quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Problema 30


                                                           Mueck



Não tens vindo aos meus sonhos. Tens estado desaparecida ou ocupada. Ias mais a Campo de Ourique do que vens a Sintra, diga-se. Pensei que aparecesses hoje depois do que aconteceu: costumas vir depois do lodo.
 Imagino que aches que não preciso ver-te mais ou sentir-te por perto, que ganhei a resistência que desejavas que eu tivesse ganho e me tornei o que era expectável: mas depois de amanhã é Natal e o Natal ainda és tu. Tu e eu e o cheiro da comida da mãe. Os doces. Nós todos à mesa.
Ninguém diria que passaram 28 anos depois de tu teres. Teres.


Lembro-me da escada de casa e lembro-me de me puxares, de não me deixares descer os degraus sozinha com medo que eu caísse lá para baixo
(eu e as minhas botas ortopédicas que toda a gente achava bonitas menos eu)

- tu com medo que eu caísse: eu sem medo de me aventurar nos degraus altos, sem medo da queda




Este ano não foi fácil, avó. Saltei algumas vezes. Muitas delas de olhos fechados e todas sem medo: algumas vezes caí num chão firme e fofo sem nenhum arranhão, outras esfolei-me toda de cima a baixo
- um dia explicas-me de onde é que me vem este lado demasiado destemido



Hoje não há por aqui ninguém que me puxe o casaco como tu para eu não me atrever nos degraus mais altos: os que se tornaram os meus favoritos.
Mas não faz mal.



Não faz mal que ninguém me puxe: não faz mesmo mal.
Eu vou sempre ser das que saltam. E das que não vão a medo. 

sábado, 28 de novembro de 2015

Da Poesia na cara



Às vezes a Poesia, às vezes nós.
Às vezes o tempo do outro lado do vidro,
às vezes a pedra e a cruz e a benção,
às vezes o amor mas sempre Poesia.


Às vezes a morte a dormir ao nosso lado
às vezes a dor deitada de barriga para cima no sofá da sala
às vezes o nosso corpo sem pés e
sem mãos e sem braços:
às vezes a cave: o quarto escuro,
mas sempre a Poesia.

Às vezes o medo debaixo da mesa, escondido de nós nas escadas
no escuro,
às vezes o abraço e o beijo;
tantas vezes os ossos no corpo do desmaio
mas sempre Poesia.

Às vezes o ascético morrer de solidão
às vezes a toalha no corpo depois do banho
a limpar-nos do pecado;
às vezes os braços dos outros a segurarem-nos a cabeça em fortaleza
 para ela não cair e partir
(como quem pode segurar-nos a cabeça para ela não cair  e partir)
às vezes os dentes brancos no espelho da casa de banho
mas sempre a Poesia.

Às o que tínhamos que era infinito e
às vezes quando o infinito era medo e bosque e unhas na boca;
às vezes as pernas abertas, às vezes as pernas fechadas
às vezes o cabelo preso no encosto.
Às vezes o pau, a fera, o tronco
às vezes o tempo e às vezes nós.
Mas sempre a Poesia.

Às vezes os olhos e os pés frios numa cama longa de gente,
às vezes eu no espelho a dizer-me adeus com a mão toda
(às vezes eu não tenho a mão toda no espelho)
e às vezes o mar.

Às vezes o peito sem respirar
(às vezes o peito não respira)
às vezes o norte e o sul na cara,
às vezes o este e o oeste.

Às vezes o tamanho do corpo,
mas sempre, sempre, a Poesia.




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Da espera dos outros


Para o meu irmão L. que me ensina coisas bonitas




Um dia aprendemos a esperar. Ficamos à porta de uma casa e esperamos. Sabemos que a pessoa que queremos está lá dentro e ouviu-nos tocar.
Tocamos: ela sabe-nos ali.
Pode fingir e não querer abrir, mas sabe que estamos do outro lado da porta: com a cabeça, com os braços, com as pernas que nos sobram de um amor. Esperamos.
 
Esperamos porque o amor sempre nos deixa com o nosso corpo.
 Esperamos assim que alguém abra a porta. Que a pessoa que está do outro lado nos queira e venha; esperamos que ela  nos deixe entrar porque é só isso que queremos afinal; não pedimos mais nada, só queremos entrar.

