segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Era uma vez o meu corpo e um homem que tocava piano





Era uma vez o meu corpo e um homem que tocava piano.




Mas primeiro,
era uma vez o meu corpo com mãos,
e pés e braços
e  pernas e
- tu a pedires-me o meu braço no teu corpo para dormires melhor e eu,



E era uma vez um dia em que disse
- sem que a minha boca soubesse como -
que eu gostava de ti como as minhas unhas gostam da minha boca que as rói com compaixão e por isso  seria teu
- eu, eu a dar-te o meu braço como quem alimenta  outro e o veste




E
(continuava a ser uma vez)
tu a olhares para mim com olhos que falam porque os teus olhos falam como uma boca humana com cordas lá dentro e lábios, e dentes
 e língua: os teus olhos tão castanhos de terra clara a olharem para o que resta do meu corpo
- e eu, eu a dar-te o meu braço, a libertá-lo do meu corpo por saber que vais dormir melhor com ele


e eu,


eu a olhar-me, a ver-me dar parte do meu corpo em sacrifício



E depois
continuava; era uma vez tu,



tu,
a fechares os olhos para dormir como quem serena depois de ficares com o meu braço como teu,

(pode o meu braço ser o teu corpo?)
(pode o meu corpo ser o teu?)
a  experimentar a tranquilidade do sono por uma só vez
- e eu, eu a ver-me  deixar de ser eu, a ter a certeza que depois nada mais será como antes.




credits: eric lacombe



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Do Limbo



É aí, nesse lugar onde os homens comem os dedos
que nos fazemos gente.


Aí, onde o canto do inferno começa
onde só os gritos cantam,
choram
e dançam:
aí em baixo onde habita a dor que não tem nome nem fim.


Nesse lugar onde os homens provam as unhas das mãos com fome,
cuspindo restos para o chão,
também se estende a hóstia que salva as almas magras e débeis,
as almas daqueles cuja boca nunca se abriu para pedir salvação:
o último dos redutos.


Porque é a comer a carne que nos fazemos gente:
e não pássaros que sabem do sol.








segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Da boca e do medo



não sei como podemos ser todas as palavras que dizemos,
(as palavras que nos saem de entre os dentes)
mas sei que se tocar os meus lábios
elas às vezes são a minha boca: o que eu não sabia ser.


(um dia podes não vir a poder comigo - com o meu peso tão imenso,
tão grande: eu menti quando disse que era pluma)


vou contar pelos dedos as vezes em que as palavras me saíram pela boca sem que eu notasse,
(em que as palavras me fugiram vestidas de outras pessoas,
de entre os dentes, transitadas pelas gengivas, a tocar o céu da boca)


pela língua, comigo a vê-las ir,

como se pudessem ser mais do que eu.




Mas eu não tenho medo delas:
eu nunca tive medo de tocar ou de vir a ser boca,
palavra que se fez.




image: Lacombe

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Da eternidade dos dedos



(Para M. com todo o meu amor)




devia ter-te dito que
os meus lábios conhecem a tua pele de outro Tempo
e que lhe dizem coisas enquanto a toco.



que se colar os teus dedos na minha boca
e a souber arrastar delicadamente pelo teu braço,
o meu cheiro é o teu,
o teu o meu.



que se tombar no teu colo,
sei que o teu corpo resgataria os meus ossos da morte
com a luz que iria buscar
- sem medo -
à água do deserto do corpo dos vivos.


devia ter-te dito que o formato do teu corpo,
a linha dos teus ombros tocados pelo sol,
são meus desde o momento da Criação.


(eu a saber que o meu corpo precisa tanto de ti.
eu a saber que queria tanto ter-te.)




image: Eric Lacombe

CAPAZES - "Mamas com farinha e a bela broa de Avintes"



O meu texto na Capazes a ler aqui




segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Porque ontem foi dia 5






Vou deixar que me ponhas os ossos partidos no sítio; vou deixar que apanhes o que sobra do meu corpo do chão.



Vou deixar que cuides de mim, que me cosas as feridas, que unas a minha pele com agrafos: vou deixar que me agrafes  os cortes profundos com os maiores ou me dês pontos interiores; e não vou chorar.



