sexta-feira, 25 de março de 2016

Dos ossos do corpo






Não levamos os olhos no corpo, só dor.

Não levamos as pernas que fazem o corpo andar, nem os dedos que servem para escrever. Não levamos os dentes na boca, não levamos lábios nem maçãs do rosto: não levamos a pele sequer connosco
(não, vamos deixar a pele aqui)
- quando eu era pequena a minha mãe abria a palma da mão sobre o meu rosto para o tactear. A sua mão, longa de aberta, a fazer o trabalho dos seus olhos, como se de uma mulher cega se tratasse - e cega - precisasse conhecer um filho que era seu



Como nos quadros que mentem beleza
( a mãe nunca foi cega, sempre trazia os seus olhos grandes consigo para me ver)



Como nos quadros que mentem perfeição: a estrada acaba
(os olhos da minha mãe são duas coisas no seu corpo)



E eu, eu que não sei dizer flor, não sei dizer canto: eu que nunca soube dizer adeus
- a mão da minha mãe que me tacteava a cara tinha um cheiro. A mãe, cega, parecia saber onde ficavam os meus olhos, o meu nariz e a minha boca. Parecia conhecer todo o posicionamento estratégico do meu rosto 



Um dia desistimos de caminhar, desistimos dos sapatos, desistimos dos pés e deixamos tudo à porta.
- a mãe sabia o caminho das minhas sobrancelhas até ao fim, demorava-se nas sobrancelhas para a seguir, os olhos; para  a seguir as pestanas


Um dia fechamos a porta e deixamos de ter medo de comer pó: comemo-lo como se de carne se tratasse.
 A boca ganhar-lhe-á o sabor.





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