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A mostrar mensagens de Novembro, 2015

Da Poesia na cara

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Às vezes a Poesia, às vezes nós.
Às vezes o tempo do outro lado do vidro,
às vezes a pedra e a cruz e a benção,
às vezes o amor mas sempre Poesia.


Às vezes a morte a dormir ao nosso lado
às vezes a dor deitada de barriga para cima no sofá da sala
às vezes o nosso corpo sem pés e
sem mãos e sem braços:
às vezes a cave: o quarto escuro,
mas sempre a Poesia.

Às vezes o medo debaixo da mesa, escondido de nós nas escadas
no escuro,
às vezes o abraço e o beijo;
tantas vezes os ossos no corpo do desmaio
mas sempre Poesia.

Às vezes o ascético morrer de solidão
às vezes a toalha no corpo depois do banho
a limpar-nos do pecado;
às vezes os braços dos outros a segurarem-nos a cabeça em fortaleza
 para ela não cair e partir
(como quem pode segurar-nos a cabeça para ela não cair  e partir)
às vezes os dentes brancos no espelho da casa de banho
mas sempre a Poesia.

Às o que tínhamos que era infinito e
às vezes quando o infinito era medo e bosque e unhas na boca;
às vezes as pernas abertas, às veze…

Da espera dos outros

Para o meu irmão L. que me ensina coisas bonitas




Um dia aprendemos a esperar. Ficamos à porta de uma casa e esperamos. Sabemos que a pessoa que queremos está lá dentro e ouviu-nos tocar.
Tocamos: ela sabe-nos ali.
Pode fingir e não querer abrir, mas sabe que estamos do outro lado da porta: com a cabeça, com os braços, com as pernas que nos sobram de um amor. Esperamos.
Esperamos porque o amor sempre nos deixa com o nosso corpo. Esperamos assim que alguém abra a porta. Que a pessoa que está do outro lado nos queira e venha; esperamos que ela  nos deixe entrar porque é só isso que queremos afinal; não pedimos mais nada, só queremos entrar.
Não voltamos a tocar porque quem espera não insiste , mas encostamos a cabeça à porta. Continuamos. Esperamos. 

Podemos até sentar-nos no chão à espera.
Esperamos fora do imediato porque aprendemos que as pessoas têm tempo dentro delas, desajustado dos nossos relógios de pulso, do nosso. Espera-se que a porta abra, depois espera-se que ela abra o suficien…

Do som e da fúria

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Nunca uma música falou tão alto.
Nunca uma melodia disse tanto.



Aqui.

                                                Van Gogh - "Os comedores de batatas"






Exibição "O Padre das prisões"

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Lisboa e Porto!
Entrada Livre



A casa

Para J. com todo o meu amor



E depois chegas tu
com anjos nas costas
e olhos que constroem janelas e portas na
casa onde antes vivia o vento.


Chegas sem mãos
com o rito consolador
e levas a penumbra para trazer o Estio,
e com ele o quente.


Chegas sem olhos porque não precisas de ver
o que conheces e sabes existir.


Chegas sem nariz e sem rosto
porque tudo é eterno e teu.



Com as mil línguas que falas
espantas os ratos e as cobras
e a casa é toda ela habitável e nossa,
para os filhos que teremos do corpo e
para os filhos que vierem depois desses,
os netos dos mortos.


E ali, naquela casa,  toda a eternidade é amor.
Ali,  toda a eternidade é desejo.



Tradução de poemas de Inês Leitão por Xavier Frias

NO DIA EM QUE HATERLY MORREU E OUTROS POEMAS DE INÊS LEITÃO NO DIA EM QUE HATERLY MORREU
Deixámos de poder dizer amor com os dedos
porque tudo o que tinhamos de tacto
virou pó,
manta velha,
rol de velhas falácias ditas por bocas sujas de velho engodo,
e os dedos deixaram de saber dizer.

Deixámos de poder dizer amor com os lábios
porque decepados,
o rosto foi invadido pelo líquido vermelho
que alimenta o corpo e lhe faz as brasas.

Deixámos de poder dizer amor com os olhos
porque o único de nós que via,
deixou de ver, e
o que era antes corpo é agora quadro,
o que era antes luz é agora gelo
o que era antes cor é agora dor.
EN EL DÍA EN QUE MURIÓ HATERLY
Dejamos de poder decir amor con los dedos porque todo lo que teníamos por tacto se volvió polvo, manta vieja, lista de antiguas falacias dichas por sucias bocas de viejo cebo y los dedos dejaron de saber decir.