Vou deixar que me deites na tua cama e me limpes as marcas sem estar atenta ao perigo

( na tua casa o perigo é um homem alto que fica à porta: tu nunca deixas o perigo tocar-me)



Vou virar-me de barriga para baixo para veres o estrago nas minhas costelas enquanto sei que abanas a cabeça e lamentas a minha dor. 




Vou deixar que com uma tesoura me cortes a roupa para me tratar nua,  e vou ficar de olhos fechados em repouso,  porque em ti eu sempre pude sossegar. 




Vou deixar que me ponhas as ligaduras nos pulsos deslocados, nas costas massacradas, a pomada nas nódoas negras das pernas e nas ancas  em círculos de massagem com as pontas dos teus dedos - sempre - tão amorosos e salvificos. 



Vou deixar que arrumes o quarto de hóspedes da tua casa para mim, que me abras as malas e  me ponhas a roupa no armário para não se amachucar. 



Vou aceitar que cozinhes  e me leves comida à boca. 

Vou aceitar não fazer esforços até que os meus dedos escrevam

(eu sei que gostas de ouvir a velocidade dos meus dedos nas teclas e a luz do meu quarto acesa as 3 da manhã)

Sei que sorris quando eu escrevo. 

Vou aceitar ficar.

Porque tu és guarda.

Porque és abrigo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Nenhuma pedra morre






Para J. que é um salmão







A mão dele tem dois dedos mortos por quem me apaixonei.



Dois dedos  sem vida entre os outros que pulsam e ele a saber aceitá-los e a tê-los como parte de si, como quem tem filhos diferentes sem nada para lhes dar:  ele a continuar a amá-los ali.

(os dedos dele são troncos de árvores mortas mas ele não sabe)


De facto, aquela mão, faz-me amá-lo mais.


Ele disse-me que era um homem de dedos mortos e eu não me importei porque a nossa guerra é outra: a do entendimento.

A pior de todas. A feroz.



Ele também é um salmão: um salmão com uma mão.

É um salmão com uma mão de dedos mortos e pés e uma cabeça que pensa por ela própria e se movimenta por aquilo em que acredita; eu gosto das guelras dele. Gosto de o ver respirar.


Não sei se um dia destes o rio dele o leva.

 Se eu o perder de vista, vou sentar-me aqui a vê-lo ir, acreditando  que nenhum pescador o apanhe e que ele continue, rio acima, de escamas brilhantes, e possa encontrar o que procura.







terça-feira, 31 de julho de 2018

Tecido cardiaco




Avó,

Obrigada por teres vindo.

Já sentia a tua presença quando arrumei as malas no comboio, cheirou-me a Mangualde .
Sentei-me e o comboio iniciou a marcha, a hora do retorno.

Ninguém ocupou o lugar do corredor mas quando olhei de repente ali estavas tu: a mulher de lenço e vestido preto. Sentaste e olhaste para mim sem dizer nada.

(porque é que nós nunca falamos quando tu vens?)


Eu voltei a olhar para a janela até desistir da liberdade da paisagem e me render a ti e ao amor imenso que sempre me trazes; deitei-me de braços e meio corpo no teu colo.

Vieste.

Eu precisava de casa e tu vieste.

Vieste até Lisboa a encarolar-me o cabelo com as pontas dos teus dedos e eu adormeci assim.

Acordei com uma menina indiana e a mãe dela a dizerem-me que tinha de sair, era a última paragem.

Tu já tinhas ido. E a mensagem já tinha sido dada.




O nosso amor não é daqui.
O nosso tecido cardíaco também não.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Dia 6






Podia escrever que te amo na parede do meu quarto
com o dedo indicador como mensageiro

 (as unhas a caírem mortas no chão por saberem o que ai vinha: chamaram-lhe Amor)
até fazer sangue;
e desse sangue mártir saírem todas as letras em linha,
l
e
t
r
a
s
em linha
a  dizerem juntas o que eu devia saber dizer sozinha pela boca
- a minha boca  era uma flor 




Se esse indicador direito fosse morto pela prova do meu amor por ti
outro indicador logo  nasceria,
como garante do teu conhecimento sobre a minha afeição.



