quarta-feira, 20 de junho de 2012

Do acto de contrição






Podíamos começar por aquela noite em que eu apareci à tua porta de pijama e pantufas
- eram duas da manhã e os meus olhos não conseguiam sono de tão sozinhos, apartados do resto da cara, apartados do nariz, da boca, das sobrancelhas



depois de me ver do tecto,
eu a ver-me do tecto, das paredes, eu a ver-me sozinha, sem ti e sem mim, tu a seres uma voz, tu ao telefone a seres uma voz, tu a mandares-me voltar, a dizeres-me para ir que ninguém saberia de nada: tu
tu com amor da varanda, a esperares por mim, a vir da estrada com o meu corpo, com o meu pijama e com as minhas pantufas
- o carro mal estacionado


tu a deixares-me entrar de pijama, o carro, eu, os sacos: eu, os sacos e aquilo que havia entre nós, aquilo que era inquietação e amor. Talvez fosse inquietação e amor.
Sempre foi inquietação. E talvez sempre amor.

Sem comentários:

Enviar um comentário