quinta-feira, 28 de junho de 2018

Querida Avó



Querida Avó,



estou quase a fazer anos e há tanto tempo que não sonho contigo.

Gosto de celebrar a vida, como sabes, e preparo-me para o fazer com a diligência de uma formiga que trabalha. Reunir pessoas, fazer convites, dizer que gosto deles ao telefone, arranjar um bolo altamente calórico na Versalhes.

Tenho feito isso sempre - mas mais agora - depois da morte do M.

Ainda não consegui ultrapassar esse enorme buraco: não consigo ainda nem dizer o nome dele.

 Para que saibas mesmo, não consigo sequer abraçar a mulher ou a filha dele porque não quero chorar, não quero ser mariquinhas. Mas isso hoje não importa, não é?
  Isso hoje não importa porque eu acredito em Céu e em anjos e em lugares no Céu onde se bebe gin e se é feliz com anjas e anjos:  o M. deve estar a beber uma cerveja num bar no Céu, com aquela gargalhada boa dele que fazia ouvir-se de uma ponta à outra do nosso bairro e talvez espreite cá para baixo para nos ver.

A sua morte ainda me tolhe a fala: como se a minha garganta se engolisse a si própria.
- quando quero falar dele engulo-me sem saber como fazer para falar




Mas voltemos aos meus anos. Está quase.

Dei muitas provas de valentia este ano, avó. Corri campeonatos e ganhei tudo o que havia para ganhar.

Só posso pedir que o próximo ano seja igual ou melhor.

A mãe está cada vez mais parecida com a imagem que tenho de ti dos meus 5 anos;  eu com as socas dos sapos calçados para ir mostrá-los à madrinha e a espatifar-me pelas escadas.

A cabeça aberta, toda a gente a olhar para mim e eu com medo de ficar sem as socas novas.

Essa parecença todos os dias me sobressalta porque este ano aprendi que só há uma coisa que eu nunca aprenderei a perder: as pessoas que amo.

Nunca vou saber fazer isso, avó.

Descobri que isso é como andares com um punhal no peito para o resto da vida. Andas com o punhal no peito, mas vives.

Estou quase a fazer anos ,avó, continua a olhar por mim ai das nuvens , sff.


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