Esperei 1000 anos por ti
sentada num lugar onde não havia nem chuva,
nem sol,
nem mar,
nem vento ou tempestade: não havia escuridão mas também não havia luz;

eu sempre soube que chegarias até ao dia em que te vi.



Vieste.

O meu corpo do avesso a ver-te ao longe:
a chegada a dar-se.

- o teu cheiro amado e imaginado.



Esperei por ti no meu corpo 1000 anos,
voltaria a esperar por ti por mais 1000.




Image: Eric Lacombe



terça-feira, 24 de julho de 2018

Ainda que eu fale a língua dos Homens



Para o meu irmão amado, Luís Arriaga





Impreparados para o abismo roemos os olhos
porque as mãos são agora troncos de árvore no jardim
(o jardim que fica ali depois do vidro que é janela)


- olha lá para fora sem medo: a árvore é só a minha mão a arder



Mordemos as pernas porque os braços
Camille usa no seu mármore: a princesa de Rodin
tão substituída por outras,
tão libertada pelo seu mestre.



E eu podia falar de ti mas tu continuas sem vir porque não és daqui e
eu também já não te espero.



Mas se fosses, se o meu corpo esperasse ainda aqui sentado,
lerias poesia para mim mesmo que surda eu fosse
- a Poesia eu sempre saberei ouvir - ainda que sem ouvidos e olhos para a chorar


Os meus olhos e os meus ouvidos nunca foram nada.
A Poesia sempre me salvou.







segunda-feira, 23 de julho de 2018

Da viagem





  "(...) ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:
no final só importam o amor e a morte (...)"


L. G. Montero



(autor anónimo)




sábado, 14 de julho de 2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Se pudesses ler-me



Pergunto a mim mesma se quando o livro estiver pronto fará jus à tua altura. 

Algo sempre me diz que não, que a tua luz não precisa de um reconhecimento de massas deste género, que do lado onde estás já o tens, que isto é mais um Caminho meu que teu..

Descobri que amaste uma mulher sendo padre.

Não me embaracei com a informação mas fez-me posar a chávena de café e engolir em seco. Admirei-te mais, sabes, eras só um homem bom que servia Deus.

 Ela era uma mulher com a mesma causa que tu. E tão próxima de ti, non?

Sabes, no dia em que casei leram aquela passagem de Corintios 13. Aquela, a mais especial de todas,  a que explica o que o Amor é. Recordei-a por ti. Porque deves ter vivido aquilo tudo.

O teu amor era certamente benigno e paciente, e tudo deve ter suportado: talvez até o desespero do teu corpo.

És o homem branco da minha vida.
Sê-lo-ás sempre.





Coríntios 13:4-8 

"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará (...)

sábado, 7 de julho de 2018

O primeiro dia 5



Sabes, foi o primeiro dia 5 que não apareceste na minha cabeça. Passou um ano e dois meses que te piraste daqui para fora sem nota nem aviso.

Pela primeira vez enfrento um misto de revolta comigo própria por ter esquecido este 5 de julho, e de alguma forma, por outro lado, uma certa serenidade por saber que não lembrar a tua morta não é sinonimo de esquecer a tua vida.

Fui à tua casa, já deves saber porque isso ai no Céu vê-se tudo, não é? Eu imagino que sim.
Não lhes consegui falar de ti - elas a olharem para mim nas suas vidas e eu ali:  desaprendi o teu nome sem antes chorar e eu não gosto que me vejam chorar.

Mas sabes, dizem-me que tenho de te deixar ir.

Só eu é que não sei como isso se faz por isso fico quieta, sem falar: no fundo eu também não tenho nada para dizer porque isto da tua morte foi um poço onde cai e ainda não sei subir.

Por ti, sei que já me tinhas arrancado daqui.

Para celebrar a tal serenidade deixo-te esta foto. Tirei hoje deitada num relvado num país que conheço pouco e onde vim procurar respostas.

Sei que quando olhares para ela, saberás tudo o que há para saber.
Contigo era sempre assim


Sempre tua eterna companheira de jornada,

I.





quarta-feira, 4 de julho de 2018

Da ausência






Tenho tantas saudades de ti e do teu corpo que uma parede inteira não bastava para te escrever.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O teu corpo era uma frase bonita



Hoje acordei com saudades tuas: nós na tua cama nus no escuro, a olhar para o tecto como se ele dissesse coisas aos nossos olhos vivos.

