domingo, 1 de maio de 2016

O último dos dias






Não: dizem que a relva parou de crescer.
Dizem que o cabelo caiu a todos os homens da terra e que todas as unhas do corpo murcharam à laia de figos secos, presos pela carne no fim dos dedos da mão.
Dizem que a água dos rios e dos mares encaroçou à laia de seio materno a quem o leite desceu. Dizem que alguém chamou a morte dos montes, mas que a morte se recusou a vir, ocupada que estava em ver lá de cima a desgraça na Terra.

Dizem que o vento parou a meio e cristalizou tudo dentro se si, envidrando todas as pessoas que estavam na rua àquela maldita hora: homens, mulheres e crianças.
Dizem que as suas bocas abertas e os seus olhos de terror, cristalizados, moldaram de pânico os que haviam escapado ao vidrovento, assistindo agora desgovernadas
- eu continuei em frente porque não conheço nenhum outro caminho



Dizem que as nuvens fizeram uma cortina de pedra que se fechou  e que os pássaros caiam mortos no chão, como se caçados fossem ao céu
- eu, desta vez sem

Dizem que as mulheres deixaram de querer os seus homens e os homens de querer nuas as suas mulheres na cama, procurando bichos.
Dizem que as crianças recusavam o colo materno e dormiam amamentadas por cobras, sobrevivendo com elas, ao lado dos seus ovos, os seus dias.
-eu, sozinha



Dizem que a música desapareceu da superfície da terra e que sobrou a chuva; mas a música da chuva mal sabia cantar a música das pedras.
- eu, a andar mais sem mais ninguém, sem mais nada: só em frente

Mas dizem que dos pés do último homem nasceram flores.
De que da sua cabeça brotou erva, ar e água para os animais e que os seus olhos feitos  de carne de olho de homem eram montanhas por alcançar.
Dizem que a sua carne era terra castanha e que as suas pernas e braços, troncos invencíveis, onde todos se podiam governar.








 imagem: Eric Lacombe

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