sexta-feira, 12 de julho de 2019

Das flores na boca







Já não somos os mesmos:
se olhares para nós no espelho tu já não estás ao meu lado
e os teus olhos são agora vermelhos.
Perdeste a cor castanho de cometa que fazia os meus brilharem também.



Já não somos os mesmos,
nem somos juntos, nem mesmo perto
e não há nada a fazer se não chorar de joelhos no sepulcro do tempo
- é lá que  vocês dormem, dizem-me os peixes.

 Gostava de poder chorar, mas não consigo explicar isto tudo aos meus olhos.
Se compreendidas as razões e os meus olhos começassem
 iriamos os quatro na corrente:  o choro daria um rio e mal nos aguentaríamos de mãos dadas na água que nos arrastaria
- assistiríamos à nossa morte outra vez.



Já não somos os mesmos,
não temos a mesma língua, o mesmo estomago,
a mesma promessa de eternidade:
já nada nos liga, só o lugar da morte.


Já não somos os mesmos.
Mas isso é só mais um fim
 e, se atentarmos bem, até a morte
tem beleza de flor.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Quando os dedos me caem




quando me disseram que ias morrer, o tempo caiu-me aos pés. mas não foi só ele a ceder vida.
com ele a boca, os olhos, o queixo, as sobrancelhas a descolarem autónomas de mim.

trocaria o meu lugar pelo teu.


sabes, faria isso não por não amar a minha própria vida, mas exatamente  por amá-la tanto e considerar que seria um desperdício ser-te negado o que eu tenho e tive: um mundo extraordinário e a possibilidade de viver nele todos os dias.

o meu amor por ti nunca deixaria que isso acontecesse.

o avião que me levou até ti, nessa cidade que sempre será nossa, chorava das asas mas ninguém viu.

quando te vi nesse isolamento obrigatório, vi caírem-me com os dedos, os dentes; dentes a saltarem-me da boca em suicídio e os dedos sozinhos, um a um, subitamente congelados e frios, a estalar  medo de um dia deixar de poder tocar nos teus cabelos loiros, pequenos raios de sol que nos fazem sorrir de ti.


tocar o teu corpo magro e senti-lo renascer agora a cada dia, deixa-me a impressão de que tudo voltará à normalidade e que é mesmo Natal. o verdadeiro. o do  verdadeiro Amor e do verdadeiro renascimento.

o meu amor por ti  será sempre eterno como esse sol que trazes contigo: esse sol que também me faz querer escrever quando o vejo.

se me deixares, a minha escrita é sepultada.

as minhas mãos sem dedos. o meu pensamento e a minha dor desterrar-me-iam para um mundo onde há fim.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Casa Municipal da Cultura COIMBRA - Documentário



Amanhã vai ser exibido e debatido o documentário "Este é o meu Corpo" em Coimbra pelas 18h30.
Conversa com a guionista e autora da ideia original - Inês Leitão

Entrada Livre!!!

Mais info aqui




sexta-feira, 16 de novembro de 2018

TV +Saúde - entrevista sobre documentário


Podem ver toda a entrevista aqui
                                                                     (min 14´51)


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Do Limbo



É aí, nesse lugar onde os homens comem os dedos
que nos fazemos gente.


Aí, onde o canto do inferno começa
onde só os gritos cantam,
choram
e dançam:
aí em baixo onde habita a dor que não tem nome nem fim.


Nesse lugar onde os homens provam as unhas das mãos com fome,
cuspindo restos para o chão,
também se estende a hóstia que salva as almas magras e débeis,
as almas daqueles cuja boca nunca se abriu para pedir salvação:
o último dos redutos.


Porque é a comer a carne que nos fazemos gente:
e não pássaros que sabem do sol.








segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Da boca e do medo



não sei como podemos ser todas as palavras que dizemos,
(as palavras que nos saem de entre os dentes)
mas sei que se tocar os meus lábios
elas às vezes são a minha boca: o que eu não sabia ser.


(um dia podes não vir a poder comigo - com o meu peso tão imenso,
tão grande: eu menti quando disse que era pluma)


vou contar pelos dedos as vezes em que as palavras me saíram pela boca sem que eu notasse,
(em que as palavras me fugiram vestidas de outras pessoas,
de entre os dentes, transitadas pelas gengivas, a tocar o céu da boca)


pela língua, comigo a vê-las ir,

como se pudessem ser mais do que eu.




Mas eu não tenho medo delas:
eu nunca tive medo de tocar ou de vir a ser boca,
palavra que se fez.




image: Lacombe

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Da eternidade dos dedos



(Para M. com todo o meu amor)




devia ter-te dito que
os meus lábios conhecem a tua pele de outro Tempo
e que lhe dizem coisas enquanto a toco.



que se colar os teus dedos na minha boca
e a souber arrastar delicadamente pelo teu braço,
o meu cheiro é o teu,
o teu o meu.



que se tombar no teu colo,
sei que o teu corpo resgataria os meus ossos da morte
com a luz que iria buscar
- sem medo -
à água do deserto do corpo dos vivos.


devia ter-te dito que o formato do teu corpo,
a linha dos teus ombros tocados pelo sol,
são meus desde o momento da Criação.


(eu a saber que o meu corpo precisa tanto de ti.
eu a saber que queria tanto ter-te.)




image: Eric Lacombe

Das flores na boca

Já não somos os mesmos: se olhares para nós no espelho tu já não estás ao meu lado e os teus olhos são agora vermelhos. Perdeste ...