terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Poema Eterno ou a Palavra Muda


 
 
Há um poema novo a nascer-me debaixo de língua
à laia de árvore que rasga a Terra:
o poema que quer sair.

A palavra muda arde presa à boca
ao que resta dos dentes, da saliva
(a saliva é a água só da boca, exclusivamente da boca, eternamente da boca):
o poema que quer sair.

A palavra muda aflige o corpo,
como dor das contrações de parto
O corpo pára, grita, regela e coça-se:
mas o poema não vem.

O poema como fissura,
o poema como racha vermelha entre as pernas,
o poema como corte
e mágoa e dor.
(todo o poema é dor).

Todo o poema é dor e corpo e boca e ranger de dentes.
Todo o poema é pecado original, sanguinário, mortal.



Não sei o que será de nós
quando o porvir se cumprir
e o cunho da chaga do tempo for marcado
na pele que fervilha
pelo poema que nasceu.




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