segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Era uma vez o meu corpo e um homem que tocava piano





Era uma vez o meu corpo e um homem que tocava piano.




Mas primeiro,
era uma vez o meu corpo com mãos,
e pés e braços
e  pernas e
- tu a pedires-me o meu braço no teu corpo para dormires melhor e eu,



E era uma vez um dia em que disse
- sem que a minha boca soubesse como -
que eu gostava de ti como as minhas unhas gostam da minha boca que as rói com compaixão e por isso  seria teu
- eu, eu a dar-te o meu braço como quem alimenta  outro e o veste




E
(continuava a ser uma vez)
tu a olhares para mim com olhos que falam porque os teus olhos falam como uma boca humana com cordas lá dentro e lábios, e dentes
 e língua: os teus olhos tão castanhos de terra clara a olharem para o que resta do meu corpo
- e eu, eu a dar-te o meu braço, a libertá-lo do meu corpo por saber que vais dormir melhor com ele


e eu,


eu a olhar-me, a ver-me dar parte do meu corpo em sacrifício



E depois
continuava; era uma vez tu,



tu,
a fechares os olhos para dormir como quem serena depois de ficares com o meu braço como teu,

(pode o meu braço ser o teu corpo?)
(pode o meu corpo ser o teu?)
a  experimentar a tranquilidade do sono por uma só vez
- e eu, eu a ver-me  deixar de ser eu, a ter a certeza que depois nada mais será como antes.




credits: eric lacombe



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Do Limbo



É aí, nesse lugar onde os homens comem os dedos
que nos fazemos gente.


Aí, onde o canto do inferno começa
onde só os gritos cantam,
choram
e dançam:
aí em baixo onde habita a dor que não tem nome nem fim.


Nesse lugar onde os homens provam as unhas das mãos com fome,
cuspindo restos para o chão,
também se estende a hóstia que salva as almas magras e débeis,
as almas daqueles cuja boca nunca se abriu para pedir salvação:
o último dos redutos.


Porque é a comer a carne que nos fazemos gente:
e não pássaros que sabem do sol.








segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Da boca e do medo



não sei como podemos ser todas as palavras que dizemos,
(as palavras que nos saem de entre os dentes)
mas sei que se tocar os meus lábios
elas às vezes são a minha boca: o que eu não sabia ser.


(um dia podes não vir a poder comigo - com o meu peso tão imenso,
tão grande: eu menti quando disse que era pluma)


vou contar pelos dedos as vezes em que as palavras me saíram pela boca sem que eu notasse,
(em que as palavras me fugiram vestidas de outras pessoas,
de entre os dentes, transitadas pelas gengivas, a tocar o céu da boca)


pela língua, comigo a vê-las ir,

como se pudessem ser mais do que eu.




Mas eu não tenho medo delas:
eu nunca tive medo de tocar ou de vir a ser boca,
palavra que se fez.




image: Lacombe

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Da eternidade dos dedos



(Para M. com todo o meu amor)




devia ter-te dito que
os meus lábios conhecem a tua pele de outro Tempo
e que lhe dizem coisas enquanto a toco.



que se colar os teus dedos na minha boca
e a souber arrastar delicadamente pelo teu braço,
o meu cheiro é o teu,
o teu o meu.



que se tombar no teu colo,
sei que o teu corpo resgataria os meus ossos da morte
com a luz que iria buscar
- sem medo -
à água do deserto do corpo dos vivos.


devia ter-te dito que o formato do teu corpo,
a linha dos teus ombros tocados pelo sol,
são meus desde o momento da Criação.


(eu a saber que o meu corpo precisa tanto de ti.
eu a saber que queria tanto ter-te.)




image: Eric Lacombe

CAPAZES - "Mamas com farinha e a bela broa de Avintes"



O meu texto na Capazes a ler aqui




segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Porque ontem foi dia 5






Vou deixar que me ponhas os ossos partidos no sítio; vou deixar que apanhes o que sobra do meu corpo do chão.



Vou deixar que cuides de mim, que me cosas as feridas, que unas a minha pele com agrafos: vou deixar que me agrafes  os cortes profundos com os maiores ou me dês pontos interiores; e não vou chorar.



Vou deixar que me deites na tua cama e me limpes as marcas sem estar atenta ao perigo

( na tua casa o perigo é um homem alto que fica à porta: tu nunca deixas o perigo tocar-me)



Vou virar-me de barriga para baixo para veres o estrago nas minhas costelas enquanto sei que abanas a cabeça e lamentas a minha dor. 




Vou deixar que com uma tesoura me cortes a roupa para me tratar nua,  e vou ficar de olhos fechados em repouso,  porque em ti eu sempre pude sossegar. 




Vou deixar que me ponhas as ligaduras nos pulsos deslocados, nas costas massacradas, a pomada nas nódoas negras das pernas e nas ancas  em círculos de massagem com as pontas dos teus dedos - sempre - tão amorosos e salvificos. 



