domingo, 27 de março de 2016

Do esquecimento





Esqueci-me de te dizer que a minha cara me escorreu sem querer pelo espelho enquanto lavava os dentes de manhã
(juro que esfreguei bem: agora esfrego bem os dentes, esfrego durante muito mais tempo)



Escorreu-me pelo espelho da casa de banho e eu não fui a tempo de limpar tudo para ficar tudo limpo e  para deixar tudo como estava.

Eu queria ter deixado tudo como estava mas eu já não sei exactamente onde ficavam a minha boca no espelho, onde era o meu nariz, onde podia colar os meus olhos com as minhas pestanas lá dentro; não sabia o que fazer ao drama da testa caída da cabeça, das sobrancelhas e do queixo que tinha na mão, depois de apanhar  tudo do chão
( o meu queixo diferente de todos os outros queixos da rua -  eu a querer ter queixos como os que vejo a andar nas caras da rua)
- onde é que eu?




mas a minha cara a escorrer pelo espelho e eu a limpar rápido com as mãos; a limpar rápido com as mãos e com papel higiénico, a limpar rápido com o que tinha: eu e a minha cara a limparmos rápido tudo do chão frio para não se saber.

Eu a ter de tocar-lhe, novamente, como se estivesse viva.






2 comentários:

  1. Que texto dramático e metafórico, querida Inês! O teu estilo de escrita é muito interessante. Beijinho. O "nosso" artista continua a acompanhar os teus textos.

    ResponderEliminar
  2. achas que o nosso artista gosta do que eu escrevo? eu continuo a gostar muito do que ele escreve :)

    ResponderEliminar