 Se houvesse uma imagem nossa congelada no tempo era essa: a minha mão perto da tua, a pedir para ser tocada, e os nossos  olhos dentro do breu a olhar o tecto do teu quarto: nós com olhos de quem em vez de cal via amor dentro daquele escuro todo
- eu gostei tanto de ti ali deitado e nu

o teu tecto branco,
o teu tecto branco a dizer-me veste-te e foge e a minha mão a pedir a tua mão nua, segura e sem medo
- tu nunca tiveste medo (ou foste tão bom a escondê-lo)



O teu corpo e os teus olhos eram uma frase bonita e tu sozinho és um poema inteiro: um poema inteiro.



Um dia deste juro que te digo adeus.



Quem sabe amanhã, se o meu corpo deixar e os meus olhos não morrerem.

Adeus.




eric lacombe - image

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Meu querido M.



Querido M.,

Estamos a dois dias do meu aniversário. Estou feliz.

Ganhei coragem hoje, sabes?
Pela primeira vez fui à tua casa encontrar-me com a tua mulher e com a tua filha.

Não há restos de ti por lá:  não vi fotografias tuas e levava um escudo protetor no cérebro que me impediu de falar de ti.
Nenhuma de nós falou de ti mas tu eras a corda imaginária, uma espécie de cordão umbilical que nos ligava às três no teu sofá.

Não vi nada teu,  mas a impressão com que fiquei foi que tu estás colado às paredes da tua casa, e ao corpo da tua mulher e da tua filha.

Gigante como és, imagino que nunca as vás deixar.
Tu não eras daqui. Nunca foste.

No domingo, bebe um gin por mim, ai no Céu, sim?
Elas vêm dar-me o teu abraço à festa.




P.S.: Tenho muitas saudades tuas

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Querida Avó



Querida Avó,



estou quase a fazer anos e há tanto tempo que não sonho contigo.

Gosto de celebrar a vida, como sabes, e preparo-me para o fazer com a diligência de uma formiga que trabalha. Reunir pessoas, fazer convites, dizer que gosto deles ao telefone, arranjar um bolo altamente calórico na Versalhes.

Tenho feito isso sempre - mas mais agora - depois da morte do M.

Ainda não consegui ultrapassar esse enorme buraco: não consigo ainda nem dizer o nome dele.

 Para que saibas mesmo, não consigo sequer abraçar a mulher ou a filha dele porque não quero chorar, não quero ser mariquinhas. Mas isso hoje não importa, não é?
  Isso hoje não importa porque eu acredito em Céu e em anjos e em lugares no Céu onde se bebe gin e se é feliz com anjas e anjos:  o M. deve estar a beber uma cerveja num bar no Céu, com aquela gargalhada boa dele que fazia ouvir-se de uma ponta à outra do nosso bairro e talvez espreite cá para baixo para nos ver.

A sua morte ainda me tolhe a fala: como se a minha garganta se engolisse a si própria.
- quando quero falar dele engulo-me sem saber como fazer para falar




Mas voltemos aos meus anos. Está quase.

Dei muitas provas de valentia este ano, avó. Corri campeonatos e ganhei tudo o que havia para ganhar.

Só posso pedir que o próximo ano seja igual ou melhor.

A mãe está cada vez mais parecida com a imagem que tenho de ti dos meus 5 anos;  eu com as socas dos sapos calçados para ir mostrá-los à madrinha e a espatifar-me pelas escadas.

A cabeça aberta, toda a gente a olhar para mim e eu com medo de ficar sem as socas novas.

Essa parecença todos os dias me sobressalta porque este ano aprendi que só há uma coisa que eu nunca aprenderei a perder: as pessoas que amo.

Nunca vou saber fazer isso, avó.

Descobri que isso é como andares com um punhal no peito para o resto da vida. Andas com o punhal no peito, mas vives.

Estou quase a fazer anos ,avó, continua a olhar por mim ai das nuvens , sff.


terça-feira, 26 de junho de 2018

Declaração de Guerra




Faltam 4 dias e eu gostava de falar contigo com a facilidade com que falo com as teclas do meu computador.