Não voltamos a tocar porque quem espera não insiste , mas encostamos a cabeça à porta. Continuamos. Esperamos. 


Podemos até sentar-nos no chão à espera.
Esperamos fora do imediato porque aprendemos que as pessoas têm tempo dentro delas, desajustado dos nossos relógios de pulso, do nosso.
Espera-se que a porta abra, depois espera-se que ela abra o suficiente para vermos a pessoa que queremos; esperamos um pouco mais para que a sua abertura total permita a entrada do nosso corpo e nos inclua.

 Esperamos, numa última etapa, finalmente, que a porta  se feche atrás de nós:  gostamos do barulho da porta que se fecha. Por trás.

Mas esperamos.
E a espera é grandiosa.




terça-feira, 10 de novembro de 2015

Do som e da fúria



Nunca uma música falou tão alto.
Nunca uma melodia disse tanto.



Aqui.

                                                Van Gogh - "Os comedores de batatas"






sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A casa



Para J. com todo o meu amor



E depois chegas tu
com anjos nas costas
e olhos que constroem janelas e portas na
casa onde antes vivia o vento.


Chegas sem mãos
com o rito consolador
e levas a penumbra para trazer o Estio,
e com ele o quente.


Chegas sem olhos porque não precisas de ver
o que conheces e sabes existir.


Chegas sem nariz e sem rosto
porque tudo é eterno e teu.



Com as mil línguas que falas
espantas os ratos e as cobras
e a casa é toda ela habitável e nossa,
para os filhos que teremos do corpo e
para os filhos que vierem depois desses,
os netos dos mortos.


E ali, naquela casa,  toda a eternidade é amor.
Ali,  toda a eternidade é desejo.



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Tradução de poemas de Inês Leitão por Xavier Frias





NO DIA EM QUE HATERLY MORREU E OUTROS POEMAS DE INÊS LEITÃO

NO DIA EM QUE HATERLY MORREU

Deixámos de poder dizer amor com os dedos
porque tudo o que tinhamos de tacto
virou pó,
manta velha, 
rol de velhas falácias ditas por bocas sujas de velho engodo,
e os dedos deixaram de saber dizer.

Deixámos de poder dizer amor com os lábios
porque decepados,
o rosto foi invadido pelo líquido vermelho 
que alimenta o corpo e lhe faz as brasas.

Deixámos de poder dizer amor com os olhos
porque o único de nós que via,
deixou de ver, e
o que era antes corpo é agora quadro,
o que era antes luz é agora gelo
o que era antes cor é agora dor.

EN EL DÍA EN QUE MURIÓ HATERLY

Dejamos de poder decir amor con los dedos
porque todo lo que teníamos por tacto
se volvió polvo,
manta vieja,
lista de antiguas falacias dichas por sucias bocas de viejo cebo
y los dedos dejaron de saber decir.

Dejamos de poder decir amor con los labios
porque amputados,
el rostro fue invadido por el líquido rojo
que alimenta el cuerpo y lo abrasa.

Dejamos de poder decir amor con los ojos
porque lo único de nosotros que veía
dejó de ver y
lo que antes era cuerpo ahora es cuadro
lo que antes era luz ahora es hielo
lo que antes era color ahora es dolor.



DA DOR

Matamos as saudades. 
Não as eliminamos, não as apagamos, não as tapamos, nem as sabemos reduzir até à sua inexistência
 são elas que  nos reduzem a nós

resta-nos matá-las. Matar. Pegar em armas e matar.
Não sabemos aligeirá-las, não existe pomada nem comprimido que nos liberte: o ideal é matar a saudade toda logo, não permitir que ela respire (tapar-lhe a boca e apertar-lhe o nariz),
nem permitir que ela nos toque: afogá-la ou dar-lhe com uma pá na cabeça para ela cair desfeita no chão e desaparecer-nos  dos olhos imediatamente

(a saudade começa-nos nos olhos)

 A pá, o crânio desfeito no chão e a ausência rápida de saudade
– sim, a saudade tem um crânio; tem um crânio porque às vezes a saudade é pessoa; e quando é pessoa dói mais e precisamos que ela morra mais rápido ainda.

