terça-feira, 3 de outubro de 2017

Não há um único dia em que não me lembre de ti




Para Andreia Vaz





Não há um único dia em que não me lembre de ti.

De como te sentavas na mesa da sala de jantar para comermos os nossos ossos;
(nós cozinhávamos-nos  porque só nos tínhamos um ao outro)

a cartilagem morta que a boca achava entre os dentes era delicadamente atirada para o garfo pela língua,
com a mão à frente, de olhos baixos,
como se estivéssemos a pecar.

A cartilagem cirurgicamente colocada à beira do prato sem chorar,
como se não tivesse direito a entrar em nós, ser alimento

(isso éramos nós os dois )

mas não sem antes sorvermos a sopa, com o olhar fixo um no outro
 sem se ver a nossa cara até ao nariz:
a cara anulada pela malga do jantar.

Não há um único dia em que não me lembre de ti.

Eu enquanto preparava o jantar,
a ver-te sentado à televisão há espera que existisses.
(às vezes acho que querias existir na minha vida, só não sabias como e eu também não)

E todos os dias do mundo te quero saber morto.






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