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Problema 30

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Mueck



Não tens vindo aos meus sonhos. Tens estado desaparecida ou ocupada. Ias mais a Campo de Ourique do que vens a Sintra, diga-se. Pensei que aparecesses hoje depois do que aconteceu: costumas vir depois do lodo.  Imagino que aches que não preciso ver-te mais ou sentir-te por perto, que ganhei a resistência que desejavas que eu tivesse ganho e me tornei o que era expectável: mas depois de amanhã é Natal e o Natal ainda és tu. Tu e eu e o cheiro da comida da mãe. Os doces. Nós todos à mesa. Ninguém diria que passaram 28 anos depois de tu teres. Teres.

Lembro-me da escada de casa e lembro-me de me puxares, de não me deixares descer os degraus sozinha com medo que eu caísse lá para baixo
(eu e as minhas botas ortopédicas que toda a gente achava bonitas menos eu)

- tu com medo que eu caísse: eu sem medo de me aventurar nos degraus altos, sem medo da queda



Este ano não foi fácil, avó. Saltei algumas vezes. Muitas delas de olho…

Da Poesia na cara

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Às vezes a Poesia, às vezes nós.
Às vezes o tempo do outro lado do vidro,
às vezes a pedra e a cruz e a benção,
às vezes o amor mas sempre Poesia.


Às vezes a morte a dormir ao nosso lado
às vezes a dor deitada de barriga para cima no sofá da sala
às vezes o nosso corpo sem pés e
sem mãos e sem braços:
às vezes a cave: o quarto escuro,
mas sempre a Poesia.

Às vezes o medo debaixo da mesa, escondido de nós nas escadas
no escuro,
às vezes o abraço e o beijo;
tantas vezes os ossos no corpo do desmaio
mas sempre Poesia.

Às vezes o ascético morrer de solidão
às vezes a toalha no corpo depois do banho
a limpar-nos do pecado;
às vezes os braços dos outros a segurarem-nos a cabeça em fortaleza
 para ela não cair e partir
(como quem pode segurar-nos a cabeça para ela não cair  e partir)
às vezes os dentes brancos no espelho da casa de banho
mas sempre a Poesia.

Às o que tínhamos que era infinito e
às vezes quando o infinito era medo e bosque e unhas na boca;
às vezes as pernas abertas, às veze…

Da espera dos outros

Para o meu irmão L. que me ensina coisas bonitas




Um dia aprendemos a esperar. Ficamos à porta de uma casa e esperamos. Sabemos que a pessoa que queremos está lá dentro e ouviu-nos tocar.
Tocamos: ela sabe-nos ali.
Pode fingir e não querer abrir, mas sabe que estamos do outro lado da porta: com a cabeça, com os braços, com as pernas que nos sobram de um amor. Esperamos.
Esperamos porque o amor sempre nos deixa com o nosso corpo. Esperamos assim que alguém abra a porta. Que a pessoa que está do outro lado nos queira e venha; esperamos que ela  nos deixe entrar porque é só isso que queremos afinal; não pedimos mais nada, só queremos entrar.
Não voltamos a tocar porque quem espera não insiste , mas encostamos a cabeça à porta. Continuamos. Esperamos. 

Podemos até sentar-nos no chão à espera.
Esperamos fora do imediato porque aprendemos que as pessoas têm tempo dentro delas, desajustado dos nossos relógios de pulso, do nosso. Espera-se que a porta abra, depois espera-se que ela abra o suficien…

Do som e da fúria

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Nunca uma música falou tão alto.
Nunca uma melodia disse tanto.



Aqui.

                                                Van Gogh - "Os comedores de batatas"






Exibição "O Padre das prisões"

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Lisboa e Porto!
Entrada Livre



A casa

Para J. com todo o meu amor



E depois chegas tu
com anjos nas costas
e olhos que constroem janelas e portas na
casa onde antes vivia o vento.


Chegas sem mãos
com o rito consolador
e levas a penumbra para trazer o Estio,
e com ele o quente.


Chegas sem olhos porque não precisas de ver
o que conheces e sabes existir.