DEL DOLOR

Matamos las saudades.
No las eliminamos, no las borramos, no las tapamos, ni sabemos reducirlas hasta su inexistencia
– son ellas las que nos reducen a nosotros

solo nos queda matarlas. Matar. Tomar las armas y matar.
No sabemos aligerarlas, no existe pomada ni compromido que nos libre: lo ideal es matar toda la saudade enseguida, no permitir que respire (taparle la boca y apretarle la nariz), ni permitir que ella nos toque: ahogarla o darle con una pala en la cabeza para que se caiga al suelo deshecha y desaparezca ya de nuestros ojos.

(la saudade empieza en nuestros ojos)

Vaya, el cráneo aplastado en el suelo y la ausencia rápida de saudade
– sí, la saudade tiene cráneo; tiene cráneo porque a veces la saudade es persona; y cuando es persona duele más y necesitamos que se muera aún más rápido.



DA CASA DO CORPO

Devia ter a coragem para contar-te que hoje sou eu. Não és tu, nem o teu corpo numa Lisboa feita de Inverno como nós naqueles dias: hoje é o meu corpo e o que eu tenho cá dentro
(passou um ano)

Tento ter a força de levar o que é meu, para um caminho novo que surgirá quando abrir os olhos
 sim, os meus olhos vão abrir e nunca mais me vou lembrar
os olhos a abrir dentro de água, o líquido e o que ele protege

corpo a mudar,
 a mexer-se,
 a crescer por dentro até ao dia da aniquilação; e um sinal da cruz que sai pela indicação do polegar,
a nascer da testa ao queixo,
a cruzar a cara quente em sinal de perdão.


DE LA CASA DEL CUERPO

Debía tener el valor de contarte que hoy soy yo. No eres tú, ni tu cuerpo
en una Lisboa hecha de invierno como nosotros en aquellos días: hoy es mi cuerpo
lo que llevo aquí dentro
(ha pasado un año)

Intento tener fuerzas para llevar lo que es mío, para un camino nuevo que surgirá cuando abra los ojos
– sí, mi ojos se abrirán y nunca más recordaré
abrir los ojos dentro del agua, el líquido y lo que ella protege

El cuerpo cambiando
meciéndose
creciendo por dentro hasta el día de la aniquilación; es una señal de la cruz que sale por el gesto del pulgar
naciendo de la frente hasta la mandíbula,
cruzando la cara caliente en señal de perdón


http://lastura.blogspot.pt/2015/11/no-dia-em-que-haterly-morreu-e-outros.html?spref=fb
© Texto: Inês Leitão
© Tradução: Xavier Frias Conde

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

3 Mandamentos do Mundo





Para a minha Ophelia que vive em Braga e não deseja mais o rio





1º Mandamento
Ama-te

2º Mandamento
Ama

3º Mandamento
Deseja amar.

(autor anónimo)




sábado, 24 de outubro de 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

Encontro de escritores em Famalicão - 23 e 24 de outubro



Dia 23 e 24 estarei por aqui!
Entrada gratuita!



Até Sempre



Até Sempre, Duarte



Nunca me soube despedir de pessoas. Não vou, com certeza, saber despedir-me de ti.
Mas queria que soubesses que sei que só podes estar entre as nuvens, a rir-te, com aquele sorriso grande que achavas que eu também tinha.

Obrigada por todo o teu amor, por todo o teu reconhecimento, por teres ido a correr comprar o CM quando escreveram sobre nós: por torceres por aquilo que está a chegar.

Que pena que não vais estar por aqui quando for maior.


Até Sempre


Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Da felicidade dos vivos






Olha para mim agora aqui,
 onde não há tempo:
e só nós os dois sobrámos ao mundo todo
aqui num colchão no chão.

Olha para mim, aqui,
a ver o teu corpo
e a espreitar-te o mundo pelos olhos
como se fosses o mundo e o mundo fosse o aglomerado de todos os teus ossos brancos
debaixo da pele.

Olha para mim, aqui, dentro de ti
a ver-nos ser corpo
e veia de carne
de corpo limpa de sangue.

