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Dos dias e das noites

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Em dias como este tenho vontade de arrancar a pele do meu corpo com a ferocidade das unhas
até alguém me encontrar e me fazer parar.
Em dias como este eu pentearia o meu cabelo com a insistência dominada da fúria até todo ele estar cansado da passagem da escova pela cabeça;
 o cabelo a gritar a queda e uma cara de gente no espelho a olhar para nós
( eu, o cabelo e a escova)
- não sou eu dentro do espelho, juro que não sou

uma cara no espelho que nos assiste.




Em dias como este há um buraco no chão em cada passo dado: as pernas tropeçam e fazem cair
(são as pernas que fazem cair)
 as nódoas negras e as feridas pintam a pele e cada queda tem mais brutalidade que a queda anterior
- e tudo isto a saber-me bem
(eu a saber que saber bem não é bom)



Em dias como este há um buraco no peito que se abriu com o formato de um tiro de bala, que nos tira a fome, a vontade de andar: é um buraco acre de vazio que nos encaminha para a cama e nos tapa
-não acordar mais: coser os olhos para nunca mais acord…

Da dor

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Matamos as saudades.
Não as eliminamos, não as apagamos, não as tapamos, nem as sabemos reduzir até à sua inexistência
- são elas que  nos reduzem a nós

 resta-nos matá-las. Matar. Pegar em armas e matar.
Não sabemos aligeirá-las, não existe pomada nem comprimido que nos liberte: o ideal é matar a saudade toda logo, não permitir que ela respire (tapar-lhe a boca e apertar-lhe o nariz),
nem permitir que ela nos toque: afogá-la ou dar-lhe com uma pá na cabeça para ela cair desfeita no chão e desaparecer-nos  dos olhos imediatamente

(a saudade começa-nos nos olhos)

 A pá, o crânio desfeito no chão e a ausência rápida de saudade
-sim, a saudade tem um crânio; tem um crânio porque às vezes a saudade é pessoa; e quando é pessoa dói mais e precisamos que ela morra mais rápido ainda


Matá-la. Matar. Matá-la. Até à sua inexistência. Até a saudade não existir mais, nem doer mais, porque a morte da saudade não lhe deixa um corpo e não precisa de enterro.

Mas matá-la, sim, a morte é a única solução…

Lanugo (parte II)

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Eu sentada nua do lado de fora da banheira com a pele à espera da água certa,
 a torneira a correr (há sempre a água certa: a água que não queima, a água que não dói)  a água morna, média, boa de quente - um dia achei que gostavas de mim a sério

a mão dentro a provar a água: a água a dizer-me que ainda não estava pronta para eu entrar - esperava que gostasses de mim  sem que elas  me aparecessem  no tecto do quarto de propósito,   o flash que cega o acordar
[não somos nós dentro das fotografias, pois não?]

quando a madrugada me acorda os sonhos
e os meus olhos abrem juntos como se estivesse viva



ainda morna demais,
 fria demais, quente de menos: a água - gostar a sério: não como os cães gostam das cadelas,
 não como os bichos: gostar a sério.

a mão a experimentar a água,  depois o braço todo até ao cotovelo e a pele sem reclamar  (só para ver se podia por o corpo todo a seguir) - a sério,
a sério: não como  animais

e depois tu a quereres entrar à força
a água que ainda não estava na temperat…

Se o meu corpo fosse um homem

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O livro "Se o meu corpo fosse um homem" pode ser encomendado através do email seomeucorpofosseumhomem@gmail.com .
O envio é feito por correio e o pagamento por transferência bancária.


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Lançamento "Se o meu corpo fosse um homem"

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