sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Para a minha avó





Querida Avó,




Hoje sonhei contigo. Não foi um sonho, foi uma presença.
Estavas na casa onde vivo –  não naquela onde pacificamente morreste no dia de Natal – sentada ao meu lado. Tinhas um lenço preto na cabeça como antes. Mas não falámos durante o meu sonho. Olhavas para mim com amor (não me recordo quanto tempo ficámos assim porque os sonhos são ausentes de tempo).
Lembro-me do dia em que morreste como se fosse hoje. A memória é nítida.
 Os bombeiros a chegarem sem som: lembro-me do meu cobertor amarelo por cima de ti e de te levarem nele, lembro de ficar a saltar à corda na casa dos padrinhos quando a ambulância ia contigo sem tocar a sirene: eu a ver-te ir da varanda na ambulância que não apitava, sem barulho, sem luz azul
- eu nunca tinha visto uma ambulância sem luz azul e sem som

 Ias tu e a mãe lá dentro
- eu a saltar à corda com a A. na varanda a ver-te ir, a saber que ias a dormir sem abrir os olhos mais

Depois disso a mãe levava-me ao cemitério de Benfica para te ver. Arranjávamos o teu lugar porque os mortos passam a ser um lugar.
Tinha 5 , 6 anos, e aos domingos ela ia . Desconfio que precisava de ti como eu preciso dela agora.
Ela falava contigo enquanto limpava o mármore, comprávamos cameleiras bonitas e a tua campa era a mais bem cuidada e a mais amada de todas as outras. Os outros usavam flores de plástico e nós não.
Lembro-me de estar especialmente bonita aos domingos: a missa, o cabelo penteado pela mãe, o vestido e os sapatos de verniz com meias brancas. Almoçavamos e apanhavamos o comboio para te ir ver a Benfica.
Lembro-me de uma trança no cabelo com um laço, às vezes.
Lembro-me de jogar às pedras entre as campas e de não ter medo do facto de estarem pessoas deitadas debaixo da terra a dormir: ali ninguém nos faz mal e podemos falar com eles à vontade.

A mãe tinha um galho numa árvore preferido: punha a mala ali assim que chegava, eu começava a ver a cara das pessoas nas fotografias, a tentar ler as pedras que diziam coisas em cima delas: a mãe ia buscar um balde de água para esfregar o mármore até ficar imaculado.
 Às vezes não tinha a certeza se a mãe estava a rezar, a falar contigo, mas lembro-me de por vezes achar que chorava. Devia ter saudades tuas.

Mas hoje sonhei contigo, avó.
Talvez porque eu tenha sido a única de nós que não é tão forte. A bisa  que um dia foi esfaqueada pelo teu pai e foi, ela própria pelo seu pé, à procura de socorro na noite escura da quinta onde vivias; tu que te fizeste sozinha, a mãe que nos criou com todo o seu trabalho e com todo o seu amor.
Somos um clã de mulheres mais fortes do que as outras. Sempre fomos. Com pouca sorte em relação aos homens que amamos.

Tu que eras uma das mulheres mais bonitas da tua aldeia, eras surda de nascença. Mas dizem que os teus olhos, o teu rosto, a tua altura e a tua elegância te elevavam a uma condição de mulher única. A mãe deslumbrava nos seus casacos de peles nos anos 60, o seu cabelo, as suas ancas que herdei, as suas viagens.
Eu, a mais jovem do nosso clã, mereci a tua visita ontem. Acredito que os sonhos nos aproximam do céu.
Obrigada, avó, por teres vindo ver-me.


Até logo



7 comentários:

  1. Poucas vezes sonhei com o Pai...
    Este testemunho trouxe-me à lembrança as minhas idas ao "dormitório" todos os Domingos. Eu, o meu mano e a minha mãe. Mas mais vezes eu e a mãe, e mais tarde junto-se o meu padrasto, também ele viúvo. Foi o nosso roteiro "domingueiro" durante anos. Lembro-me de chegar ao lugar onde onde se encontra o meu pai a "dormir" e a primeira coisa que fazia era beijar a sua fotografia. Tinha que ir por trás da cabeceira, e como pequenino que era, tinha facilidade de movimentos, e com uma ginástica própria da idade, lá conseguia "beijar o meu pai". Tinha eu 3 anos de idade. O que mais confusão me fazia, e tive que perguntar à minha, era o facto de não saber como iriam os sepultados ao WC (que inocência). A mãe, na sua humilde condição respondeu "já não precisam filho".

    Um abraço
    HV

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  2. Aos poucos, desde que comecei a não te conhecer, fui compreendendo o porquê de Desfibrilhador
    a cada coisa que fazes, a cada coisa que escreves, vais-nos matando do coração

    e é para isso que ele serve, não é? para ir morrendo e desfibrilhando

    (para que não restem dúvidas, isto é mesmo um agradecimento! :)

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  3. Este teu cantinho é poesia pura. Simplesmente, adoro! Parabéns.

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Texto CAPAZES - A Carrilho o que é de Carrilho

A ler aqui