Vou deixar que arrumes o quarto de hóspedes da tua casa para mim, que me abras as malas e  me ponhas a roupa no armário para não se amachucar. 



Vou aceitar que cozinhes  e me leves comida à boca. 

Vou aceitar não fazer esforços até que os meus dedos escrevam

(eu sei que gostas de ouvir a velocidade dos meus dedos nas teclas e a luz do meu quarto acesa as 3 da manhã)

Sei que sorris quando eu escrevo. 

Vou aceitar ficar.

Porque tu és guarda.

Porque és abrigo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Nenhuma pedra morre






Para J. que é um salmão







A mão dele tem dois dedos mortos por quem me apaixonei.



Dois dedos  sem vida entre os outros que pulsam e ele a saber aceitá-los e a tê-los como parte de si, como quem tem filhos diferentes sem nada para lhes dar:  ele a continuar a amá-los ali.

(os dedos dele são troncos de árvores mortas mas ele não sabe)


De facto, aquela mão, faz-me amá-lo mais.


Ele disse-me que era um homem de dedos mortos e eu não me importei porque a nossa guerra é outra: a do entendimento.

A pior de todas. A feroz.



Ele também é um salmão: um salmão com uma mão.

É um salmão com uma mão de dedos mortos e pés e uma cabeça que pensa por ela própria e se movimenta por aquilo em que acredita; eu gosto das guelras dele. Gosto de o ver respirar.


Não sei se um dia destes o rio dele o leva.

 Se eu o perder de vista, vou sentar-me aqui a vê-lo ir, acreditando  que nenhum pescador o apanhe e que ele continue, rio acima, de escamas brilhantes, e possa encontrar o que procura.







terça-feira, 31 de julho de 2018

Tecido cardiaco




Avó,

Obrigada por teres vindo.

Já sentia a tua presença quando arrumei as malas no comboio, cheirou-me a Mangualde .
Sentei-me e o comboio iniciou a marcha, a hora do retorno.

Ninguém ocupou o lugar do corredor mas quando olhei de repente ali estavas tu: a mulher de lenço e vestido preto. Sentaste e olhaste para mim sem dizer nada.

(porque é que nós nunca falamos quando tu vens?)


Eu voltei a olhar para a janela até desistir da liberdade da paisagem e me render a ti e ao amor imenso que sempre me trazes; deitei-me de braços e meio corpo no teu colo.

Vieste.

Eu precisava de casa e tu vieste.

Vieste até Lisboa a encarolar-me o cabelo com as pontas dos teus dedos e eu adormeci assim.

Acordei com uma menina indiana e a mãe dela a dizerem-me que tinha de sair, era a última paragem.

Tu já tinhas ido. E a mensagem já tinha sido dada.




O nosso amor não é daqui.
O nosso tecido cardíaco também não.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Dia 6






Podia escrever que te amo na parede do meu quarto
com o dedo indicador como mensageiro

 (as unhas a caírem mortas no chão por saberem o que ai vinha: chamaram-lhe Amor)
até fazer sangue;
e desse sangue mártir saírem todas as letras em linha,
l
e
t
r
a
s
em linha
a  dizerem juntas o que eu devia saber dizer sozinha pela boca
- a minha boca  era uma flor 




Se esse indicador direito fosse morto pela prova do meu amor por ti
outro indicador logo  nasceria,
como garante do teu conhecimento sobre a minha afeição.



Esperei 1000 anos por ti
sentada num lugar onde não havia nem chuva,
nem sol,
nem mar,
nem vento ou tempestade: não havia escuridão mas também não havia luz;

eu sempre soube que chegarias até ao dia em que te vi.



Vieste.

O meu corpo do avesso a ver-te ao longe:
a chegada a dar-se.

- o teu cheiro amado e imaginado.



Esperei por ti no meu corpo 1000 anos,
voltaria a esperar por ti por mais 1000.




Image: Eric Lacombe



terça-feira, 24 de julho de 2018

Ainda que eu fale a língua dos Homens



Para o meu irmão amado, Luís Arriaga





Impreparados para o abismo roemos os olhos
porque as mãos são agora troncos de árvore no jardim
(o jardim que fica ali depois do vidro que é janela)


- olha lá para fora sem medo: a árvore é só a minha mão a arder



Mordemos as pernas porque os braços
Camille usa no seu mármore: a princesa de Rodin
tão substituída por outras,
tão libertada pelo seu mestre.



E eu podia falar de ti mas tu continuas sem vir porque não és daqui e
eu também já não te espero.



Mas se fosses, se o meu corpo esperasse ainda aqui sentado,
lerias poesia para mim mesmo que surda eu fosse
- a Poesia eu sempre saberei ouvir - ainda que sem ouvidos e olhos para a chorar


Os meus olhos e os meus ouvidos nunca foram nada.
A Poesia sempre me salvou.







AMA - a short film by Julie Gautier