Cartas a S.

(carta nº4)

É como num funeral pequeno. Um funeral intimista com uma pessoa
(viva)


vestida de preto e de margaridas frescas na mão.

E depois um caixão e uma morte pequena dentro dele
(são tantas as nossas mortes)

uma morte pequena
 deitada,
limpa,
vestida, 
desinfectada,
autopsiada, 
legalizada
e fria.

Esta morte faz questão da  presença da pessoa viva. Faz questão dessas mãos juntas,
do vestido preto
das margaridas húmidas nas pétalas e de um corpo vivo,
sereno,
plácido,
que lhe traga a serenidade que procura dentro do seu caixão envernizado.

Esta morte fez questão de todo o ritual, como uma mulher que aborta e quer para o seu nado-morto tudo o que o mundo lhe pode dar:
como se um dia tivesse vivido e amado.




E o luto foge-nos pelas pernas, no espaço que vai da campa à porta de casa.

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