segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Das coisas da terra





Sabemos que somos morte, cal e dor, como sabemos que a profundidade do nosso corpo não é a profundidade estática da nossa existência quieta, plácida, involuntária
- eu nunca pedi que um dia tu viesses e te sentasses com o teu corpo para me ouvires falar por dentro,
 lá dentro onde tudo o que é vida acontece 



tão involuntária
- mas tu vieste e disseste: mundo



 E eu ouvi-te.
Não era só eu quem falava: quieta,
plácida,
 involuntária
- tu lembras-me os búzios que as senhoras da Ericeira vendiam perto da marisqueira onde almoçávamos: elas a jurarem que era só preciso eu encostar a cabeça e ouvir



Quieta, plácida
- eu a encostar o ouvido  para ouvir o mar guardado lá dentro:
eu a acreditar




Involuntária
-  de como somos tão parecidos nas nossas corcundas ou no nosso corpo esbelto e direito que trazemos à laia de lembrança de vida




 Quieta, plácida, invo-lun-tá-ria
- há tanto tempo que sou sozinha que acho que não sei mais ser de outra forma




Que sabe antever os passos da morte e da vida: porque um dia houve em que vida foi concebida e maltratada,
um dia houve em que a esperança se calou sentada num banco de madeira que girava num lugar onde a luz nos dava na cara
- não faz mal que fiques: não faz mal que vás




Porque todo o sabor fica na boca. Não se apaga.
 Fica na boca e na cabeça. Nas duas,  às vezes juntas.
Nas duas, às vezes, como se fossem só uma.






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