Chegas sem nariz e sem rosto
porque tudo é eterno e teu.



Com as mil línguas que falas
espantas os ratos e as cobras
e a casa é toda ela habitável e nossa,
para os filhos que teremos do corpo e
para os filhos que vierem depois desses,
os netos dos mortos.


E ali, naquela casa,  toda a eternidade é amor.
Ali,  toda a eternidade é desejo.



Tradução de poemas de Inês Leitão por Xavier Frias

NO DIA EM QUE HATERLY MORREU E OUTROS POEMAS DE INÊS LEITÃO NO DIA EM QUE HATERLY MORREU
Deixámos de poder dizer amor com os dedos
porque tudo o que tinhamos de tacto
virou pó,
manta velha,
rol de velhas falácias ditas por bocas sujas de velho engodo,
e os dedos deixaram de saber dizer.

Deixámos de poder dizer amor com os lábios
porque decepados,
o rosto foi invadido pelo líquido vermelho
que alimenta o corpo e lhe faz as brasas.

Deixámos de poder dizer amor com os olhos
porque o único de nós que via,
deixou de ver, e
o que era antes corpo é agora quadro,
o que era antes luz é agora gelo
o que era antes cor é agora dor.
EN EL DÍA EN QUE MURIÓ HATERLY
Dejamos de poder decir amor con los dedos porque todo lo que teníamos por tacto se volvió polvo, manta vieja, lista de antiguas falacias dichas por sucias bocas de viejo cebo y los dedos dejaron de saber decir.

3 Mandamentos do Mundo

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Para a minha Ophelia que vive em Braga e não deseja mais o rio





1º Mandamento
Ama-te
2º Mandamento Ama
3º Mandamento Deseja amar.
(autor anónimo)



The mirror and the lamp ou a denotação da linguagem

Um dia perdoas-me
Pela dor e o pelo erro.

Atravesso a realidade que não conheço
Como na caverna.



Encontro de escritores em Famalicão - 23 e 24 de outubro

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Dia 23 e 24 estarei por aqui!
Entrada gratuita!



Até Sempre

Até Sempre, Duarte



Nunca me soube despedir de pessoas. Não vou, com certeza, saber despedir-me de ti.
Mas queria que soubesses que sei que só podes estar entre as nuvens, a rir-te, com aquele sorriso grande que achavas que eu também tinha.

Obrigada por todo o teu amor, por todo o teu reconhecimento, por teres ido a correr comprar o CM quando escreveram sobre nós: por torceres por aquilo que está a chegar.

Que pena que não vais estar por aqui quando for maior.


Até Sempre


Quando Vier a Primavera Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gost…

Da felicidade dos vivos

Olha para mim agora aqui,
 onde não há tempo:
e só nós os dois sobrámos ao mundo todo
aqui num colchão no chão.

Olha para mim, aqui,
a ver o teu corpo
e a espreitar-te o mundo pelos olhos
como se fosses o mundo e o mundo fosse o aglomerado de todos os teus ossos brancos
debaixo da pele.

Olha para mim, aqui, dentro de ti
a ver-nos ser corpo
e veia de carne
de corpo limpa de sangue.

Olha, aqui, para mim
eu que nunca tive medo
e que nunca fechei os olhos para não ver
(eu que sempre tive tanto medo de não ver)
Eu e tu,
em nome do Pai
do Filho
e do Espírito Santo.

Não nos morras, Luaty

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Esperamos a qualquer altura que a morte de Luaty seja uma realidade. A verdade é que um herói morto não fará nada por Angola. Não resisto a publicar aqui um texto da autoria da jornalista Carla Adão sobre a vida deste herói, tão à margem de todos os outros heróis.




