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Cartas a R.

Lourenço Marques, 5 de Janeiro de 1969

Querido R.
As tuas cartas ainda me fazem rir. Nunca conseguirei aceitar que um corpo seja compreendido como uma oportunidade. Um corpo a dormir comigo nunca foi uma oportunidade: para mim, fenómenos dessa natureza são analisados criteriosamente sob a semelhança de um atropelamento grave. Tenho a nítida impressão que todos os meus relacionamentos com homens foram acidentes de viação violentos que me amputaram membros ou – tão estranhamente - me acrescentaram órgãos ao corpo, Tenho mais rins, mais fígados, mais tripas do que qualquer outra pessoa que conheças. Corpos deitados na minha cama sempre me fizeram sentir mais sozinha: e eu sou sozinha como nunca imaginaste que uma mulher podia ser. Sou envergonhadamente sozinha. Tanto, que me enterneço de compaixão pelos dedos dos meus pés ou pelos pêlos que me crescem a medo, lentos de medo. Às vezes tenho vontade de pegar em mim ao colo e levar o meu corpo para longe: uma oportunidade nunca comportará o respe…

Em nome do Corpo

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Não
 posso
ex-pli-car
 a
 importância
do
teu
 corpo
sem
te
 con-tar






- o teu corpo é o único lugar do mundo onde ninguém te toca, porque ninguém te sabe aí dentro (...)

Ode à estação de Entrecampos

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Pessoas.
Pessoas que são pessoas, pessoas
que agarram pessoas, pessoas
que pisam pessoas, pessoas
que gritam com pessoas, pessoas
que tocam pessoas, pessoas
que cospem pessoas, pessoas
que cansam pessoas, pessoas
que olham pessoas, pessoas
que desejam pessoas, pessoas
que pensam em pessoas, pessoas
que amam pessoas, pessoas
que têm pessoas, pessoas
que não têm pessoas, pessoas
com ódio de pessoas, pessoas
que sabem ter pessoas, pessoas
que não sabem ter pessoas, pessoas
com raiva de pessoas, pessoas
com raiva de pessoas que têm pessoas, pessoas
sem raiva de pessoas que têm pessoas, pessoas
que dormem em pessoas, pessoas
que acordam pessoas, pessoas
que vomitam pessoas, pessoas
que limpam pessoas, pessoas
com pessoas na barriga, pessoas
sem pessoas na barriga, pessoas
que ajudam pessoas, pessoas
que levam pessoas, pessoas
que esperam pessoas, pessoas
que são pessoas. Pessoas. Pessoas. Pessoas.


Chelsea Hotel

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Debaixo do meu corpo vive uma mulher.



Debaixo do meu corpo vive uma mulher magra de 35 kilos.

Debaixo do meu corpo encolhe-se entre os meus órgãos uma mulher de pernas pequenas que estreita magreza pelos braços até às mãos.

Debaixo do meu corpo vive uma mulher de meia idade, de olhos grandes e azuis de vazio,
sem sobrancelhas feitas de pêlos ou de desenhos a lápis.

Debaixo do meu corpo vive uma mulher sem seios
(dois altos de pele murcha à laia de figo mastigado)




sem sexo
(apenas uma curva de corpo ausente de pêlo ou fenda)




e sem mundo
ardente do cheiro das coisas
a morrer dentro da sua cabeça.


Debaixo do meu corpo vive uma mulher que não come, não bebe
e é amplamente calva na unidade que é a sua pele.

Debaixo do meu corpo vive uma mulher.
Gosto de chamar-lhe Lídia.





O acesso ao meu corpo é feito por palavras

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(para a minha tia Maria José com todo o meu amor)



As palavras têm cio. 
As palavras fazem cirúrgias de peito aberto mas não gostam de bisturis. As palavras não competem entre si porque se amam e gostam de se abraçar. As palavras gostam de amálgamas  e as mais abusivas pensam todos os dias em novas formas de violar a sintaxe das frases quando ninguém vê.
As palavras gostam da cabeça de David Mourão-Ferreira e da cabeça de Mia Couto. As palavras gostam da boca de Galeano e têm um amor profundo pela Srª Adília Lopes.
As palavras não atravessam a estrada fora da passadeira e não existe em qualquer parte do mundo uma única palavra preguiçosa.
As palavras gostam de crianças com menos de 5 anos: gostam de ser provadas, experimentadas, comidas docemente como só elas sabem fazer.
As palavras sabem que os acordos ortográficos lhes fazem mal à pele.
As palavras gostam de sonhos e de bocas bonitas com baton. As palavras gostam da palavra baton.
As palavras gostam de imigrantes e de emigrar.
A…