Olha, aqui, para mim
eu que nunca tive medo
e que nunca fechei os olhos para não ver
(eu que sempre tive tanto medo de não ver)
Eu e tu,
em nome do Pai
do Filho
e do Espírito Santo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Não nos morras, Luaty



Esperamos a qualquer altura que a morte de Luaty seja uma realidade. A verdade é que um herói morto não fará nada por Angola. Não resisto a publicar aqui um texto da autoria da jornalista Carla Adão sobre a vida deste herói, tão à margem de todos os outros heróis.




CARTA ABERTA PARA LUATY
Nunca nos conhecemos, mas talvez saibas quem sou!
Sou uma angolana que pelas circunstâncias da História nunca viveu na sua terra.
Triste com a realidade do meu país vivia, no entanto, na apatia da distância. A tua determinação despertou-me a raiva contra situações com que não concordo.
Admiro a tua dignidade, coragem e determinação. Receio, no entanto, que as consequências da tua greve de fome se esmoreçam rapidamente se morreres.
Muitos te chamam de herói, mas de que nos serve um herói morto? Desses já os temos! A melhor forma de mudar o nosso país é continuares vivo, a inspirar outros jovens a terem a tua determinação. Já inspiraste um movimento de luta pela libertação do grupo, vamos continuar esse movimento, não vamos deixar morrer essa chama... Mas precisamos de ti vivo, para que este seja um rastilho de uma reação em cadeia para libertar, não só, os 15+1 mas todo um país e todo um povo que vive refém de um regime e dos seus bajuladores.
A tua filha precisa de ti, a tua família precisa de ti, mas todo um povo precisa de quem o inspire para a mudança. Acredito que podes ser tu. Vivo!
Não facilitar a vida aos que querem livrar-se de ti, por seres um homem capaz de morrer pelas tuas convicções.
Fico à espera de um dia poder apertar-te a mão e agradecer- te por me teres ajudado a sentir de novo angolana, ainda que indignada!


CARLA ADÃO
Jornalista


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Obrigada, special one




Porque



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Toda a dor do mundo










mil vezes o meu útero ao teu
mil vezes a minha barriga por crescer
mil vezes a minha dor

mil vezes os meus orgãos
mil vezes as agulhas na minha pele
mil vezes as minhas pernas abertas.

mil vezes tudo o que de mau possa acontecer,
mil vezes os meus gritos e a minha sorte
mil vezes em mim toda a dor do mundo.


mil vezes as minhas lágrimas
mil vezes as minhas entranhas
mil vezes a minha dor.

domingo, 4 de outubro de 2015

Jornadas de arquitectura - Lisboa - 17 outubro



Vou estar com a minha irmã, Daniela Leitão,  na primeira mesa redonda das Jornadas de Arquitectura e Liturgia, já no próximo dia 17 de outubro em Lisboa.
Irei falar sobre a experiência do documentário "O meu Bairro",

Contamos com todos!



O documentário será exibido e a entrada é livre.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Epilepsy dance











A dança é uma forma de expressão que liberta o corpo e o faz fluir no espaço enquanto parte, circunstância e contexto.
 Os corpos deixam de ter membros superiores ou inferiores e passam a ser uma massa que se difunde e trespassa o tempo em cima de um palco que  agracie
(toda a dança pede palco e olhos que a vejam)
- foi depois daquele dia que nunca mais te vi; tu a ires connosco dentro da tua mala para sempre




A música, transformadora entra pelos ouvidos até ao sangue
- sempre pensei que cristalizássemos como as frutas de Natal




E torna-se o motor do corpo: dá-lhe a melodia da força que alimenta os músculos,
os pés hirtos de fortaleza,
os tendões como vigas de homem
- hoje tive saudades e lembrei-me que prefiro o Ian Curtis a dançar do que o Mick Jagger



Os músculos das pernas como pedras,
os braços como rochas e as mãos como estradas de ferro que se abrem no ar
sem sabermos onde terminam
- que deixámos de ser nós, deixámos de




A música que se injeta no corpo do bailarino à laia de droga apocalíptica, o tempo a desfazer-se dele e ele a ser chama e eternidade
- um dia houve em que também fomos chama, um dia houve em que fomos eternidade.





sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Para a minha avó





Querida Avó,




Hoje sonhei contigo. Não foi um sonho, foi uma presença.
Estavas na casa onde vivo –  não naquela onde pacificamente morreste no dia de Natal – sentada ao meu lado. Tinhas um lenço preto na cabeça como antes. Mas não falámos durante o meu sonho. Olhavas para mim com amor (não me recordo quanto tempo ficámos assim porque os sonhos são ausentes de tempo).
Lembro-me do dia em que morreste como se fosse hoje. A memória é nítida.
 Os bombeiros a chegarem sem som: lembro-me do meu cobertor amarelo por cima de ti e de te levarem nele, lembro de ficar a saltar à corda na casa dos padrinhos quando a ambulância ia contigo sem tocar a sirene: eu a ver-te ir da varanda na ambulância que não apitava, sem barulho, sem luz azul
- eu nunca tinha visto uma ambulância sem luz azul e sem som

 Ias tu e a mãe lá dentro
- eu a saltar à corda com a A. na varanda a ver-te ir, a saber que ias a dormir sem abrir os olhos mais

Depois disso a mãe levava-me ao cemitério de Benfica para te ver. Arranjávamos o teu lugar porque os mortos passam a ser um lugar.
Tinha 5 , 6 anos, e aos domingos ela ia . Desconfio que precisava de ti como eu preciso dela agora.
Ela falava contigo enquanto limpava o mármore, comprávamos cameleiras bonitas e a tua campa era a mais bem cuidada e a mais amada de todas as outras. Os outros usavam flores de plástico e nós não.
Lembro-me de estar especialmente bonita aos domingos: a missa, o cabelo penteado pela mãe, o vestido e os sapatos de verniz com meias brancas. Almoçavamos e apanhavamos o comboio para te ir ver a Benfica.
Lembro-me de uma trança no cabelo com um laço, às vezes.
Lembro-me de jogar às pedras entre as campas e de não ter medo do facto de estarem pessoas deitadas debaixo da terra a dormir: ali ninguém nos faz mal e podemos falar com eles à vontade.

A mãe tinha um galho numa árvore preferido: punha a mala ali assim que chegava, eu começava a ver a cara das pessoas nas fotografias, a tentar ler as pedras que diziam coisas em cima delas: a mãe ia buscar um balde de água para esfregar o mármore até ficar imaculado.
 Às vezes não tinha a certeza se a mãe estava a rezar, a falar contigo, mas lembro-me de por vezes achar que chorava. Devia ter saudades tuas.

Mas hoje sonhei contigo, avó.
Talvez porque eu tenha sido a única de nós que não é tão forte. A bisa  que um dia foi esfaqueada pelo teu pai e foi, ela própria pelo seu pé, à procura de socorro na noite escura da quinta onde vivias; tu que te fizeste sozinha, a mãe que nos criou com todo o seu trabalho e com todo o seu amor.
Somos um clã de mulheres mais fortes do que as outras. Sempre fomos. Com pouca sorte em relação aos homens que amamos.

Tu que eras uma das mulheres mais bonitas da tua aldeia, eras surda de nascença. Mas dizem que os teus olhos, o teu rosto, a tua altura e a tua elegância te elevavam a uma condição de mulher única. A mãe deslumbrava nos seus casacos de peles nos anos 60, o seu cabelo, as suas ancas que herdei, as suas viagens.
Eu, a mais jovem do nosso clã, mereci a tua visita ontem. Acredito que os sonhos nos aproximam do céu.
Obrigada, avó, por teres vindo ver-me.


Até logo



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Cartas a M.



17 janeiro de 1930


Querida M.,


“Is it really possible to tell someone else what one feels?” 
 Leo TolstoyAnna Karenina



Não há mais luto nem mais travo a amargura, apenas uma certeza incessante de libertação e amor.
Amor aos outros e amor às minhas mãos e à minha cabeça.
Amo-me e toco-me com a delicadeza de quem tem dedos de tempo.
 Aparecem cada dia mais personagens aqui no quarto: deixo-as entrar, cuido delas, falamos à janela. O meu quarto é silêncio como sempre desejei que fosse - às vezes música.
Do outro lado da janela um prédio devoluto ao qual me mostro nua todas as noites, numa espécie de cumprimento ritualistico do corpo.