CARTA ABERTA PARA LUATY Nunca nos conhecemos, mas talvez saibas quem sou!
Sou uma angolana que pelas circunstâncias da História nunca viveu na sua terra.
Triste com a realidade do meu país vivia, no entanto, na apatia da distância. A tua determinação despertou-me a raiva contra situações com que não concordo.
Admiro a tua dignidade, coragem e determinação. Receio, no entanto, que as consequências da tua greve de fome se esmoreçam rapidamente se morreres.
Muitos te chamam de herói, mas de que nos serve um herói morto? Desses já os temos! A melhor forma de mudar o nosso país é continuares vivo, a inspirar outros jovens a terem a tua determinação. Já inspiraste um movimento de luta pela libertação do grupo, vamos continuar esse mo…

Obrigada, special one

Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não. Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não. Sophia de Mello Breyner Andresen

Toda a dor do mundo

mil vezes o meu útero ao teu mil vezes a minha barriga por crescer mil vezes a minha dor
mil vezes os meus orgãos mil vezes as agulhas na minha pele mil vezes as minhas pernas abertas.
mil vezes tudo o que de mau possa acontecer, mil vezes os meus gritos e a minha sorte mil vezes em mim toda a dor do mundo.

mil vezes as minhas lágrimas mil vezes as minhas entranhas mil vezes a minha dor.

Jornadas de arquitectura - Lisboa - 17 outubro

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Vou estar com a minha irmã, Daniela Leitão,  na primeira mesa redonda das Jornadas de Arquitectura e Liturgia, já no próximo dia 17 de outubro em Lisboa.
Irei falar sobre a experiência do documentário "O meu Bairro",

Contamos com todos!



O documentário será exibido e a entrada é livre.

O mundo todo

It´s friday. I´m in love.


aqui.

Epilepsy dance

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A dança é uma forma de expressão que liberta o corpo e o faz fluir no espaço enquanto parte, circunstância e contexto.
 Os corpos deixam de ter membros superiores ou inferiores e passam a ser uma massa que se difunde e trespassa o tempo em cima de um palco que  agracie
(toda a dança pede palco e olhos que a vejam)
- foi depois daquele dia que nunca mais te vi; tu a ires connosco dentro da tua mala para sempre



A música, transformadora entra pelos ouvidos até ao sangue
- sempre pensei que cristalizássemos como as frutas de Natal



E torna-se o motor do corpo: dá-lhe a melodia da força que alimenta os músculos,
os pés hirtos de fortaleza,
os tendões como vigas de homem
- hoje tive saudades e lembrei-me que prefiro o Ian Curtis a dançar do que o Mick Jagger


Os músculos das pernas como pedras,
os braços como rochas e as mãos como estradas de ferro que se abrem no ar
sem sabermos onde terminam
- que deixámos de ser nós, deixámos de




A música que se injeta no corpo do bailarino à laia de dro…

Para a minha avó

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Querida Avó,



Hoje sonhei contigo. Não foi um sonho, foi uma presença.
Estavas na casa onde vivo –  não naquela onde pacificamente morreste no dia de Natal – sentada ao meu lado. Tinhas um lenço preto na cabeça como antes. Mas não falámos durante o meu sonho. Olhavas para mim com amor (não me recordo quanto tempo ficámos assim porque os sonhos são ausentes de tempo).
Lembro-me do dia em que morreste como se fosse hoje. A memória é nítida.
 Os bombeiros a chegarem sem som: lembro-me do meu cobertor amarelo por cima de ti e de te levarem nele, lembro de ficar a saltar à corda na casa dos padrinhos quando a ambulância ia contigo sem tocar a sirene: eu a ver-te ir da varanda na ambulância que não apitava, sem barulho, sem luz azul - eu nunca tinha visto uma ambulância sem luz azul e sem som

 Ias tu e a mãe lá dentro - eu a saltar à corda com a A. na varanda a ver-te ir, a saber que ias a dormir sem abrir os olhos mais
Depois disso a mãe levava-me ao cemitério de Benfica para te ver. Arra…

Cartas a M.

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17 janeiro de 1930

Querida M.,

“Is it really possible to tell someone else what one feels?” 
Leo Tolstoy, Anna Karenina


Não há mais luto nem mais travo a amargura, apenas uma certeza incessante de libertação e amor.
Amor aos outros e amor às minhas mãos e à minha cabeça.
Amo-me e toco-me com a delicadeza de quem tem dedos de tempo.  Aparecem cada dia mais personagens aqui no quarto: deixo-as entrar, cuido delas, falamos à janela. O meu quarto é silêncio como sempre desejei que fosse - às vezes música. Do outro lado da janela um prédio devoluto ao qual me mostro nua todas as noites, numa espécie de cumprimento ritualistico do corpo.

