio entre os teus maxilares que atravessavam a Terra.


És desabitado e pequeno e pobre
porque tu nunca soubeste coser pele ou remediá-la depois, com a velha caixa de costura da despensa,
- nunca te vi coseres-me com carinho depois de me veres chorar: eu sentada num eterno retorno e tu


És desabitado e pequeno e pobre e o pouco
sempre te será o bastante.




Lobotomia

Experimentamos outro tempo onde o nosso corpo respira outro corpo - porque juntámos um pé ao outro e quando reparámos já estávamos com os pés e as unhas no chão, sem medo,
a andarem juntos pelo alcatrão: eles não cantavam mas já era  estrada


(eu a chegar, eu em pé a andar)

Agrafámos os lábios da boca: tive ajuda a agrafar-me
- a força de dois braços em cada agrafo que me selava a pele para ela nunca mais se abrir: o sabor a aço entre a saliva e a língua e o sangue da boca que sai plácido e devagar,
 o aço



para ela nunca mais saber dizer as palavras que o cérebro escreve. Guardámos o agrafador e os agrafos que sobraram no bolso das calças para agrafar a cabeça depois: não podemos deixar a memória à mercê das suas vontades
- nunca mais queremos o passado.

De facto, por lei, nunca mais a nossa cabeça se pode abrir.

O Lago de Prata

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(Para a minha tia Z., que às vezes me salva)



Talvez só haja dor e um lago de prata.

Talvez só haja dor e um lago de prata. E no lago de prata existem peixes que falam todas as línguas,
e flores que todo o ano permanecem fechadas em si próprias para não trazerem beleza ao mundo.

Nesse lago de prata há pequenos insectos em silêncio,
que afinal não são pequenos insectos em silêncio porque têm
mãos e dedos de mão de corpo de homem
e tem pedras
que respiram sem boca
(ali as pedras respiram: mas as pedras não têm boca, só respiram).

No lago de prata não há morte
porque não existem corpos de verdade,
- assim como o meu e o teu,
mas há céu: há um enorme céu.

No lago de prata não há alimento
porque não há dentes,
nem saliva, nem palato
nem gargantas que possam engolir. Mas há céu. Oh! sim, há um enorme céu.





O último dos dias

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Não: dizem que a relva parou de crescer.
Dizem que o cabelo caiu a todos os homens da terra e que todas as unhas do corpo murcharam à laia de figos secos, presos pela carne no fim dos dedos da mão.
Dizem que a água dos rios e dos mares encaroçou à laia de seio materno a quem o leite desceu. Dizem que alguém chamou a morte dos montes, mas que a morte se recusou a vir, ocupada que estava em ver lá de cima a desgraça na Terra.
Dizem que o vento parou a meio e cristalizou tudo dentro se si, envidrando todas as pessoas que estavam na rua àquela maldita hora: homens, mulheres e crianças. Dizem que as suas bocas abertas e os seus olhos de terror, cristalizados, moldaram de pânico os que haviam escapado ao vidrovento, assistindo agora desgovernadas
- eu continuei em frente porque não conheço nenhum outro caminho


Dizem que as nuvens fizeram uma cortina de pedra que se fechou  e que os pássaros caiam mortos no chão, como se caçados fossem ao céu
- eu, desta vez sem
Dizem que as mulheres deixara…