As palavras escritas sempre foram mais fáceis para mim, sabes? Porque sei que há perpetuação, que tudo continua depois. Sei que ficam depois de mim e depois de ti,  para que alguém um dia possa ouvir de nós: porque não houve tempo.
Não houve tempo.



Faltou-nos tempo e tempo no espaço: porque há espaço sem tempo, não concordas?
Eu sempre procurei os dois.

Queria ter-te dito que a Ginko Biloba é a minha árvore favorita porque sobreviveu a Hiroshima com a tenacidade de quem sabe que o seu lugar é a terra: a Ginko biloba a dar um estalo ao nuclear que não lhe afectou os ramos nem as folhas – tens uma perto da tua casa mas acho que não sabes.

Queria ter-te dito que a minha praia favorita é S. Julião porque foi ali que aprendi a liberdade, e o mar: foi ali que aprendi o quanto o mar me dá.

Queria-te ter dito que o mundo é um lugar extraordinário e que acima de qualquer outra coisa, gosto tanto de encostar o meu ouvido ao teu peito cheio de coisas lá dentro,

 só para ouvir o teu coração bater.



quinta-feira, 14 de junho de 2018

Se eu não escrever sobre ti hoje








Se eu não escrever sobre ti hoje,
os meus dedos vão cair à terra sem que nada nasça deles à laia de semente,
 e as minhas mãos avisaram-me que não vão aceitar outra pele;
outra pele que venha a nascer.



Se eu não escrever sobre ti agora, nem sobre os teus olhos,
nem sobre os fios que te fazem cabelo,
são as orelhas: as orelhas e logo depois o nariz a descolarem-se do meu corpo
como pessoas a cair de mim
(a minha cara a desaparecer porque a seguir o meu queixo)



Se eu não falar de ti aos outros, há uma agulha pronta
para me coser os lábios: para os bordar e fazer deles napron de sofá antigo
numa casa sozinha.


Se eu não falar de ti agora aos outros, a lua vai para Júpiter
e marte recuará a sua órbita.



Se eu não falar de ti,
se eu não te traduzir para grego, aramaico e latim,
tu nunca saberás de nada,
nada de tudo aquilo que mora aqui.

Algoritmo




Os meus ossos têm febre
mas eu prefiro coser a minha boca a dizer-te o que eles te queriam dizer ao ouvido
com eternidade: os meus ossos falam em eternidade
e em ti,
e e mim, à noite antes de irmos todos dormir o meu corpo.

(os meus ossos prometeram dessossar-se para te falarem de mim sem que eu soubesse: eles queriam dizer-te do amor,
mas eu cosi a boca, sabes? cosia-a para ela nunca mais se abrir )


Eles queriam falar de nós,
como se eu 
e o meu corpo não estivéssemos aqui,
aqui,
aqui sentados os dois a olhar para ti pelo vidro,
aqui, sem saber bem porquê, 

a desejar-te tanto.





quinta-feira, 24 de maio de 2018

Do nada que é tudo






Eu era mais sozinha antes de ti: não numa solidão profunda, mas numa solidão escolhida e amada.

O tempo ensinou-me o que não quero mais e na prática tu não tinhas nada para me dar a não ser um futuro árido sem flores.

Eu preciso de flores, sabes? De flores. De água. De jardins. De ser
(eu preciso tanto de ser)




Minto. Tu tinhas coisas para me dar.
Tu tinhas o teu corpo e os teus olhos. Tinhas os teus olhos. E tinhas a maciez da tua barba que servia de casa à minha pele.
A tua ausência hoje é um motor de uma bomba de um poço que me arranca a escrita: comigo foi sempre assim. É ela e não eu.
Quando estou vazia ela entra com as palavras atrás como a maioral de um gang.

Há dias em que as palavras chegam sóbrias, mas tantas vezes chegam embriagadas agarradas às paredes e a rir, tantas vezes descompostas, tantas vezes como vizinhas do lado que eu nunca convidei a entrar 


(eu nunca quis escrever mas elas)



 estatelam-se no sofá, esfregam-se pelas paredes do meu quarto, empurram-me para cima da cama e mandam em mim.