Assim  vão os meus dias. Assim vai a dor do mundo.



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Neste mundo tudo tem a sua hora





Maputo, 2 janeiro 1965





Querida M.,


Podia arrancar os cabelos com o luto que atravesso mas em vez disso, a escrita, ela própria, chega de noite como um bálsamo. Produzo à velocidade da dor.
Textos e textos novos, textos para teatro finalizados, produções várias com tantas personagens pela casa nuas: a dor é um motor aditivo.
Não penso mais nele porque afinal ele nunca existiu. A morte não existe no prisma da vida. Nós, aqueles cujo coração ressoa no peito com a força de uma manada de elefantes, não conhecemos a morte, de facto.
Ressalvo o amor que foi, mas não posso amá-lo porque não se amam os mortos, os que nunca existiram ou os que um dia viveram entre nós e nos tocaram a pele entre as pernas.
A escrita é salvífica.
Mal posso esperar pelo resto das minhas noites.






segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Da linha que Haterly bordava







1+1= 2
 No dia em que Haterly morreu não comemos cogumelos fritos no sofá, nem dormimos no meio de gatos com pele de cinza e olhos de sol aflitos em calor branco.

5-7= tempo
No dia em que Haterly morreu não fomos ao sushi.

1+3=oquemeapetecer
No dia em que Haterly morreu, Lisboa acordou quente como um vulcão sem mãe e sem pai e nós não nos beijámos mais. Nunca mais. Nunca mais ao ponto de eu não saber onde ficam os teus lábios nem tu saberes onde ficam os meus
(como no escuro).



Nunca de nunca. Nunca de tempo.





2-2= 0
No dia em que Haterly morreu eu descobri que tu morreste afogado na água quente daquele país que vem no mapa e se marca a azul.

2-2= 0??
 No dia em que Haterly morreu eu vi-te afogar.

2-2=0 ????
No dia em que Haterly morreu eu vi que não bateste as pernas para te salvares, nem gritaste. No dia em que Haterly morreu eu vi que não pediste socorro enquanto te afogavas porque não querias ser salvo.
Olhavas para mim e eu olhava para ti. E era.

2-2=0 ???????????????
No dia em que Haterly morreu nenhum de nós quis ajuda para se salvar.
Queríamos saber  até onde aguentávamos sem respirar.


3+3=6
No dia em que Haterly morreu eu deixei de saber beijar porque os meus lábios cairam-me ao chão como duas próteses bonitas de carne e partiram como a loiça da avó.


No dia em que Haterly morreu, os meus lábios partiram.
No dia em que Haterly morreu eu sonhei que era a avó.


image: Eric Lacombe




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

No dia em que Haterly morreu



Deixámos de poder dizer amor com os dedos
porque tudo o que tinhamos de tacto
virou pó,
manta velha,
rol de velhas falácias ditas por bocas sujas de velho engodo,
e os dedos deixaram de saber dizer.


Deixámos de poder dizer amor com os lábios
porque decepados,
o rosto foi invadido pelo líquido vermelho
que alimenta o corpo e lhe faz as brasas.



Deixámos de poder dizer amor com os olhos
porque o único de nós que via,
deixou de ver, e
o que era antes corpo é agora quadro,
o que era antes luz é agora gelo
o que era antes cor é agora dor.

image: Lacombe


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Comer Anais Nin ao pequeno-almoço




“Love never dies a natural death. It dies because we don't know how to replenish its source. It dies of blindness and errors and betrayals. It dies of illness and wounds; it dies of weariness, of witherings, of tarnishings.”



― Anaïs Nin

sexta-feira, 20 de março de 2015

Dia de Manifesto - 08 de abril





 A música é do maravilhoso Tiago Sousa. Os textos, neste caso, são meus. 
Podem ouvir aqui gratuitamente os Manifestos que escrevi contra este mundo (Manifesto a favor da utilização dos transportes públicos / Manifesto pela saída de emergência) .
A apresentação do disco está marcada a azul na minha agenda: DIA 08 DE ABRIL smile emoticon