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A mostrar mensagens de Setembro, 2016

Brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor.
queríamos o amor um pelo outro sem hesitações, como se a desgraça nos servisse bem e, a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia.
eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo.
tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio, tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso.
estavas tão diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho.
tu dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo…

No dia em que tu nasceste

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Tens o mundo inteiro no teu peito,
entre os teus pêlos há casas com luz,
gente na rua, rios e cidades inteiras que não se mexem: falam baixo,
existem tão-só sepultadas na mansidão.



Tens o mundo inteiro no teu peito
de carne humana que degela quem quer que seja que nele queiras acolher.



E depois tens os teus olhos. Os teus olhos.
- ainda não falei dos teus olhos

Quieto, o teu olhar sem saber,
faz numa varanda verde de Lisboa,
fruta por milagre crescer.





Carta Aberta a Gregório Duvivier

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Caro Gregório Duvivier,
* texto publicado nas Capazes Há coisas que não podemos deixar incólumes. A sua última crónica fez-me ficar três minutos de olhos colados ao iphone enquanto a lia e relia – ao mesmo tempo que apanhava o metro da linha azul em direcção ao Marquês de Pombal (uma maravilhosa estação de metropolitano em Lisboa, onde cem corpos passam por nós a cada dois minutos) e por pouco saí na estação certa. Fiquei a pensar na sua crónica o dia todo, confesso-lhe. http://m.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2016/09/1812342-desculpe-o-transtorno-preciso-falar-da-clarice.shtml?cmpid=facefolha Tinha de lhe escrever porque apostava a minha mão direita em como aquele texto dirigido a Clarice não foi um golpe básico de marketing para o vosso novo filme: aquele texto cheira à honestidade que o Amor traz, de uma ponta à outra, e deixa qualquer coração humano a precisar de ser desfibrilhado em tempo recorde. Ri-me muito consigo. Com a “Porta dos Fundos” e com o “Vai que cola” (fil…

Este é o meu corpo - Documentário

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CAPAZES

Vera Sacramento Capaz
Rita Ferro Rodrigues Capaz



Das coisas da terra

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Sabemos que somos morte, cal e dor, como sabemos que a profundidade do nosso corpo não é a profundidade estática da nossa existência quieta, plácida, involuntária
- eu nunca pedi que um dia tu viesses e te sentasses com o teu corpo para me ouvires falar por dentro,
 lá dentro onde tudo o que é vida acontece 



tão involuntária
- mas tu vieste e disseste: mundo


E eu ouvi-te.
Não era só eu quem falava: quieta,
plácida,
 involuntária - tu lembras-me os búzios que as senhoras da Ericeira vendiam perto da marisqueira onde almoçávamos: elas a jurarem que era só preciso eu encostar a cabeça e ouvir


Quieta, plácida
- eu a encostar o ouvido  para ouvir o mar guardado lá dentro:
eu a acreditar




Involuntária
-  de como somos tão parecidos nas nossas corcundas ou no nosso corpo esbelto e direito que trazemos à laia de lembrança de vida



Quieta, plácida, invo-lun-tá-ria
- há tanto tempo que sou sozinha que acho que não sei mais ser de outra forma



Que sabe antever os passos da morte e da vida: porque um dia…