De facto, as palavras definem o que eu sinto porque elas são eu a falar de mim cá fora como se eu saísse para me dizer– tal como agora enquanto falo de ti.

Hoje elas ; não tu, tu és elas: elas fazem a gramática cair de morta quando as explico mas não querem saber de nada, não se preocupam com a retidão.


Nós devíamos podido ter sido eternos. Eu gostava de ter sido eterna contigo mas talvez a eternidade seja apenas dos escolhidos.



Espero que um dia leias isto e saibas o que eu quis de ti.
Espero que elas saibam dizer-te isso por mim.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Do dia do nunca mais









Sou eu própria a fazer isto comigo, sabes?
Eu sei o que acontece a seguir se me faltarem as forças agora.

As cordas à volta dos pulsos e da boca fui eu quem as posicionei no meu corpo 

sozinha,

 enquanto os meus dedos da mão esquerda me caiam ao chão de  tanta pena que tiveram de mim,

eles a caírem inteiros, 

desde o osso que se desossou para se deixar sucumbir morto ao chão, à laia de suicídio de dedo
(eu a precisar tanto que os meus dedos me ajudassem a dar o nó na boca porque ela quer falar-te e dizer-te coisas bonitas; e eu sem puder, eu a tapar-me)

por mim, por não pudermos ser

Os dedos da outra mão e os dentes que me faltam foi por fazer isto comigo uma vez em que houve isto também.

Por fazer aquilo do impossível: desamar,
para nunca mais ter de passar perto da casa onde mora a dor.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Aniversário em flor


(Sim, sei que é amanhã. Mas amanhã para mim é já hoje)






Fazes anos hoje. Não te vou telefonar, nem mandar postais: quero que penses que me esqueci de ti.

Mas eu nunca me vou esquecer da tua vida, ainda que a tua vida tenha deixado de ser parte da minha: nunca serás esquecido, só omitido da minha boca e do resto do meu corpo.

Gostava de te dar um poema mas tu nunca foste da Poesia, ainda que a Poesia sempre fosse de ti.
A Poesia costumava viver em ti como um dedo ou uma orelha vive num corpo.
Cheguei a tirar-te Poesia da cara com o pano da cozinha, um dia quando vinhas do trabalho.

(Gostava tanto de te dar um poema mas os meus dedos foram queimados e já não me sobram mais).



Queria que fosses feliz, sabes? Ainda como nas cartas de amor que te escrevia, como sublinhava em todos os teus postais de aniversário.

Obrigada pelo que me pudeste dar, no tempo nosso. Há sempre um tempo.
Se te ligo é porque tenho saudades do nosso e às vezes queria que ele voltasse para me salvar, mas depois acordo e sei que eu nunca quis ser salva de nada: só amada, de tudo.

E isto podia ser um poema, mas é uma declaração de guerra.

Sê sempre feliz.
Mesmo que a tua felicidade me esqueça.

E eu, com sorte, um dia a si.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Concurso audiovisual





A PASTORAL PENITENCIÁRIA DE PORTUGAL promoverá em parceria com a RESTART - Instituto de Criatividade Artes e Novas Tecnologias, a primeira edição do concurso – “Do outro lado da câmara: vidas e prisões portuguesas”.  
 
Os alunos RESTART são convidados a apresentar vídeos que abordem a temática das prisões em Portugal (com uma duração máxima de 4 minutos) e todas as obras em competição serão submetidas à avaliação de um júri.  
 
Este concurso tem como objetivo a promoção do conhecimento público da realidade prisional portuguesa e os vídeos devem ser enviados até ao dia 31 de julho de 2018. 
 
O prémio consiste numa viagem a Barcelona de 4 dias com alojamento incluído e será atribuído em cerimónia pública. 

O anúncio oficial deste concurso será feito no próximo dia 21 de março pelas 11h00 no instituto Restart em Belém.



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

“O padre das Prisões “ apresentação em Lisboa

A segunda ediçao do livro “O padre das prisões” terá lugar dia 21 de fevereiro pelas 19:00 na livraria Ferin.
A apresentação do livro será feita por Inês Ferreira Leite.



AMA - a short film by Julie Gautier