Assim  vão os meus dias. Assim vai a dor do mundo.


Neste mundo tudo tem a sua hora

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Maputo, 2 janeiro 1965





Querida M.,


Podia arrancar os cabelos com o luto que atravesso mas em vez disso, a escrita, ela própria, chega de noite como um bálsamo. Produzo à velocidade da dor.
Textos e textos novos, textos para teatro finalizados, produções várias com tantas personagens pela casa nuas: a dor é um motor aditivo.
Não penso mais nele porque afinal ele nunca existiu. A morte não existe no prisma da vida. Nós, aqueles cujo coração ressoa no peito com a força de uma manada de elefantes, não conhecemos a morte, de facto.
Ressalvo o amor que foi, mas não posso amá-lo porque não se amam os mortos, os que nunca existiram ou os que um dia viveram entre nós e nos tocaram a pele entre as pernas.
A escrita é salvífica.
Mal posso esperar pelo resto das minhas noites.





Da linha que Haterly bordava

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1+1= 2
 No dia em que Haterly morreu não comemos cogumelos fritos no sofá, nem dormimos no meio de gatos com pele de cinza e olhos de sol aflitos em calor branco.

5-7= tempo
No dia em que Haterly morreu não fomos ao sushi.

1+3=oquemeapetecer
No dia em que Haterly morreu, Lisboa acordou quente como um vulcão sem mãe e sem pai e nós não nos beijámos mais. Nunca mais. Nunca mais ao ponto de eu não saber onde ficam os teus lábios nem tu saberes onde ficam os meus
(como no escuro).



Nunca de nunca. Nunca de tempo.





2-2= 0
No dia em que Haterly morreu eu descobri que tu morreste afogado na água quente daquele país que vem no mapa e se marca a azul.

2-2= 0??
 No dia em que Haterly morreu eu vi-te afogar.

2-2=0 ????
No dia em que Haterly morreu eu vi que não bateste as pernas para te salvares, nem gritaste. No dia em que Haterly morreu eu vi que não pediste socorro enquanto te afogavas porque não querias ser salvo.
Olhavas para mim e eu olhava para ti. E era.

2-2=0 ???????????????
No dia em qu…

No dia em que Haterly morreu

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Deixámos de poder dizer amor com os dedos
porque tudo o que tinhamos de tacto
virou pó,
manta velha,
rol de velhas falácias ditas por bocas sujas de velho engodo,
e os dedos deixaram de saber dizer.


Deixámos de poder dizer amor com os lábios
porque decepados,
o rosto foi invadido pelo líquido vermelho
que alimenta o corpo e lhe faz as brasas.



Deixámos de poder dizer amor com os olhos
porque o único de nós que via,
deixou de ver, e
o que era antes corpo é agora quadro,
o que era antes luz é agora gelo
o que era antes cor é agora dor.

image: Lacombe


Comer Anais Nin ao pequeno-almoço

“Love never dies a natural death. It dies because we don't know how to replenish its source. It dies of blindness and errors and betrayals. It dies of illness and wounds; it dies of weariness, of witherings, of tarnishings.”



― Anaïs Nin

Quando um livro mata saudades

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Segunda-feira.

Herberto.
 Esta segunda-feira que vem.

Dia de Manifesto - 08 de abril

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A música é do maravilhoso Tiago Sousa. Os textos, neste caso, são meus. 
Podem ouvir aqui gratuitamente os Manifestos que escrevi contra este mundo (Manifesto a favor da utilização dos transportes públicos / Manifesto pela saída de emergência) .
A apresentação do disco está marcada a azul na minha agenda: DIA 08 DE ABRIL smile emoticon


Manifesto  A Favor da utilização de transportes públicos e Manifesto Pela Saída de Emergência - música de Tiago Sousa