segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Do império do mundo






Talvez seja o teu corpo ou talvez o meu. Talvez o cheiro dos teus olhos a olharem e eu sem que a minha boca me obedeça;  porque eu queria dizer noite, queria dizer dia
d-i-a
- eu sem saber dizer 
d
i
a

eu que às vezes olho para as coisas  e não sei falar
(os meus lábios, a minha língua, os maxilares: a minha boca tem um céu lá dentro que eu nunca vi)




a terra debaixo de ti à espera  da queda: sabemos que acontecerá quando tropeçares num adversário que se vai posicionar para te fazer cair; o teu pé, o desenho da perna, o ombro no ar de lado e o teu corpo que voa
( só voas porque tu és homem)

a tua cara na terra: a fechares os olhos para não te veres, a pele, a expressão do embate, o sobrolho contraído a aceitar o corte e logo depois a dor
( a dor, talvez só depois, a dor)
- eu a tentar mexer a boca para te dizer o lugar onde todos os comboios passam



O embate.
Talvez eu, sim, eu por dentro sem saber o que fazer ao teu corpo e a ti quando chegares com ele para me ver.
Eu a saber que vais cair daqui a pouco- e tão desesperadamente
 à espera que saibas voar. 







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